Gir Leiteiro, um campeão do leite a pasto

Trabalho de seleção, aliado à produção econômica, trazem reconhecimento ao rebanho nacional.
Luiz H. Pitombo
A raça, que é do tronco genético dos zebuínos, consolidou-se como mais um importante case de sucesso da pecuária brasileira. Deu até no “Times of India”, versão online de setembro passado, em reportagem na qual destacado criador local da raça comenta que o Brasil surge como o maior fornecedor mundial dessa genética leiteira de origem indiana, que, hoje, está dentre as melhores, como avalia. Mas o tom que a matéria do jornal traz é de desconforto por não terem cuidado melhor desse hoje rentável animal que é “sagrado” para eles.
É por aspectos como esse que a importação de material genético da Índia está difícil, embora já tenham chegado alguns embriões ao País. Contudo, técnicos e dirigentes consultados avaliam que, embora possa existir alguma boa novidade por lá, primeiro será preciso testar e que, por outro lado, com o rebanho existente no Brasil, os produtores têm a mão o mais apurado Gir Leiteiro disponível.
No resgate de sua história e presença no País, a raça chama para si o conceito da multifuncionalidade, similar ao que europeus fazem com algumas de suas atividades rurais. O Gir é de produção, mas também guarda valor cultural por estar distribuído por muitos rincões, contribuindo para subsistência de famílias e manutenção de tradições.
Como um divisor de águas na trajetória recente da raça está o Programa Nacional de Melhoramento Genético do Gir Leiteiro (PNMGL), da Embrapa Gado de Leite e Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL), que reúne um bom time de parceiros. Em 1997, quatro anos após o início da oferta de sêmen dos primeiros touros provados, o mercado nacional absorveu 182 mil doses, tanto da variedade mocha como da aspada, que predomina com folga. Também segundo dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), em 2009 esta comercialização foi de 580 mil doses, com evolução de 218% no período, contra 65% de todas as raças leiteiras. Se antes sua participação no mercado nacional do segmento era de 7%, em 2009 ela dobrou, com a maior parte utilizada em cruzamentos, em especial para formar o Girolando, que domina a produção leiteira a pasto no País.
A população da raça pura no País é estimada entre 22 mil a 25 mil animais, dos quais 12 mil a 15 mil seriam vacas. A maior parte desses rebanhos participa ou são acompanhados por meio do PNMGL, mas que também podem estar integrando outros projetos de melhoramento mais recentes.

O Gir leiteiro avança no Cerrado brasileiro (Embrapa Leite).
Com perto de 450 rebanhos integrantes, o PNMGL traz em seu banco de dados a análise de 50 mil lactações, tanto de matrizes puras como de cruzadas, estas em maior quantidade. Já foram incluídos no programa 357 reprodutores, sendo que até 2010 passaram por avaliação 202 animais, dos quais 114 mostraram-se positivos.
Em 1985, ao início do trabalho da Embrapa/ABCGIL, a média de produção de leite desses animais era de cerca de 2.000 kg por lactação. Atualmente, fêmeas nascidas em 2006 e 2007 apresentam média próxima aos 3.700 kg, sendo cada vez mais comum vacas com produção acima dos 10.000 kg de leite. O recorde nacional é de 18 mil kg.
Mas os ganhos não ficam só no aumento da produção. A melhoria do manejo pelos pecuaristas também ajudou na demonstração do seu potencial. Por exemplo, houve um aumento na duração da lactação, pois vacas que pariram entre 1970 e 1998 apresentavam um período médio ao redor de 270 dias, mas desde 1999 houve um crescimento tendendo para a atual média de 290 dias.
Também ocorreram reduções no intervalo médio entre partos, que de 517 dias (17 meses) nas fêmeas nascidas em 1970, passou para 446 dias (14,7 meses) para as nascidas em 2002, mas ainda há o que diminuir. A idade média ao primeiro parto igualmente se reduziu.
Rui da Silva Verneque, coordenador do PNMGL e chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Gado de Leite, destaca como os mais importantes avanços da raça a sua produção média de leite, conformação de úbere e funcionalidade. Outras características deverão ser priorizadas nos próximos anos, como informa, considerando que ainda há muito que fazer. Hoje, diz que os trabalhos estão muito voltados à área de genética molecular e genômica, acreditando que se deveria dar maior ênfase a aspectos reprodutivos.
“A raça é muito rústica, altamente resistente a endo e ectoparasitas e tem grande potencial para a produção de leite em sistemas extensivos e semi-extensivos”, avalia Verneque. Ele acrescenta que tanto o Gir Leiteiro, como seus mestiços, são muito indicados para a produção econômica de leite não só no Brasil, mas também em países com clima e manejo similares.
