Soluções Integradas para a Cadeia Produtiva do Leite e da Carne

Cana e Boi: uma integração possível e necessária

A Cana reaparece com força total no mundo agropecuário, nos remete aos tempos de monocultura do Império e nos apresenta, juntamente com a pecuária extensiva, possíveis soluções para essa parceria.

A principal divergência entre cana e boi é a questão espacial e lucrativa que estão diretamente ligadas. A lucratividade em curto prazo e a recente explosão em investimentos na cana enche os olhos dos envolvidos no setor agropecuário que podem passar a ceder a área destinada à pecuária extensiva ao cultivo da cana. Esse fato configura uma ameaça à pecuária?

Essa é a pergunta estampada nos rostos de todos os que se fazem presentes na cadeia produtiva da carne e do leite. A área destinada à pecuária extensiva, segundo o IBGE, é de 225 milhões de hectares, responsáveis por produzir aproximadamente 207 milhões de cabeças bovinas, sendo que a exportação da carne bovina saltou de 500 milhões de dólares para 300 bilhões de dólares nos últimos dez anos, permitindo ao Brasil, ainda que com a questão da aftosa mal resolvida, alcançar o topo do ranking mundial com cerca de 20% do mercado. Já a cana de açúcar dispõe de uma área, analisada pelo IBGE em 2006, de 6,161 milhões de hectares, com produção atual brasileira de biodiesel de 176 milhões de litros anuais.

Essa quantidade é suficiente para suprir apenas 17% da demanda nacional, e contribui para uma pequena participação no mercado global de 1% de um volume de 30 bilhões de litros produzidos a cada ano. Para aqueles que estão perplexos com o avanço da cana por terras antes ocupadas pela pecuária, as previsões para 2030 dão conta de que até lá o Brasil estará produzindo 66,5 bilhões de etanol, volume superior em 300% a produção atual, segundo o Plano Nacional de Energia divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética. Esse mesmo estudo afirma que a cana deverá ocupar – no decorrer dessas próximas duas décadas ‒ 13,9 milhões de hectares ou apenas o equivalente a 9% da área destinada à pecuária extensiva.

Esses números deixam claro, portanto, que a cana, apesar do imenso barulho produzido em torno dela, em função do etanol, e das efusivas manifestações em prol de seu cultivo, pelo presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva – seu maior entusiasta e garoto propaganda do etanol além mares ‒ não se traduz em uma ameaça efetiva , em âmbito nacional, à pecuária. Valorização paulista Para o Secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, João de Almeida Sampaio Filhio, “devemos ter um quadro estabilizador nas áreas de cana, com crescimento, mas não na velocidade que tivemos até o momento”. Entretanto, os solos paulistas nunca foram tão valorizados em função do cultivo da cana-de-açúcar, seja em alocações ou arrendamentos de terras.

Entre 2001 e 2006, a valorização das terras paulistas atingiu uma média de 18,23% e o preço do hectare passou de R$ 2.899,54 em 1995 para R$ 10.128,12 em 2006. O preço da terra agricultável, no Estado paulista, teve aumentos de até 75,8%, com valores que variam de R$ 8,9 mil/ha para R$ 15,8 mil/ha. Comparados com os preços de terras no Mato Grosso do Sul, maior produtor de bovinos do país, as variações são bem menos expressivas, com o custo do hectare estabilizado entre 4,5 mil reais a 6,3 mil reais.

Em 2030, o Brasil estará produzindo 66,5 bilhões de etanol (foto: cdcc.sc.usp.br)


Mesmo assim, para este ano agrícola, estima-se o cultivo de até 232,8 mil hectares de cana-de-açúcar contra os 209,7 mil (ha) registrados na safra anterior, naquele Estado, o que representa um aumento de 11% na área plantada da safra 2007/2008 de cana-de-açúcar, ante o plantio anterior. E, de acordo com um levantamento da estimativa de safra, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Mato Grosso ocupa a sétima posição no ranking dos Estados que mais destinam terras para a cana-de-açúcar, atrás apenas de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Alagoas, Pernambuco e Goiás, ocupando o segundo lugar no ranking do Centro-Oeste. Já o Estado de São Paulo, maior produtor de cana-de-açúcar (segundo a Conab), pode ser caracterizado como uma região de dupla aptidão, com terras perfeitas tanto para uma atividade, quanto para outra. Diversificação, no caso, parece ser a palavra-chave do quebra-cabeças.

De acordo com Glauco Carvalho, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, a solução pode ser um pacote de tecnologia que englobe: seleção genética, nutrição, transferência de embriões, venda de gado de elite e venda de carne para frigoríficos exportadores, o que ajudaria a expulsar uma possível crise da pecuária extensiva de corte no Estado de São Paulo. Outra solução apontada pelo pesquisador, passa, necessariamente, pelo pastejo rotacionado que consiste na divisão de piquetes onde o gado permanece três dias em cada piquete, enquanto o primeiro piquete passa por um descanso de trinta dias, tempo suficiente para que a pastagem possa se refazer, com o gado sendo manejado para o piquete seguinte e, assim, sucessivamente.

