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Mudanças endócrinas e metabólicas e manejo nutricional durante o período de transição

O período de transição, entre 3 semanas antes e 3 semanas após o parto, apresenta grande importância em relação à saúde, produção e conseqüente rentabilidade de vacas leiteiras. Fazendas nas quais o período de transição é critico experimentam aumento de incidência de problemas relacionados ao peri-parto (retenção de placenta, metrites, deslocamentos de abomaso, hipocalcemias, cetoses e mastite). Todos esses problemas resultam em aumento nos custos relacionados à manutenção da saúde dos animais, elevadas taxas de descartes no inicio da lactação, menor produção de leite e menor desempenho reprodutivo. Animais de alta produção são forçados a ajuste metabólico rápido após o parto, pois há incremento súbito na demanda de nutrientes quando se inicia a produção de leite (Grummer, 1995).

A freqüência de enfermidades metabólicas em vacas leiteiras é maior no puerpério, devido às modificações funcionais orgânicas (endócrinas, metabólicas, etc…) decorrentes do final do processo gestacional, do advento do parto e início da lactação associada a erros de manejo no referido período (Tabela 1).

Tabela 1 – Riscos de desordens metabólicas e período de ocorrência no pós-parto, em 8070 vacas multíparas Holandesas, no estado de Nova Iorque.

A primeira mudança funcional é o aumento abrupto e substancial no requerimento de nutrientes, não correspondido em termos de incremento na ingestão de matéria seca (MS), comprometendo desta forma o atendimento da demanda nutricional do animal. Estudos demonstram que o requerimento de energia líquida e proteína metabolizável no 40º dia pós-parto excede o consumo em 26 e 25%, respectivamente.

Falhas no manejo alimentar durante o período seco e nas primeiras semanas de lactação; o balanço negativo entre o consumo de nutrientes e a demanda nutricional associado a outros fatores de estresse, relacionados à parição e à adaptação à lactação podem afetar a produção de leite e a reprodução no referido período e também durante toda lactação, causando grandes prejuízos na atividade leiteira. Portanto, é de suma importância o conhecimento de aspectos fisiológicos e metabólicos relacionados ao peri-parto que auxiliarão na tomada de decisões e na adoção de técnicas de manejo que funcionarão como medidas profiláticas contra distúrbios metabólicos e garantirão melhor produção dos animais durante a lactação.

Mudanças no status endócrino e metabólico

A concentração plasmática de insulina decresce quando as vacas passam do estágio final da gestação para o início da lactação. Ocorre também aumento na resistência à insulina, que é manifestada por meio de vários passos metabólicos associados à utilização de glicose em todo corpo.

A mobilização de gordura corporal durante o final da gestação é facilitada, em parte, pelo decréscimo da capacidade da insulina de promover a lipogênese de se opor à lipólise. No início da lactação, ocorre a supressão total da lipogênese no tecido adiposo, devido ao baixo nível plasmático de insulina, e decresce a utilização de glicose e acetato, devido à baixa sensibilidade do tecido adiposo à insulina.

A concentração plasmática de glicose permanece estável, ou apresenta pequeno decréscimo durante o pré-parto, aumentando substancialmente durante a parição e decrescendo imediatamente após o parto. O aumento durante a parição pode ser resultado da maior concentração de glucagon e glucocorticóides, que promoverão a mobilização do glicogênio hepático.

Os estrógenos têm suas concentrações aumentadas no plasma durante o final da gestação, atingindo o pico 1 a 2 semanas antes da parição. Este fato pode implicar em inapetência dos ruminantes durante o final da gestação e também em aumento da mobilização de tecido adiposo durante o início da lactação, estando, portanto, relacionado com a etiologia do fígado gorduroso em vacas de leite.

A concentração de progesterona durante o período seco está elevada para manutenção da gestação, mas declina rapidamente aproximadamente 2 dias antes da parição.

A concentração plasmática do hormônio do crescimento aumenta durante o final da gestação, culmina na parição, e declina após o parto. A somatotropina atua aparentemente de forma oposta à insulina, diminuindo a taxa de lipogênese.

A função imune é deprimida durante o período de transição. A menor habilidade do sistema imune em responder aos desafios infecciosos provavelmente é responsável pela alta incidência de infecções da glândula mamária e metrites no peri-parto. As causas da depressão na função imune não são bem compreendidas, no entanto, evidências recentes sugerem que o balanço energético negativo pode ser um dos principais fatores contribuintes. Estes achados estão de acordo com as observações de que vacas que perdem mais condição corporal (maior magnitude de balanço energético) apresentam maior predisposição a ficarem doentes.

