Soluções Integradas para a Cadeia Produtiva do Leite e da Carne

Fazenda Ilha Verde no topo da eficiência

Lote de desponte: ganho de até 1,2 kg por dia, sem suplementação, e antecipação de 117 dias.

Fernando Yassu, para a revista DBO


Em estudo sobre o desempenho de 84 empreendimentos de corte, ela se destaca com margem líquida operacional 218% superior à média.


Responsável pelo projeto de pecuária de corte mais rentável entre 84 fazendas atendidas pela empresa de consultoria Exagro, Augusto Urias Cruz atribui o feito à sua condição de neófito, embora tenha comprado a Fazenda Ilha Verde, em Curionópolis, PA, há 21 anos. De 1989 a 2005, a condução do empreendimento esteve nas mãos dos funcionários; e por não ter familiaridade com a pecuária de corte, diz ele, não interferia na gestão. Nesse período, cuidava dos negócios da família no Distrito Federal. Mas há cinco anos deixou-os para os filhos e foi cuidar da fazenda.

A pouca familiaridade com a nova atividade, admite, tornou-o mais permeável às inovações que levaram a fazenda à condição de campeã em lucratividade, mesmo tendo enfrentado o problema da morte do braquiarão, capim que ocupava até dois anos atrás 3.000 ha dos 5.033 ha de pastagens da Ilha Verde. A doença adicionou uma despesa fixa de R$ 106.200,00 ao orçamento, valor despendido na reforma anual de 10% dos pastos atingidos.

Em 2009, a receita líquida da Fazenda Ilha Verde atingiu R$ 404,65 por ha, resultado 216% superior ao da média obtida pelas 84 fazendas situadas nas regiões Sul (1), Sudeste (33), Centro-Oeste (22), Norte (23) e Nordeste (5) atendidas pela Exagro, de perfis semelhantes a ela. O retorno foi de 24,2% sobre o capital investido (rebanho, máquinas e instalações, menos a terra).

O resultado financeiro expressa os ganhos de produtividade obtidos desde que Augusto contratou a empresa de consultoria mineira, em 2008. O ganho de peso por animal aumentou 41,27% entre a safra 2007 e 2009, tendo se elevado de 4,07 arrobas por cabeça/ano (122,1 kg vivo) para 5,75 arrobas (172,5), enquanto o ganho de peso por área cresceu 34,67% no mesmo período, de 6,2 arrobas (186 kg vivo) por ha/ano para 8,35 arrobas (250,5 kg).

A taxa de desfrute também melhorou no mesmo período. No ano anterior à mudança, a Fazenda Ilha Verde registrava taxa de desfrute em sistema de recria e engorda de 34,38% (venda de 2.667 animais para um rebanho de 7.756 cabeças). Em 2008, primeiro ano da mudança, a taxa se elevaria a 37,30% (3.086 animais em um estoque de 8.273 cabeças), para alcançar 59,37% (venda de 4.197 bovinos em um rebanho de 7.069 animais) em 2009.

Augustinho (à direita), ao lado do consultor Marcelo Piomenta (centro) e o gerente José  Albino:permeável à mudança.

Parâmetros

Quando assumiu as rédeas do negócio, em 2005, Augustinho, como é conhecido, achava que tudo estava bem na fazenda. “Como não entendia nada, para mim o que acontecia lá era normal. Eu não dispunha de parâmetros para avaliar o resultado”, conta.

O pasto era manejado pelo sistema fixo; os cochos de sal, sem cobertura, permaneciam expostos à alta precipitação pluviométrica (média de 2.450 mm de chuvas por ano) e à elevada umidade do ar; não se realizava a pesagem dos animais, para acompanhar o seu desempenho; e não se adotava nenhuma estratégia para a compra  de bezerros e venda de bois.

Augustinho limitava-se a colher o que o destino lhe punha nas mãos. Segundo afirma, em tempo de chuva regular o pasto se desenvolvia, o boi engordava e a produção aumentava. Em período de seca severa, como ocorreu em 2007, o ganho de peso desacelerava e a produção caía.

Sem dispor de processo de gestão até 2008, Augustinho admite ter tido sorte ao comprar a fazenda, em 1989. Ela está situada num região de solo fértil (mesmo sem adubação, apresenta 59% de saturação de base e média de 5 ppm de fósforo, conforme o resultado da análise feita em 2008); a precipitação pluviométrica é alta (2.450 mm) e bem distribuída ao longo de quase nove meses do ano; e a temperatura raramente cai abaixo de 17º C. De tão boas são as condições naturais da Ilha Verde que o sal mineral fornecido aos animais não contém dosagem adicional de fósforo. “Gastamos com o sal mineral sem adição de fósforo R$ 9,00 por cabeça por ano, menos de um terço do que se gastaria com a aquisição de sal mineral comum”, explica o veterinário Marcelo Pimenta Mascarenhas, que dá consultoria à fazenda. “Tenho solo, água e calor para produzir capim em quantidade e qualidade”, gaba-se Augustinho.

