Escore Corporal: O papel do olhar na avaliação animal
Romualdo Venâncio
A análise visual, conhecida como monitoramento do escore da condição corporal, é um modo prático e barato de se saber se o manejo, sobretudo o nutricional, está correto.
De forma rápida, simples e a baixo custo, um olhar bem treinado pode contribuir para que um rebanho leiteiro apresente melhor desempenho na ordenha e na reprodução e ainda permaneça livre de complicações sanitárias. Trata-se da avaliação do escore de condição corporal (ECC), avaliação visual e tátil que permite saber se as reservas de gordura, em pontos específicos, são condizentes com o momento da vida do animal. Apesar de subjetivo, o exame prático contribui para evitar que as vacas engordem muito ou emagreçam demais.
Esse monitoramento é uma maneira de compreender as necessidades do animal e de verificar se as decisões tomadas na gestão do plantel são adequadas, explica o professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP), Francisco Palma Rennó. É o ponto de partida para otimizar os processos, ou alterá-los, se necessário. “Quando estão muito gordas ou muito magras, as vacas apresentam risco aumentado de desenvolverem desordens metabólicas e demais doenças, apresentarem baixa produção de leite, pobre desempenho reprodutivo e dificuldade de parto”, esclarece Rennó em um artigo que escreveu sobre o assunto.
Para Rennó, ignorar a condição corporal do gado significa ampliar as chances de perder dinheiro. Em primeiro lugar, porque a condição corporal está diretamente associada à alimentação. “Se não oferecer boas condições nutricionais ao rebanho, o criador pode esquecer a reprodução”, afirma Fábio Nogueira Fogaça, nutricionista e gerente de produtos leite da Alta Genetics do Brasil.
Os principais pontos a serem observados para averiguar o estado corporal do gado leiteiro são: processo transverso, ligamento sacral, íleos, ísquios, articulação coxo-femural e ligamento da base da cauda. A classificação é feita com base em uma escala biológica que vai de 1 a 5, com subunidades de 0,25 pontos. A pontuação mais baixa indica que a vaca é muito magra, enquanto a mais alta, demasiadamente gorda. Ambas as pontuações são indesejáveis. “Os escores não estão relacionados ao peso do animal, mas ao acúmulo de gordura corporal”, ressalta o diretor técnico de Raças de Leite da Semex Brasil, Claudio Aragon.
Para proceder à observação e à classificação de maneira adequada, é preciso dispor de algum conhecimento a referência das pontuações. Uma avaliação correta é determinante para a definição do manejo nutricional e geral do plantel.
Segundo Fogaça, é uma ferramenta do dia-a-dia nas fazendas leiteiras. Em cada etapa da sua vida, a vaca dá sinais do que precisa. O entendimento das relações biológicas entre as reservas corporais, estimadas pelo ECC, e o desempenho produtivo e reprodutivo pode auxiliar no aprimoramento das estratégias de alimentação e manejo, visando à maior eficiência no processo de produção e de manutenção dos animais.
Principais pontos de avaliação do escore de condição corporal em vacas leiteiras
Revisão de conceitos
“Durante muito tempo, os criadores selecionaram seus animais com o objetivo apenas de maior volume de leite. Mas sem assegurar a estrutura necessária e dar o suporte às necessidades do gado, não há como aproveitar ao máximo o potencial do rebanho”, adverte Fogaça.
Hoje, nas fazendas que adotam processos de gestão, os critérios de seleção mudaram. O que se busca, além da elevação do potencial de produção, é obter animais saudáveis. As vacas estabelecem prioridades ao destinar o alimento que consomem. A primeira delas é a gestação. Ou seja, ao se alimentar, a sua primeira prioridade é atender às necessidades nutricionais desse período. Em seguida, vem a lactação, para alimentar o bezerro que está por vir.
A terceira prioridade é a reposição corporal; e, finalmente, a reprodução. As necessidades nutricionais serão atendidas pela combinação da dieta com a mobilização de reservas corporais. “No primeiro mês de lactação, essas reservas contribuem com 33% da produção de leite”, informa Rennó. Nesse período, as reservas são imprescindíveis, pois é nele que ocorre ao mesmo tempo um lento aumento no consumo de matéria seca e um rápido aumento da produção. Como resultado, aumenta a demanda nutricional do animal.
O professor explica que a variação no escore corporal está associada aos dias de lactação, com decréscimo no início e recuperação e posterior retorno à condição inicial no meio e final do período de produção. “A magnitude das variações está associada ao escore da condição corporal ao parto (ECCP), à produção de leite e à ordem de partos – vacas com maior ECCP, alta produção e multíparas tendem a apresentar variações maiores no início da lactação”.
Por isso, recomenda-se a avaliação das condições corporais das vacas em todas as etapas dos ciclos produtivo e reprodutivo. “É importante observar os animais no terço final da lactação, fase em que já se obtém um escore de secagem, e nas fases pré e pós-parto, para saber quanto o animal perde em reservas, quanto de energia está mobilizando para lactação e manutenção”, diz Aragon. O diretor da Semex também diz ser relevante que o processo de recuperação do animal ocorra de forma natural. “A vaca não pode secar com escore baixo, assim como não pode engordar de maneira forçada.”
Fogaça, da Alta Genetics, destaca ainda dois benefícios resultantes da avaliação visual. Embora não indiquem reserva de gordura, as condições cardíaca e pulmonar têm influência sobre o desempenho das vacas na mobilização de energia. “Quando as condições encontram-se bem desenvolvidas, a fêmea não se ressente fortemente do balanço energético negativo e se recupera mais rapidamente. Ela produzirá bem, com boa resistência”, explica.
A avaliação visual é feita observando-se a vaca por dois ângulos. De frente, a boa abertura de peito é o indicador de que a estrutura favorece o trabalho do coração, que é fundamental. “Para se produzir um litro de leite, é preciso que 500 litros de sangue passem pela glândula mamária”, diz Fogaça. O animal também deve ser visto de lado, para que se possa avaliar a profundidade das primeiras costelas, que mostrarão as condições de respiração.
Escore de Condição Corporal ao longo da lactação
Publicado pela revista Mundo do Leite – out/Nov 2010
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