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Pecuarista deve investir na formação e manutenção de pastagens, diz presidente do CNPC

Segundo dados da Embrapa, mais de 80% das áreas de pastagem está degradada em maior ou menor grau. Ou seja, campos que poderiam gerar até 30 toneladas de alimentos por hectare para alimentar rebanhos, produzem, em média, apenas cinco toneladas. Já o Censo Agropecuário 2006, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que as áreas ocupadas por pasto na região norte subiu de 4.428.116 hectares para  32.630.532 hectares entre 1970 e 2006. Em muitos países europeus, a carne bovina brasileira já está sendo chamada de carne que derruba florestas – o que pode ameaçar a liderança no mercado internacional do produto. Foi para falar sobre esse assunto que o médico veterinário Sebastião Costa Guedes, presidente do Conselho Nacional de Pecuária de Corte (CNPC) concedeu entrevista ao portal Boi a Pasto.

Para ele,  discussões francas sobre sustentabilidade em suas diferentes variáveis ajudarão muito na conscientização de todos e na perspectiva de que o Brasil tem tudo para dar ao mundo mais carne de alta qualidade, com sabor de natureza, perfeitamente compatível com os critérios exigidos de sustentabilidade e de bem estar-animal e com preços perfeitamente acessíveis e inferiores aos dos principais concorrentes. Confira a entrevista:

Para Sebastião Guedes, o Brasil tem tudo para produzir carne com sustentabilidade. Foto: Alf Ribeiro

Boi  a Pasto – Ao mesmo tempo em que é um dos carros-chefe da produção e exportação brasileira, a pecuária é também associada à imagem de vilã do meio ambiente. Qual a opinião do senhor sobre isso?

Sebastião Costa Guedes – Esta associação é injusta, mas é o preço da liderança que o setor alcançou. Ninguém no mercado internacional se conformou com a arrancada da carne bovina brasileira que, em 5 anos, chegou a liderar o mercado internacional.

Boi a Pasto – Como assim?

Sebastião Costa Guedes – Há décadas existe má vontade contra a pecuária no Brasil. O maior agressor do meio ambiente nas áreas de florestas tropicais é a extração de madeira nobre, que até agora era contrabandeada sem controle para os países europeus que mais nos criticam. Em 2006, o Reino Unido  importou mais de US$ 560 milhões de madeira nobre retirada da Amazônia. Depois da saída da madeira de lei, a floresta remanescente vai se transformando em carvão. Se houver chances para mineração, esta atividade entra a seguir. Depois deste ciclo começa a fase da pecuária e, após 4 ou 5 anos, com a exaustão  da terra, entram as lavouras que dão melhor rentabilidade e justificam os investimentos em adubos.
Deve ainda ser salientado que a grande maioria dos pecuaristas brasileiros age respeitando critérios de sustentabilidade, mas em toda a atividade há um pequeno percentual de irresponsáveis, que acabam prejudicando o setor. Para estes os rigores da lei devem ser aplicados.

A extração de madeira é a maior ameaça às florestas, diz o presidente do CNPC

Boi a Pasto – Os pastos têm seguido em direção ao norte do país e oeste da Bahia, onde a terra é barata. O resultado são pastagens degradadas que vão ficando para trás, em áreas onde não interessa mais produzir…

Sebastião Costa Guedes
– A pecuária realmente remunera menos que muitas atividades agrícolas. Por isso os produtores vão em busca de terras menos caras. Penso que o governo deveria estimular a renovação de pastagens com financiamentos a juros baixos, medida que traria resultados muito positivos.

Boi a Pasto – Esse comportamento do pecuarista brasileiro já é condenado no exterior. O senhor acha que o mercado – e não a necessidade da preservação ambiental – vai pressioná-lo para mudanças?

Sebastião Costa Guedes – Existe necessidade de mudanças em certas regiões devido a criadores desrespeitosos. O governo deve priorizar o apoio aos agricultores familiares ou assentados para que eles incorporem também os fundamentos da sustentabilidade em suas atividades. Com relação aos chamados povos da floresta, é necessário estabelecer um programa social onde haja uma remuneração para que participem da vigilância para manutenção das árvores em pé. Toda pessoa medianamente esclarecida sabe da importância da preservação ambiental, mas o  maior impulso para as desejáveis mudanças deve vir com linhas de crédito especiais para investimentos. Obviamente que o posicionamento da sociedade vai incentivar discussões e a busca de soluções viáveis para o setor.

Boi a Pasto – As soluções dependem só do governo?

Sebastião Costa Guedes – Nossa academia deve ser estimulada a pesquisar e publicar trabalhos de investigação específicos para nossa pecuária extensiva. Todos sabemos que, na questão dos gases do efeito estufa, nossa pecuária tem sido muito perseguida em muitos aspectos. Por exemplo, sabemos que a eliminação de óxido nitroso pelos nossos bovinos ocorre em nível 5 vezes menor daquele que nos atribui no IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Só esta diferença reduz em 1500 vezes o nível a nós atribuído pela conversão em carbono para nossa pecuária.
O óxido nitroso é 300 vezes mais nocivo para a atmosfera do que o gás carbônico. Cinco vezes mais significa inflar em 1500 vezes o efeito nocivo do óxido nitroso da nossa pecuária. Outro aspecto a ser exigido no âmbito científico internacional é que a pecuária extensiva deve ser avaliada pelo balanço entre o carbono emitido e o carbono fixado pelas gramíneas. Estes dois parâmetros já mudam substancialmente as críticas que recebemos como grandes geradores dos gases do efeito estufa.

Boi a Pasto – O que o pecuarista brasileiro deve fazer para não ficar para trás no mercado? Quais as providências que deve tomar?

Sebastião Costa Guedes – Ele deve cuidar da melhor formação e manutenção de pastagens, integrar pecuária com lavoura e silvicultura, aprimorar a genética de seus animais para reduzir o período de engorda e idade de abate, adotar boas práticas de bem estar animal e, antes de mais nada, completar a erradicação da aftosa, incorporando os estados nordestinos e o norte da Amazônia ao programa de erradicação (PNEFA).
O programa que a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu está desenvolvendo, fornecendo aos pequenos produtores touros com atraentes financiamentos, deve ser incentivado porque vai concorrer, em muito, para o aumento da produtividade pecuária no segmento dos pequenos criadores e até mesmo concorrer para diminuição da emissão de gases do efeito estufa.

A redação

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