Mas como raça pura, avalia que é difícil ser amplamente utilizada pois sua população é pequena. Mesmo com o aumento na oferta de animais pelo intenso processo de multiplicação por meio das biotécnicas, diz que o preço ainda seria um fator limitante. Assim, defende o uso da raça na formação do Girolando, especialmente o meio-sangue, que considera o tipo ideal de gado para a maioria dos sistemas de produção de leite do País, incluindo a parte mais quente da região Sul. Se o pecuarista não quer produzir com bezerro ao pé e já possui um manejo alimentar e reprodutivo melhor, uma opção adequada pode ser o ¾ Holandês x ¼ Gir, como sugere.
Seleção e escrituração
“O PNMGL esta indo muito bem e a tendência é de que ele ganhe mais corpo e abrangência de área”, avalia André Rabelo Fernandes, da ABCGIL e coordenador operacional do programa. Como Verneque, destaca a evolução da raça na produção, sugerindo que esta poderia atingir a média de 4.000 kg de leite, com animais mantidos a pasto e recebendo um pouco de concentrado.
De uma maneira geral, avalia que os selecionadores necessitam trabalhar mais em cima da escrituração zootécnica e colocar a totalidade das matrizes de seus rebanhos no controle leiteiro. Também enfatiza da importância de se aferir a qualidade dos animais e sua progênie, antes de serem multiplicados e comercializados.
Para a melhor avaliação dos animais da raça e sua classificação por tipo, foi criada uma comissão para definir os parâmetros ideais a serem observados quanto à morfologia, proporções, simetria e equilíbrio nas regiões do corpo das matrizes. Assim, em 2009, foi apresentado um modelo da “vaca ideal”, com a descrição das suas boas e desejáveis características funcionais. Fernandes explica que se buscou um equilíbrio do animal como um todo, mas como raça produtora de leite, o maior peso ficou para o sistema mamário.
Sobre a questão da ordenha mecânica na raça, diz que ela ainda não tem uma amplitude maior por questões culturais e não por limitações intrínsecas de temperamento ou morfologia dos animais. Mas enfatiza que grande parte dos novos criadores já partem para esse sistema.
O técnico comenta que nos últimos quatro anos a demanda e os preços dos animais se aqueceram bastante com a entrada de selecionadores de outras raças, empresários e investidores.
A ABCGIL está com 350 associados e Fernandes aponta que a raça se encontra em expansão nas várias regiões do País, destacando como o epicentro desse crescimento os estados de Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Neste último estado foi criada, no ano passado, a associação estadual da raça (APCGIL), enquanto que Minas Gerais fez renascer a sua entidade (AMCGIL) e o Tocantins estabeleceu a sua (ATOCGIL). Encontra-se em processo de formalização a entidade de Rondônia, enquanto que criadores se mobilizam para a fundação de associações no Mato Grosso do Sul e Sergipe.
No mercado externo, “a raça Gir Leiteiro está em franca ascensão”, afirma de pronto Icce Gardellini, gerente-técnica internacional da Brazilian Catlle Genetics, da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). De toda a genética de raça zebuína exportada, conta que ela ocupa a primeira colocação, tendo por maiores clientes a Colômbia, Venezuela e a Bolívia, os quais têm adquirido na maioria embriões e sêmen.
Em relação ao continente africano, diz que Angola tem demonstrado um grande interesse. Mas o grande entrave, como enfatiza a executiva, são as dificuldades para o estabelecimento de protocolos sanitários entre os países, citando os casos do México e do Panamá, mas diz que se irá insistir.
A aceitação dos animais brasileiros no exterior é boa, como avalia, com os clientes satisfeitos retornando para novas compras. A demanda atual é atendida sem dificuldades, mas questiona se teremos esta capacidade quando mais países abrirem portas.

Leite de sobra para o bezerro e mais para a produção (Gir Brasil).
Raça Multifuncional
A Associação Goiana dos Criadores de Gir (Girgoiás) conta com 140 sócios ativos e desenvolve vários projetos dentro da raça, com destaque para os trabalhos de melhoramento genético.
Seu presidente, Rosimar Silva, é um defensor do conceito da multifuncionalidade do Gir. “A importância da raça não é só na produção de leite, mas na própria identidade do criador rural”, como diz, apontando a disseminação da raça pelo País e a inserção dentro da cultura tropical de produção a pasto. A esses aspectos, acrescenta que como existem linhagens mais pesadas, os animais F1 dos cruzamentos igualmente apresentam interesse para o abate. Entretanto, enfatiza que a vocação do Gir é o leite.
O presidente da associação destaca a eficiência da raça, em contraposição à produtividade de outras. Assim, diz que é mais vantajoso se ter animais com produções menores, mas com custos que abocanham uma percentagem menor do faturamento, do que vacas de alta produção onde os gastos representam uma parcela elevada.
Silva é um entusiasta dos trabalhos que são realizados em Goiás com o estabelecimento, em 2005, do Programa de Melhoramento Genético de Linhagens Leiteiras Alternativas da Raça Gir. Isto significa que avaliam estirpes que ainda não foram testadas pelo PNMGL e buscam resgatar as que possam estar esquecidas em algum sertão. O dirigente goiano comenta que a endogamia dentro da raça existe e que se busca agregar novas linhagens leiteiras ampliando a base genética. De uma maneira geral, sugere que a raça precisa de uma seleção mais apurada para persistência de lactação, precocidade e longevidade.