De modo geral, não só no Estado de São Paulo, mas no País inteiro, o pecuarista deve aumentar seus rendimentos até uma margem de 7% para que continue ocupando seu espaço e o torne definitivo nas áreas brasileiras, já que o solo do país possui uma grande diversidade e boa aceitação para diferentes culturas e criações. Cotação em baixa Apesar de tanta expectativa e investimento, a cotação da cana continua em baixa até 2009, embora tenha sido a única cultura com rendimento positivo em 2006. Outro fator que alavanca o crescimento do cultivo da cana, em detrimento da pecuária extensiva, é o aumento do número de usinas, que vai de 343 para 416 até 2010. A queda do preço do boi gordo nos últimos anos coincidiu com o período de alto investimento na cultura da cana. Assim, as pastagens do oeste paulista tornam uma presa fácil para a expansão da cana em áreas destinadas à pecuária.

Em Araçatuba, no interior do Estado de São Paulo, por exemplo, houve um crescimento de 15,9% na safra 2006/2007, perfazendo um total de 4,25 milhões de hectares. Uma das alternativas que se percebe nesse panorama “cana x boi” é a crescente onda de remanejamentos, não só no Estado de São Paulo como em Minas Gerais e Centro Oeste, com destaque para Goiás, que teve um crescimento de 81% da área plantada com cana entre as safras de 1999/2000 e 2003/2004. A Agropecuária Jacarezinho, localizada em Valparaíso no Estado de São Paulo, é uma das propriedades paulistas que planeja, até 2010, transferir seus 40 mil bovinos para uma fazenda de 47 mil hectares adquirida no oeste da Bahia. Até o fechamento desta edição, cerca de 10 mil bovinos já haviam sido transferidos e as terras de Valparaíso serão destinadas ao cultivo da cana-de-açúcar.

Adilson Mello, zootecnista da Matsuda Minas, aponta como a principal questão envolvida no remanejamento e na causa de tamanha adesão à cana-de-açúcar, a valorização das terras. Segundo ele, em Minas Gerais, os pecuaristas estão remanejando os rebanhos para o norte do Estado. O investimento em cana muito tem a ver com a aceitação e demanda pelo açúcar e álcool. No entanto, os preços do combustível registraram novas quedas, no último trimestre, no estado de São Paulo. Para o álcool hidratado, o Indicador semanal Cepea/Esalq caiu 0,89% em relação à semana anterior, com média de R$ 0,57685/litro (sem impostos).

O indicador do anidro recuou 0,35%, para R$ 0,66287/litro (sem impostos). Há um mês aproximadamente, os Indicadores para São Paulo mostravam uma oferta ligeiramente acima da demanda, especialmente no período de pico da colheita, favorecida pelo clima seco. “Uma vez que temos a recuperação dos preços do boi, teremos automaticamente uma retomada da atividade, assim como o movimento de retração nos preços da cana também inibe o seu quadro de expansão”, afirma o Secretário João Sampaio, numa análise do quadro. Gás metano Entretanto, não se pode fazer vista grossa para as questões ambientais que envolvem a dobradinha cana x boi. As duas situações, sempre muito em pauta, são extremamente diferentes. Os bovinos, que andam levando a culpa por liberar gás metano, não contribuem de forma tão desastrosa para o efeito estufa como se apregoa, mas o controle disso está diretamente ligado ao manejo e a dieta do rebanho.

O secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Xico Graziano, destaca que “os dados divulgados pela Embrapa indicam que o boi libera, por ano, cerca de 60 kg de gás metano”, o que chega perto de 30 gramas por dia e o responsabiliza por um total que não chega a 2% do gás metano emitido pelo homem em atividades como queimadas, devastação de florestas e de áreas agropecuárias. No Brasil, as maiores fontes dos gases responsáveis pelo efeito estufa são provenientes das queimadas, cana e outros resíduos agrícolas. É por esse motivo que os plantadores de cana de Jaú e mais onze municípios da região do interior de São Paulo estão proibidos de queimar a planta para o corte. A determinação é do juiz José Maurício Lourenço, que atendeu a requerimento dos Ministérios Públicos Estadual e Federal.

Ele expediu liminar que suspende as licenças estaduais para queimadas e só reconhece a legitimidade de ordens emitidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “O que eu posso garantir é que o nosso boi deverá sempre ser o chamado boi verde, porque temos riqueza para a geração de alimentação animal produzida de forma extensiva, seja na integração com a cana utilizada na alimentação ou com outras formas de suplementação alimentar”, sugere João Sampaio. Integração Lavoura-Pecuária Outro ponto que deve ser salientado, que se faz extremamente necessário diante deste possível impasse, é a implementação da Integração Lavoura Pecuária, que nos permite utilizar a cana para alimentação animal, até o seu bagaço. Em regiões de pecuária tradicional, como é o caso de Barretos, a cana ocupou na safra 2005/2006 grandes áreas de pastagens e de grãos e, mesmo assim, a produção de carne não caiu porque houve a união dessas duas atividades agrícolas.

A conclusão a que se chega, facilmente, observando-se todas essas movimentações, em torno das duas atividades agropecuárias, é que não há uma desistência da pecuária extensiva e, sim, uma grande onda de remanejamento dos rebanhos para terras mais baratas, nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste, de um lado, e de outro, um grande falta de informação sobre a integração cana-pecuária. O mapa da pecuária no Brasil pode, e vai, ser modificado, mas jamais será extinto.

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