Soluções Integradas para a Cadeia Produtiva do Leite e da Carne

Conforto, para a vaca render mais.

Quando exposto à inclemência do sol, o gado busca naturalmente meios de se proteger na sombra.

Mantido em condições adequadas, o rebanho responde com melhor desempenho na ordenha e na reprodução.

Texto de Ana Poeta

Fotos de Romualdo Venâncio

Sombra, comida e água fresca. A exemplo do ser humano é o que preferem também as vacas. Nessas condições, elas oferecem em troca elevados índices de produtividade. Somados, os três fatores asseguram o conforto de que o rebanho necessita para apresentar um bom desempenho na ordenha e na reprodução. Mas o animal apresentará um bom desempenho somente se o produtor conhecer adequadamente o ambiente de sua fazenda e as características de seus animais. Caso contrário, ou seja, na ausência de condição adequada de bem-estar animal ele vai colher desperdício de recursos e perda de lucratividade.

A qualidade do ambiente no qual os animais estão inseridos é fundamental para que se desenvolvam, produzam e reproduzam de modo satisfatório – e isso tem relação direta com a ausência de situações desconfortáveis, explica o médico veterinário José Henrique Junqueira, de Presidente Prudente, SP. Daí a necessidade de se assegurar um ambiente confortável, evitando- se assim que o animal seja levado ao estresse.

Med. Vet. José Henrique Junqueira: “A qualidade do ambiente no qual os animais estão inseridos é fundamental para que se desenvolvam de modo satisfatório”.

O estresse pode ser provocado por diversos motivos: temperaturas elevadas, instalações mal elaboradas, alimentação inadequada, maus tratos, problemas sanitários, manejo deficiente, entre outros.

Também são muitas as complicações que resultam de situações incômodas. A queda na produção de leite é uma delas. O primeiro passo para se assegurar o conforto do gado é tomar consciência de sua importância na economia leiteira. Esse entendimento, explica o professor adjunto da Faculdade de Veterinária da Universidade Estadual do Ceará, Airton Alencar de Araújo, é determinante para o sucesso do negócio.

Araújo, especialista em bioclimatologia – disciplina que estuda as interações dos seres vivos com o clima –, observa que a consciência dessa importância parece ter emergido quando se percebem que o aumento da temperatura nas estações mais quentes levou a uma redução de 30% da produção.

Foi a partir do estresse térmico e das perdas econômicas por ele geradas que os produtores se deram conta do papel estratégico do conforto animal na produtividade. Além de provocar queda na produção, o desconforto exerce impacto negativo sobre a reprodução, provocando o aumento do intervalo entre partos, o que redunda em queda no volume de leite da lactação seguinte.

Prof. Airton Alencar de Araújo: “O primeiro passo para se assegurar o conforto do gado é tomar consciência de sua importância na economia leiteira.”

Entre as medidas adotadas por produtores do Ceará para superar o desconforto gerado pelo calor estão a seleção de animais adaptados às características da região e a ampliação da área de sombra natural nas pastagens, mediante o plantio de árvores. Grande parte do leite produzido no Ceará é pelo sistema a pasto.

O consultor Junqueira ressalta a importância do conforto na fase lactante. “A produção de leite é uma atividade muito desgastante para o organismo da vaca. Propiciar conforto de forma a compensar os efeitos do desgaste sobre a produção é obrigação do criador”, destaca. Segundo Junqueira, conforto do animal nesse período significa: instalações adequadas e limpas, sombra, bebedouros e cochos de fácil acesso e bem dimensionados – para evitar a concorrência –, além da oferta de alimentação adequada.

Bovinos geneticamente superiores, dos quais se espera desempenho condizente, apresentam níveis de exigência igualmente elevados, pois possuem atividade metabólica mais intensa. “Por isso, estão mais sujeitos à interferência dos agentes causadores de estresse”, acrescenta o veterinário.

Tudo está ligado a tudo

Todos os fatores que influenciam a condição de conforto do gado de leite estão associados. O estresse térmico, por exemplo, pode estar associado a instalações não adequadas. Proporcionar sombra é uma maneira de adequá-las. O espaço reservado a cada animal é outro fator interferente. “O espaçamento ideal é de 3 m2 a 5 m2 por vaca e pé-direito de no mínimo 3,5 m de altura. Quando se trata de fêmeas não confinadas, a orientação cardeal do galpão deve ser Norte-Sul, pois os animais se movimentam em busca de sombra, e o calor dos raios do sol mantém seco o local sob a cobertura”, informa Junqueira.