O trabalho goiano conta com 240 fazendas colaboradoras, entre rebanhos puros e cruzados, a maioria do próprio estado, com 53 touros em avaliação. Para este ano, duas novas atividades devem se agregar a ele. Em primeiro, esta prevista a implantação, ainda no primeiro semestre, de um núcleo moet (múltipla ovulação e transferência de embriões) com animais da raça, projeto que já vinha em pauta.
A outra novidade é a realização de uma prova de produção de leite a pasto, a única dentro da raça, através da ABCZ e Embrapa. As vacas, recebendo o mesmo manejo, terão as produções aferidas, selecionando-se as mais destacadas. A expectativa é que até setembro ela já esteja devidamente estruturada. Silva diz que também estão juntos com os trabalhos de Goiás a Associação Brasileira dos Criadores de Gir (Assogir), a Embrapa, a Universidade Federal de Goiás, Sebrae, Emater, dentre outros.
O dirigente não se posiciona contra as importações de embriões da Índia, que como admite, podem trazer alguma linhagem de interesse, mas diz que por hora ainda não se sabe.
Em termos de preços dos animais, avalia que “nos dois últimos anos viveu-se uma euforia, mas esses preços devem voltar a patamares mais próximos da realidade do produtor nacional”. Ele considera importante que investidores se interessem pela raça, mas advoga que necessitam permanecer nela, evitando-se criar ‘bolhas’. Como diz, “procuramos uma seleção e um mercado que deem sustentabilidade para a trajetória do Gir Leiteiro”.
Ressurgimento em Minas Gerais
No bojo do crescimento da raça, foi refundada em Minas Gerais, no ano passado, a associação estadual da raça. A atual Associação Mineira de Criadores de Gir Leiteiro (AMCGIL) já dispõe de sede própria, no Parque da Gameleira, em Belo Horizonte, capital do estado. Ela conta com perto de 70 associados e vem crescendo substancialmente, de acordo com seu presidente José Santana de Vasconcellos.
Ele considera que o Gir Leiteiro “é o gado certo para o Brasil por sua rusticidade e produção de leite mais barato a campo, quer com a raça pura como os meio-sangue, contribuindo para a atividade do grande ao pequeno produtor, mas principalmente para este”. Foi com essa perspectiva que a entidade fechou, em 2010, um convênio com a Itambé para a oferta e comercialização em leilão de tourinhos de qualidade aos produtores cooperados.
Vasconcelos conta que tem procurado atuar bastante na interiorização de exposições e no seu ranqueamento, apontando como exemplo as mostras de Itabira e de Pará de Minas. Afirma que estas vitrines da raça melhoram o seu nível com juízes profissionais e animais de maior qualidade.
Neste ano, a primeira atividade que conta estar envolvido é na organização da participação da raça na mostra da capital mineira, a Superagro, que começa em fins de maio. A entidade mineira estará patrocinando um leilão e será realizado, pela primeira vez na mostra, um torneio leiteiro da raça.
Se no ano passado havia 200 argolas disponíveis para o Gir Leiteiro, Vasconcelos diz que espera 450 argolas para este ano.
Raça é das mais antigas
Estudiosos acreditam que os ancestrais da raça Gir tenham chegado à Índia há bem mais que 2000 anos. A origem é o Estado de Gujarat, ao Oeste do país, nas florestas e montanhas da região de Gir, onde atualmente existe uma reserva natural com seus famosos leões. É reconhecida pelos indianos por sua aptidão leiteira e para o trabalho.
O Gir é o único bovino a ter chifres voltados para baixo e até a década de 1960 era raça bem numerosa no Brasil, onde existem linhagens selecionadas para leite, carne e tipo. Indianos falam que ela chegou ao Brasil em 1850, mas por aqui, considera-se que fora introduzido nas primeiras décadas do século XX. Sucessivas importações aconteceram, com a última e maior delas envolvendo 153 animais ocorrendo em 1962. Estas permaneceram proibidas até 2008. Há três alguns grupos de neloristas trouxeram novas linhagens desta raça e também aproveitaram para trazer algumas linhagens novas de Gir.
Já nos desembarques iniciais, alguns técnicos e criadores acreditaram e começaram a seleção da raça para a produção de leite. Neste caminho é possível destacar o estabelecimento pelo poder público, na década de 1930, do Posto de Criação João Pessoa, em Umbuzeiro/PB, e nos anos de 1940, da Fazenda Experimental Getúlio Vargas, em Uberaba/MG.
Dentre os rebanhos pioneiros do Gir Leiteiro encontrados nas décadas de 40 e 50 estão os de Francisco Figueira Barreto, Contentino Jacinto, Gabriel Donato de Andrade, João Batista Figueiredo Costa, Randolfo de Mello Resende e Rubens Resende Peres.
A raça foi utilizada para a formação de várias outras, como Indubrasil e a Girolando, como também Brahman (nos Estados Unidos).
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