Receita de boi a pasto

Em entrevista exclusiva para o portal Boi a Pasto, o Dr. Paulo Bardauil, diretor geral do IZ (Instituto de Zootecnia) de Nova Odessa, São Paulo, juntamente com os pesquisadores da Instituição, Antonio João Lourenço, Abel Ciro Minti Igreja e Cláudia Pozzi, destacam os principais elos da cadeia produtiva da carne e do leite que, na sua visão do segmento, compreendem a própria receita de boi a pasto. Se o pecuarista brasileiro quiser produzir boi e leite de qualidade, tem que investir em cuidados que começam com as próprias pastagens, que devem ter sua reforma planejada de tempos em tempos, sem que se chegue ao ponto de degradação;cuidar para que não falte suplementação mineral na época das secas, evitando a perda de peso nos períodos de estiagem, sem se esquecer da sanidade e segurança animal, que passam, necessariamente, pelos cuidados com vacinas, e outros procedimentos sanitários, além de implantar a rastreabilidade, visando o controle, o manejo e o bem estar do animal, desde a cria, até o abate, passando pelas fases de recria, engorda e reprodução, de acordo com as características de cada empreendimento agropecuário.
Boi a Pasto – O que significa a expressão “boi a pasto” e por que ela é tão confundida com boi orgânico?
IZ – A expressão boi a pasto significa, de uma maneira geral, que os animais foram criados, recriados e engordados exclusivamente a pasto sem a alternativa de confinamento ou alimentado com concentrado, subprodutos, etc. Trata-se de manejo alimentar em que há predomínio de forrageiras como fonte nutricional do rebanho, implicando a exclusão de ingredientes de origem animal nas rações, e, portanto, o afastamento do perigo da encefalopatia espongiforme Normalmente essa expressão é confundida com “boi orgânico” porque supõe-se que um animal criado somente a pasto seria livre de alimentação e tratamentos com produtos artificiais, o que não é verdade. A produção do boi orgânico possui toda uma legislação específica e que passa longe do animal só criado a pasto. O boi no sistema orgânico é criado a pasto sem utilização de agrotóxicos e adubação química, além de ser restritivo a utilização de medicamentos alopáticos. É utilizada apenas as vacinações do calendário oficial.Além disso os sistemas de criação devem ser certificados através de normas orgânicas e ambientais. O boi criado a pasto é permitida a utilização de adubações químicas e medicamentos alopáticos, se necessários.
Boi a Pasto – Se nós pudéssemos ter uma “receita” para a produção de boi a pasto, quais seriam seus principais ingredientes e sua ordem de importância?
IZ - O sistema de produção de boi a pasto deve ser constituído pelo tripé – nutrição, sanidade e melhoramento animal. Os três fatores devem interagir. Na nutrição, a pastagem deve ser a base com complemento a suplementação mineral disponível no cocho, aliado a utilização de confinamento ou suplementação no cocho a pasto no período das “secas” de forma estratégica para fase de terminação. A sanidade é indispensável como boa prática de manejo no controle dos endo ectoparasitas e nas vacinas obrigatórias. O melhoramento genético é uma ferramenta indispensável para aumento da produção e produtividade com vista à redução na idade de abate dos animais.
Boi a Pasto – Começando com o “ingrediente” nutrição, qual é a importância que o produtor deve dar a esse elo da cadeia produtiva? Quais são os itens que não podem faltar no prato do boi, diariamente, desde o seu nascimento até a fase de terminação para o abate?
IZ - Levando em consideração todos os sistemas de produção de gado de corte (não só a pasto) a nutrição é de fundamental importância desde a cria até o abate do animal. Sendo um ruminante o bovino tem a capacidade de transformar alimentos de baixo valor nutritivo (pastagem, subprodutos, etc.) em proteína e energia necessários para sua mantença e engorda. Como o bovino tem capacidade de transformar alimentos com alto teor de fibras através das bactérias do rúmen em nutrientes necessários à sua performance, é imprescindível que receba esses alimentos para o bom funcionamento das bactérias ruminais. Como esse tipo de alimento (volumosos), normalmente é de baixo custo, quanto mais fornecido vai diminuir o custo de alimentação, aumentando o lucro do produtor. Quanto à fase de cria (nascimento até o desmame) é de fundamental importância que o animal recém nascido receba o colostro da mãe pois nesse ingrediente encontram-se todos os nutrientes imunológicos que conferem ao recém nascido a resistência necessária contra as diversa doenças que os acometem nessa fase da vida.
Boi a Pasto – Quando falamos de boi a pasto, isto significa que ele só pode ser criado em pastagens extensivas, ou existe um meio termo, isto é, também pode ser terminado em confinamentos?