Segundo ele, faltava apenas “ajudar a própria natureza a melhorar o resultado”. Em conversa com colegas, chegou até a Exagro. Na primeira reunião em 2007, gostou da conversa, ao ouvir do consultor Marcelo Pimenta que as mudanças não exigiriam grandes investimentos.

Controles

Antes de sugerir qualquer mudança, o consutor levantou os dados para a montagem dos controles – as ferramentas necessárias no processo de tomada de decisão. Da produção, foram coletadas informações sobre a área de pasto, área dos piquetes e condição das forrageiras. Do rebanho, o número de cabeças, o peso médio dos animais e o ganho de peso ao longo do ano. Da parte econômico-financeira, as despesas e as receitas. Simultaneamente, fez-se análise de solo das áreas de pastos – 5.033 ha.

Com o pastejo rotacionado, não sobra nem falta capim. O consumo se dá no melhor ponto de colheita da forragem.

Com tais informações disponíveis, Marcelo propôs a adoção de uma estratégia para a mudança no sistema de produção, que levava em conta a capacidade de investimento do empreendimento. Então, Augustinho deixara claro que não haveria dinheiro de fora. A primeira boa notícia é que o resultado da análise do solo indicou que seria possível aumentar a produtividade dos pastos sem gastar dinheiro com calcário e adubo. Para isso, Marcelo sugeriu a Augustinho que mudasse o manejo do pasto, de fixo para rotacionado. “Essa era a grande deficiência. Havia piquetes com sobra de capim e outros raspados, sinais típicos do mau manejo”, diz o consultor da Exagro. O primeiro diagnóstico havia indicado que o porcentual de conformidade do manejo das pastagens com os parâmetros adotados pela Exagro, com base na avaliação comparativa de 84 fazendas, era de apenas 10%, enquanto a média das demais atingia 87%. Hoje, a fazenda apresenta 100% de conformidade nesse item.

Resistência

Na mudança do manejo das pastagens, a resistência veio dos funcionários, especialmente os gerentes. Augustinho substitui três deles e, por atribuir a resistência à cultura regional, trouxe de Goiás o gerente atual, José Albino. Hoje, todos os funcionários, além do proprietário e o consultor, tomam parte nas reuniões de trabalho. Nelas, os funcionários são informados sobre as inovações e sua importância para a melhoria da produção.

A adoção do manejo rotacionado não consistia apenas em transferir o gado de um piquete para outro de acordo com a sequência estabelecida pela consultoria. Como a produção de forragem varia segundo a estação do ano e como os piquetes são de tamanhos variados, os vaqueiros foram instruídos a avaliar a sua condição antes de neles introduzir e deles retirar o gado. Se o capim do piquete não atingiu a altura ideal, o vaqueiro dispõe de autonomia para não obedecer a sequência previamente fixada. Da mesma forma, se sobra capim no piquete, o vaqueiro pode dilatar o período de permanência do gado; inversamente, se o pasto está raspado, pode antecipar a sua retirada.

No caso do braquiarão, o gado é introduzido no piquete quando a sua altura atinge 50/60 centímetros; no caso dos Panicum Mombaça, Colonião e Massai, quando atingem 60/80 centímetros. Para a retirada dos animais, 25 cm de altura no caso do braquiarão e 40 cm nos demais capins, ou respectivamente 10/15 cm e 20 cm, se adubados.

Outra novidade adotada no manejo dos pastos foi manter em cada módulo dois tipos de lotes de animais, o de desponte e o de repasse. Com peso vivo acima de 390 kg, o lote de desponte é o primeiro a ser introduzido no piquete, para pastejar a ponta do capim, que chega a apresentar um teor de 15% de proteína. Nesse grupo, a carga animal não pode ultrapassar em 30% a do lote de repasse. Para evitar o problema da dominância, a Fazenda Ilha Verde padroniza os lotes a cada pesagem, com vistas a reunir os animais com pesos semelhantes no mesmo grupo de pastejo.

