Soluções Integradas para a Cadeia Produtiva do Leite e da Carne

Hora de reabilitar o pasto

Por Cida Oliveira

Práticas de manejo inadequadas diminuem rendimento e ainda dão à atividade a má fama de vilã do meio ambiente.  Dois motivos e tanto para investir no pasto.

O Censo Agropecuário 2006, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (lBGE), revelou que, entre 1970 e 2006, a área ocupada pelas pastagens na região Norte subiu de 4.428.116 hectares para 32.630.532hectares. Nesses quase 40 anos, o que se viu foi a transferência de pecuaristas de outras regiões, atraídos pelas terras baratas e resguardados pela omissão do poder público que, praticamente, nada tem feito para impedir a derrubada de florestas para a instalação de novos pastos. Ao mesmo tempo em que o número de fazendas de gado foi aumentando por lá, a pecuária brasileira de pastagens e o maior rebanho bovino comercial do mundo. A maior parte do leite e da carne do planeta é produzida aqui. Porém, a produtividade brasileira é baixa. A média de lotação nacional é de 0,6 unidade animal por hectare, produzindo por ano 25 kg de carne por hectare crescia e, em todo o mundo a preocupação com a preservação ambiental também ganhava vigor. Hoje o país tem pouco mais 173 milhões de hectares.

Há vários motivos para isso. Em grande parte das fazendas faltam práticas adequadas de manejo e há animais de baixo potencial produtivo. Além disso, dados da Embrapa mostram que o mau uso da terra, ao longo de décadas, fez com que mais de 80% das áreas de pastagem – algo do tamanho da Amazônia – esteja hoje degradada em maior ou menor grau. Ou seja, campos que poderiam oferecer até 30 toneladas de alimento para rebanhos por hectare conseguem gerar, em média, apenas cinco toneladas por hectare, segundo estudos.

Com a crise dos alimentos e da energia, que tem impulsionado a agricultura e reduzido as áreas de pastagens de 1996 e 2006 a pecuária perdeu 5.367 milhões de hectares – o jeito é elevar a produtividade. Afinal, a mesma pressão pelos alimentos deverá fazer com que o atual rebanho de 169 milhões de cabeças passe para 185 milhões, levando a um aumento de 20% na taxa de lotação. Assim como aumenta a demanda pelo alimento, é também maior a exigência do consumidor estrangeiro por produtos que agridam o mínimo possível o meio ambiente. Cláudio M. Haddad, professor do Departamento de Zootecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), de Piracicaba (SP), diz que o consumidor estrangeiro, sobretudo o europeu, mais informado e engajado, está preocupado com o bem estar animal e com o método de formação do pasto a partir de matas naturais. “Em muitos países, a carne brasileira já está sendo chamada de carne que derruba florestas”: diz.

Segundo o professor, só mesmo o mercado pode alterar essa lógica que tem levado os pecuaristas a buscarem terras de mata nativa, mais baratas, do que recuperar e manter em boas condições suas antigas pastagens.

Haddad critica também a falta de incentivos para o uso sustentável do solo. A quase totalidade dos pecuaristas não aduba as pastagens porque o produto é caro, importado, e não há subsídios governamentais. Além disso, as linhas de crédito são irrisórias. “Recentemente, o BNDES disponibilizou financiamento para esta finalidade. O interessado deve procurar assistência técnica que, mediante um laudo, comprove a degradação existente e elabore um plano de manejo”; explica. “Há ainda linhas de crédito para o Centro Oeste do Brasil, visando à recuperação de pastagens deterioradas. Na verdade, esses programas, pela importância, deveriam ter um caráter gigantesco e juros subsidiados para real execução”: opina Haddad. Em julho passado, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento lançou o Plano Agrícola e Pecuário 2008-2009 que, entre outras medidas, criou um programa de financiamento para recuperação de áreas degradadas e pastagens.

Cláudio M. Haddad, professor do Departamento de Zootecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP),de Piracicaba(SP); e Domício do Nascimento Júnior, professor do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Viçosa(MG)

Domício do Nascimento Júnior, professor do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Viçosa (MG), diz que as causas da situação precária das pastagens no Brasil são históricas. Ele conta que, durante muito tempo, os especialistas do setor eram treinados nos Estados Unidos, onde as pesquisas visam unicamente o confinamento à base de ração de milho. Experiências de países como Inglaterra e Nova Zelândia, que investem em pesquisas sobre pastos, só há muito pouco tempo passaram a ser conhecidas. “Desde sempre, pastagem nunca foi prioridade por aqui. Por isso acho equivocado dizer que temos algum especialista brasileiro no assunto”; diz. Entre os principais problemas, ele destaca a administração inadequada de técnicas modernas de manejo, como o pastejo rotacionado. A questão, como explica, é que a entrada dos animais no piquete é determinada pelo calendário e não pela altura das forrageiras, como é o correto. Com isso, a colheita inadequada do capim – que muitas vezes é comido até o talo – impede seu pleno desenvolvimento, compromete o aporte nutricional e danifica o solo. Por isso estão sendo conduzidas pesquisas para determinar a altura adequada de todos os capins utilizados no Brasil. A do capim mombaça e elefante, por exemplo, é 90 centímetros. Outra questão, segundo Nascimento Júnior, é que o enfoque é sempre o animal, ou seja,o boi é visto como o produto. “A pastagem é considerada atividade extrativista, de onde tudo se tira e nada se repõe. Na verdade, o pasto deve ser tratado como lavoura, e adubado a cada saída do gado”: diz o professor.

Uma razão a mais para investir na revitalização da pastagem é a série de evidências que se fortalece quanto ao seu papel na redução da emissão de metano pelo gado. A produção do gás — que é um dos que colaboram para o efeito estufa — é parte do processo digestivo dos herbívoros ruminantes. Ocorre no rúmen, onde os micróbios ali presentes fermentam os carboidratos do vegetal ingerido, transformando-os em ácidos graxos de cadeia curta, principalmente ácidos acético, propiônico e butírico. Parte do carbono dos alimentos é transformada em gás carbônico. A emissão do metano corresponde a 4% e 9% da energia bruta do alimento ingerido. Há dez anos, a Embrapa pesquisa o assunto e já sabe que a quantidade desse gás está relacionada ao manejo nutricional dos rebanhos. No período da seca, por exemplo, o gado não se alimenta direito, perde energia por deficiência nutricional, e eleva a emissão. Experiências conduzidas por Odo Primavesi, da Embrapa de São Carlos, sugerem ainda que o capim tropical, com mais fibra e menos proteína bruta, também ajudaria a aumentar a emissão gasosa, e que o uso adequado do capim, junto com uma ração combinada de cana e grãos, reduziria o consumo de energia do gado, que ganha peso e diminui o volume de emissão gasosa. A se confirmarem os estudos em andamento, o pasto tem tudo para passar de vilão a herói do meio ambiente.


Publicado pela Revista Nelore nº 160 – Caderno de Pastagens – DBO Sul Editora

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2 Comentários

  1. Matéria muito boa, é hora de aumentar produtividade na mesma área existente sem agredir o meio ambiente.

  2. Nossos Pecuaristas devem buscar melhorar mais o manejo de suas pastagens, aumentando a produtividade sem ter que aumentar as areas de pasto.

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