IZ - Os animais podem ser confinados para engorda após a cria ou a recria em pastagem. Nesse sistema os animais são abatidos mais precoces com produção de carne de melhor qualidade (mais macia , suculenta, coloração, etc.). No entanto, o produtor deve analisar se esse sistema é vantajoso, pois os custos são mais elevados e como a renumeração por qualidade de carcaça ainda é incipiente a relação custo/beneficio pode aumentar para o produtor. O importante, é a composição das rações e concentrados serem inspecionadas adequadamente pelos serviços sanitários, e que se certifique que sejam livres de alimentos de origem animal, bem como, seria recomendável, que, mesmo na fase confinada, os animais contassem com uma quantidade adequada de alimentos volumosos provenientes de pastos manejados nas unidades produtivas.
Boi a Pasto – O IZ é uma das instituições mais importantes do País em pesquisas de melhoramentos forrageiros de pastagens. Nesses 102 anos de existência do instituto, quais foram as principais contribuições para esse setor?
IZ – Pioneiro no Brasil com pesquisas desenvolvidas utilizando leguminosas em pastagens, visando à fixação do nitrogênio e disponibilizando uma forrageira de qualidade superior à gramínea. Estudos de introdução, adaptação e avaliação de plantas forrageiras que contribuíram para com aumento da produtividade animal a pasto, passando nas ultimas décadas de 50 kg para 200 kg de ganho de peso vivo por animal/ano, conseqüentemente reduzindo a idade de abate de 6 anos para 2 anos.
Boi a Pasto – Como os senhores explicam o fato de o Brasil ser o primeiro exportador mundial de carnes, e, no entanto, ainda ter mais de 80% de suas pastagens totalmente degradadas?
IZ – A expansão da fronteira agrícola e sua conversão para lavouras é antecedida pela abertura das áreas (desmatamento) e instalação do binômio arroz-pastagens. Parte das áreas que são mais próximas da infraestrutura viária mantêm-se na forma de pastos, embora subutilizados, ou degradados, para serem logo convertidas para áreas de lavouras, principalmente culturas tecnologicamente intensivas, como a soja e o algodão. Produtores/pecuaristas mais especializados, que passaram a investir em manejo, e na genética, são os que respondem pelo crescente dinamismo que a pecuária de corte apresentou nos últimos anos, fato que vem acompanhado de melhorias na vigilância sanitária, e no avanço tecnológico na indústria do abate e processamento de carnes.
Boi a Pasto – Em relação ao segundo “ingrediente” da receita de boi a pasto”, o que seria a sanidade, gostaríamos de saber porquê o Brasil ainda se atropela nos próprios passos, quando se trata de resolver uma questão aparentemente simples, e da maior seriedade, que é a incidência de febre aftosa sobre o rebanho nacional, presente em diversos focos espalhados pelo País?
IZ - Falta de conscientização com responsabilidade do produtor rural em praticar a essencialidade que pecuária exige .
Boi a pasto – Além da febre aftosa, quais são as principais doenças ou problemas de sanidade que costumam afetar o rebanho bovino e como os pecuaristas devem atuar, para evitá-los ou, pelo menos, minimizá-los?
IZ - Em toda cadeia de produção da carne ou leite, a sanidade do rebanho é indispensável, principalmente no preventivo. Do nascimento do bezerro ao abate no frigorífico, a sanidade deve acompanhar todas as fases do desenvolvimento do animal. Além da febre aftosa, o pecuarista deve-se preocupar com a brucelose, doença do sistema reprodutivo que causa abortos, tuberculose que é uma zoonose de evolução crônica, afeta linfonodos, pulmão, intestino, causando grandes prejuízos à pecuária. O Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose-PNCEBT/MAPA visa combater essas enfermidades através da vacinação obrigatória contra brucelose em fêmeas bovinas, testes de sensibilidade à tuberculose, sorodiagnósticos e controle rígido de trânsito de animais. O pecuarista deve procurar os serviços de defesa sanitária do município da propriedade para orientação quanto aos procedimentos no controle dessas doenças e de outras como a Raiva Bovina.
Boi a Pasto – Os senhores acham que existe consciência do produtor sobre a importância da seguridade sanitária dos rebanhos, já que, em última instância, o pecuarista produz não apenas bois, vacas ou bezerros, mas, alimentos para os seres humanos, como carne, leite e outros derivados?
IZ – Ao longo dos anos tem-se elevado o nível cultura do pecuarista brasileiro, despertando para uma maior conscientização sobre sua responsabilidade para com seu bem maior que é manter o boi no pasto de forma saudável, através de boas práticas de manejo de alimentação, reprodutivo e sanitário. O produtor deve ser alertado para os riscos de transmissão à população de doenças e de resíduos químicos através da carne e leite produzidos no país, como brucelose, tuberculose, toxinas bacterianas, resíduos de medicamentos em geral.
Boi a Pasto – O que o senhores acham de correntes de pesquisas recentes, que levam em conta a importância do manejo dos rebanhos, para evitar ou melhorar as condições de saúde dos animais, destinados à produção de carne ou leite?