No caso de confinamento, podem utilizar-se ventiladores e aspersores, para baixar a temperatura local. Quando exposto à inclemência do sol, o gado busca naturalmente meios de se proteger. Entre esses, a redução da quantidade de alimentos ingeridos, principalmente volumosos. Isso porque a digestão de volumosos gera maior quantidade de calor, aquecendo ainda mais o corpo. “Dessa maneira, a vaca recompõe o equilíbrio corporal com a temperatura ambiente. Mas esse equilíbrio é obtido mediante um desequilíbrio na dieta, que interfere negativamente na produção e na reprodução”, alerta Junqueira. Em consequência, multiplicam-se os problemas, pois rebanho mal nutrido é mais suscetível a doenças. Se houver qualquer tipo de negligência no manejo sanitário, sobretudo nas vacinações e vermifugações, a situação irá piorar.

A melhor solução para o conforto animal consiste numa fórmula que equililbre a demanda de investimentos para a construção das  instalações com a disponibilidade de recursos.

Remendar custa mais

“É mais barato construir instalações adequadas do que ter de corrigi-las ou reformá-las depois de prontas”, afirma Luciane Silva Martello, pós-doutoranda na área de conforto animal no Departamento de Zootecnia da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, de Pirassununga. Na tentativa de adaptação do material, pode ocorrer, adverte ela, que se suprimam fatores essenciais ao melhor acondicionamento do gado. “Entre os itens relevantes a serem considerados na construção das instalações, estão o correto dimensionamento da área por animal; o tipo de material do piso e da cobertura; a altura do pé direito; as aberturas laterais; a orientação cardeal e a possibilidade de expansão da área, em razão do aumento do rebanho”, destaca.

Segundo Luciane, a temperatura ambiente média ideal para uma vaca da raça Holandesa, com produção de 30 kg de leite/dia, é de 24°C. “Caso ultrapasse esse valor, a produção pode cair até 15%, o que pode representar menos 4,5 kg de leite/vaca/dia”.

O produtor também pode colher resultados negativos quando copia modelos estrangeiros. É enriquecedor conhecer as condições em que se dá a atividade leiteira em países nos quais ela é bem desenvolvida, mas a cópia mecânica e a transferência desses projetos sem adaptá-los às condições locais é perda financeira na certa, adverte a especialista.

A melhor solução para o conforto animal consiste numa fórmula que equilibre a demanda de investimentos para a construção das instalações com a disponibilidade de recursos. No Brasil, existem materiais que proporcionam conforto aos animais, resguardando-os de intempéries e forte radiação solar. “As fibras vegetais, por exemplo, podem substituir o amianto, numa conveniente relação custo/benefício”, afirma ela.

Luciane Silva Martello: “É mais barato construir instalações adequadas do que ter de corrigi-las ou reformá-las depois de prontas”.

O conforto de que se fala aqui não é restrito ao rebanho. Ele deve visar em primeiro lugar aos os funcionários que cuidam dos animais, sobretudo no que se refere à postura corporal. Um dos exemplos de conforto humano mencionados pela especialista é o da ordenha construída em fosso, que assegura ao ordenhador uma posição adequada ao seu trabalho. Na ausência desse cuidado, o ordenhador estará sujeito a sérios problemas de saúde, como lesões musculares e ósseas.

Em outras palavras, quem trabalha com o gado é quem primeiro merece atenção. O bem-estar no trabalho reflete-se no cuidado com os animais, ou seja, na sua produtividade.

Mais conforto, menor custo.

Assegura conforto ao rebanho leiteiro quem sabe cuidar das finanças da fazenda, diz o médico veterinário José Henrique Junqueira. Isso pode ser constatado na planilha do custo de produção e do faturamento. Veja alguns exemplos de economia de gastos em situação de conforto animal:

● menor consumo de medicamentos, pois o gado tende a se manter saudável;

● menor consumo de sêmen, devido ao aumento da taxa de concepção.

● menor intervalo entre partos (IEP);

● menor período voluntário de espera (PVE);

● menor taxa de descarte involuntário;

● menor taxa de mortalidade;

● maior produção de leite, com lactações mais altas;

● maior longevidade das vacas;

● em rebanhos estabilizados, maior número de vacas e novilhas disponíveis para venda.

Fases que requerem mais cuidados

O conforto é essencial durante toda a vida do gado leiteiro; porém, em algumas etapas, a exigência é maior. As fases mais críticas são:

● os primeiros meses de vida, pois nessa fase o sistema imune ainda não é totalmente funcional, o que aumenta a susceptibilidade a doenças, o que, somado ao estresse pela da falta de conforto, pode ser desastroso;

● o final da gestação e do início da lactação até o pico da produção. Esse é um período em que ocorrem muitas e grandes transformações, entre as quais o encerramento do desenvolvimento fetal, a produção de colostro (imunoglobulinas),

● o puerpério (período pós-parto, em que a vaca se recupera para a próxima reprodução); a ingestão de alimentos (matéria seca), que não satisfaz as necessidades de mantença e de produção (lactação); a necessidade de o animal mobilizar a energia acumulada no organismo (gordura), para nutrir o feto entre o final da gestação e o início da lactação, o que gera perda de peso; e a mudança do status hormonal.

Publicado pela revista Mundo do Leite –out/nov 2010

Reprodução autorizada

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