Com a separação em dois tipos de lotes, a fazenda busca acelerar a terminação dos mais pesados e aliviar a carga do pasto. O lote com acesso ao capim de melhor qualidade nutricional apresenta um ganho de peso de peso de 1,2 kg por dia sem suplmentação. O lote de repasse, que vem depois, apresenta ganho de peso de 500-600 gramas por dia. “Graças a isso, adiantamos a terminação do lote de desponte, de 233 dias para 116 dias, e ainda aliviamos a carga do pasto, com a venda dos animais mais pesados”, explica Marcelo.

Cocho descoberto: com o empedramento do sal, o consumo baixa.

Novo cocho é feito de bombona, coberto com lona de mineração.

Embora a fazenda termine gado o ano inteiro, o pico de venda de animais ocorre em maio, junho e julho, aliviando, com isso, a intensidade da carga animal no pico da entressafra (agosto, setembro e outubro). A compra da reposição é realizada também no pico de venda, mas o recebimento dos bezerros está programado somente para os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, período da arrancada do crescimento do capim. A adoção desse calendário, para venda, compra e recebimento de animais, permitiu à Fazenda Ilha Verde planejar a carga animal conforme a oferta de forragem ao longo do ano.

Anteriormente, a venda do gado era feita à medida que os animais atingiam o peso de abate. E a cada venda Augustinho fazia a reposição, sem levar em conta a capacidade de suporte da pastagem. “Podia vender 1.000 bois gordos e comprar 1.000 ou 2.000 bezerros. A única preocupação era não deixar o pasto vazio”, diz ele. Hoje, como resultado da mudança no manejo dos pastos, a média de ganho de peso por cabeça ao longo dos 365 dias do ano – contando-se portanto os períodos de safra e de entressafra – é de 472 gramas por dia, apenas a pasto, sem suplementação no cocho.

Os animais são vendidos inteiros para exportação. Como os exportadores preferem animais pesados, a Fazenda Ilha Verde os entrega com peso superior a 530 kg. A remuneração corresponde a 53% de rendimento de carcaça, enquanto um animal de até 500 kg rende apenas 50%. Graças ao rendimento de 53%, a Fazenda Ilha Verde recebe o valor de 18,72 arrobas por um boi de 530 kg. Se o fose rendimento de 50%, receberia o valor de 17,66 arrobas. A diferença de ganho é de 1,06 arroba, apenas pelo rendimento da carcaça. Na venda para exportação, a empresa obteve em 2009 um preço médio de R$ 73,42 por arroba, para um total de 42.033 arrobas.

Baixo investimento

A adoção do novo sistema de pastejo exigiu pouco investimento. Para a divisão dos pastos, recorreu-se à cerca elétrica fixa – 50 km –, o que permitiu economizar na compra de moirões (dois terços, ou dois a cada três mourões utilizados na cerca fixa) e arames (um fio a menos, três contra quatro). Também para economizar com cercas, evitou-se fazer grandes subdivisões dos pastos. Os 5.033 ha de pastos foram subdivididos em 120 piquetes, que, por sua vez, foram distribuídos em 22 módulos de pastejo. “Ainda temos piquetes de até 90 ha, mas na média cada pasto tem área de 20 a 30 ha”, informa o fazendeiro.

A fazenda economizou também na construção da infraestrurura para fornecer água para o gado, que era natural e continua natural, mas com a subdivisão dos pastos, foi preciso construir mais 30 pequenas barragens, ao custo total de R$ 40 mil.

Na mesma época da mudança no manejo dos pastos, a Fazenda Ilha Verde começou a reformar os pastos de braquiarão. Somando-se o gasto com a aquisição das sementes e com as operações mecanizadas (duas gradagens e o plantio do capim), Augustinho desembolsou R$ R$ 162 mil no primeiro ano na reforma de 460 ha, com a substituição do braquiarão pelo mombaça, andropógon e massai. Em 2009, reformou outros 300 hectares. Como não foi preciso aplicar calcário nem adubo, o custo da reforma ficou em R$ 354 por hectare.

Dos 110 cochos de sal sem cobertura, 42 foram subsituídos. Novamente aqui, buscou-se economizar. Os novos cochos foram construídos com bombonas de plástico e cobertos com lonas descartadas pelas mineradoras da região. O custo ficou em R$ 420 por unidade, metade do valor de um saleiro coberto de madeira. Computando-se todos os gastos realizados na fazenda para adequação às mudanças, Augustinho despendeu R$ 369 mil em dois anos.

A única nota fora do tom nesses dois anos foi a morte progressiva do braquiarão, que até 2008 ocupava 59,60% da área de pastagem, ou 3.000 ha do total de 5.033 hectares.


Publicado pela revista DBO – edição 356 – junho de 2010

Texto de Fernando Yassu – Reprodução autorizada

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