Adaptações do metabolismo hepático durante o período de transição
A mudança abrupta de exigência de nutrientes durante o período de transição exige refinado controle no metabolismo para atender os requerimentos da glândula mamária após aparição em termos de energia, glicose e aminoácidos. Estudos comparando animais aos 250 dias de gestação e aos 4 dias pós-parto, concluíram que, no último período, as vacas teriam suas demandas de glicose, aminoácidos e ácidos graxos aumentadas em 3, 2 e 5 vezes, respectivamente.

O aumento na demanda de glicose, para atender ao dramático incremento na demanda, e a mobilização de grandes quantidades de gordura, para suportar a lactação, são as principais modificações metabólicas das vacas durante o período de transição.

O fígado apresenta papel fundamental nestas modificações. É um dos tecidos de maior atividade metabólica em ruminantes e utiliza aproximadamente 25% do consumo de oxigênio, embora represente apenas 2%do peso vivo do animal. Observa-se grande aumento do aporte de oxigênio para o fígado durante o período de transição.

O metabolismo hepático no período de transição pode ser caracterizado pelo expressivo aumento na atividade metabólica, acompanhado pelo incremento proporcional na síntese de glicose durante o início da lactação, comparado ao final da gestação. Experimentos mostram que pode haver grande contribuição de fontes de aminoácidos para síntese de glicose durante o início da lactação.

A mobilização de gordura corporal que ocorre no período de transição resulta na liberação de ácidos graxos não-esterificados (AGNE) na corrente sanguínea. A magnitude da mobilização de gordura corporal está relacionada a fatores hormonais e dietéticos.

Durante os últimos dias da gestação, as altas concentrações de estrógeno são consideradas um dos principais fatores que contribuem para a diminuição do consumo de matéria seca (CMS) no periparto. Após o parto, com o início da síntese de leite e o rápido aumento da produção, ocorre expressivo aumento na demanda de glicose para síntese de lactose, durante um período em que o consumo não acompanha o aumento de produção de leite.

O balanço energético negativo resultante determina uma alta relação de hormônio do crescimento e insulina no sangue, promovendo a mobilização de ácidos graxos de cadeia longa do tecido adiposo. Quanto maior a extensão do balanço energético negativo, maior a quantidade de AGNE liberados pelo tecido adiposo, e maior a absorção dos mesmos pelo fígado.

No fígado, os AGNE podem seguir as seguintes rotas metabólicas:

1) sofrerem completa oxidação em C02 disponibilizando energia para o fígado,

2) sofrerem oxidação parcial, com produção de corpos cetônicos, que são liberados na circulação e servem como fontes de energia para outros tecidos ou

3) serem reesterificados em triglicérides (Figura 1).

O balanço energético negativo e a insuficiência de carboidratos no fígado após o parto levam à produção excessiva de corpos cetônicos que pode resultar em quadros de cetose clínica ou subclínica. A grande absorção de AGNE pelo fígado pode levar ao desenvolvimento de fígado gorduroso, que geralmente precede à ocorrência de cetose.

A maior parte do acúmulo de triglicérides no fígado ocorre nos primeiros dias após o parto. A manutenção da ótima função hepática é um dos principais requisitos para uma transição tranqüila, para boa saúde animal e boas produções de leite. Com o aumento da infiltração de gordura no fígado, funções normais do órgão são afetadas negativamente. O consumo de alimentos e o perfil de carboidratos na dieta na vaca são muito importantes na determinação da extensão da mobilização de gorduras, fígado gorduroso, e produção de corpos cetônicos.

Figura 1 – Esquema do metabolismo de ácidos graxos não esterificados em gado de leite

Condição nutricional das vacas no período de transição

Embora não estejam produzindo leite, no pré-parto, os animais sofrem uma série de mudanças que resultam em aumento significativo das exigências de nutrientes. A Tabela 2 ilustra claramente o substancial aumento na demanda nutricional nos últimos 30 dias de gestação.

Tabela 2 – Disposição de energia e proteína no útero e no feto durante a gestação de vacas da raça Holandesa.

Figura 2 – Estimativa do balanço energético em vacas no periparto.

Figura 3 – Concentração de ácidos graxos não esterificados em vacas no período de transição.

Entretanto, o incremento de nutrientes ocorre simultaneamente ao declínio no apetite e ingestão de alimentos, submetendo o animal a um quadro de balanço energético negativo, como pode ser observado na Figura 2. Para compensar o aumento na demanda energética, resultante do crescimento fetal e da lactogênese, e o balanço energético negativo, causado pelo decréscimo na ingestão de MS próximo ao parto, o animal começa a mobilizar tecido adiposo, tendo como conseqüência o aumento nas concentrações plasmáticas de AGNE,como pode ser observado na figura 4.

Figura 4 – Importância relativa da condição corporal, parição, dias antes do parto e composição da dieta sobre a ingestão de matéria seca.

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