IZ – O manejo tem grande importância no controle de doenças de animais de produção. O IZ tem resultados de pesquisas no controle estratégico de carrapatos em bovinos, controle de endoparasitas no sistema intensivo de criação de cordeiros, controle de doenças da reprodução em sistema semi-intensivo de produção de leite e redução da incidência de mastites em sistemas climatizados para vacas leiteiras.
Boi a Pasto – Além de importantes pesquisas de melhoramento genético de forrageiras para pastagens, o IZ também tem dado ao setor pecuarista importantes contribuições para o melhoramento genético das raças, tanto das zebuínas, onde a Nelore se destaca como a principal, como das taurinas. Qual a importância do melhoramento genético dentro da cadeia produtiva?
IZ – O melhoramento genético dentro da cadeia produtiva de leite é importante porque tem o objetivo de modificar o mérito genético das gerações futuras para que elas produzam mais eficientemente, dentro das características econômicas que se deseja e aumentar a lucratividade. Quando se estabelece um programa de melhoramento pode-se considerar além da produção de leite, proteína, gordura, células somáticas, critérios importantes no pagamento do leite por qualidade, parâmetros funcionais importantes na redução dos custos do sistema de produção, como longevidade do animal (número de lactações), idade ao primeiro parto, peso do animal adulto.
Boi a Pasto – O pecuarista que queira aumentar sua produtividade, tanto de carne quanto de leite, deve investir sempre em melhoramento genético de seu rebanho, ou essa é uma preocupação somente dos que produzem animais de elite, unicamente para produção de sêmen?
IZ – O melhoramento genético é algo a ser feito de forma urgente, mediante programas amplos de desenvolvimento do setor, visando à tipificação, melhor aproveitamento e qualidade da carcaça, melhoria da qualidade e produtividade do leite, etc.
Boi a Pasto – O custo dos investimentos em melhoramento genético é pouco ou muito significativo para a composição do custo final da arroba de carne ou quilo de leite?
IZ - É muito significativo. Daí a necessidade de programas amplos, em que os custos sejam compartilhados setorialmente, com participação governamental, o que amplia as possibilidades de o setor como um todo atingir os objetivos desejados pelo melhoramento. O custo do melhoramento genético não é o que mais pesa no custo final do leite. Estima-se, com a utilização de inseminação artificial com utilização de sêmen de touros provados, de 1,5 a 2,5% no custo da produção de leite.
Boi a Pasto – Para a produção de boi a pasto, a reprodução só deve ser através de estação de monta ou também pode ser por meio de inseminação artificial? Se pode obter o mesmo resultado, com as duas possibilidades, qual delas é mais recomendada ao pecuarista, levando-se em conta a relação custo benefício?
IZ - Depende do tipo de programa de melhoramento que se quer colocar em marcha. Se tiver como objetivo a rápida introdução de tecnologia e ganhos em escala, a inseminação seria a melhor resposta. Se as prioridades forem a de pulverizar o progresso tecnológico entre um número maior de produtores, inclusive pequenos, os programas mais gradualistas são os mais indicados. A rigor, no estágio atual da pecuária brasileira, há lugar para os dois tipos de programas. No extremo da aceleração maciça de tecnologia, há um campo enorme, inclusive porque os frigoríficos, ao se expandirem e se modernizarem muito nos últimos anos, passaram a carecer de escalas de oferta de animais com características homogêneas muito maiores, característica que só grandes produtores ou pequenos organizados cooperativamente podem obter. Ao mesmo tempo, programas gradualistas, que introduzem avanços parciais no manejo, acompanhados da difusão de programas de distribuição de tourinhos, por exemplo, é uma alternativa válida para o melhoramento do rebanho nacional e paulista. É de se esperar, que associados cooperativamente, esses produtores atendam às necessidades de escala dos frigoríficos. Ou que se adotem soluções criativas, como o “caminhão frigorífico”, que existe nos Estados Unidos para abates de pequenos lotes de animais em condições sanitárias adequadas.
Boi a Pasto – O que o senhores acham da morosidade do Brasil, em relação à implantação da rastreabilidade, e ao cumprimento dos protocolos de sanidade do rebanho nacional, em razão dos recentes surtos de aftosa?
IZ – Não acredito que se trate de morosidade, mas de um processo de aprendizagem por parte dos produtores, que sempre é longo e custoso.
Boi a Pasto – O senhores acham que o País, mais uma vez, corre o risco de perder o bonde da história, deixando de fazer a lição de casa para atender às exigências dos mercados da comunidade européia, cujos padrões de qualidade de consumo, são muito maiores em relação ao consumidor externo?
IZ – Não vejo com pessimismo, dados os antecedentes recentes da evolução do setor.
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otimos animais
a e eu tambem acho que os bois de pasto tem
uma carne melhor
Queria saber um remédio bom para derrubar carrapato e informação de uma doença que faz um papo nos bezerros.
sds
Newton
na época de seca o que ´necessário para deixar o boi no mesmo peso ?