Máximo de tecnologia para acelerar a produção

Condomínio de neloristas desenvolve projeto para produção de tourinhos com vistas à criação de animais a campo
Texto de Vera Ondei
Apoiado no emprego de ferramentas que tornam possíveis saltos no tempo em seleção em larga escala, o Condomínio Nelore CBMW Talismã, com fazendas em Goiás e Mato Grosso, propôs-se um objetivo ousado – elevar a sua produção de touros Nelore, de 500, atualmente, para 1.200, num prazo de dois anos. Para cumprir a meta, o trabalho de retenção de novilhas elite de campo, que começou há dois anos, com 300 por ano, foi acelerado com a adoção da IATF com sêmen sexado de macho. O condomínio participa do PMGRZ, o Programa de Melhoramento Genético das Raças Zebuínas.
Em fevereiro, os resultados de ultrassom de parte do rebanho surpreenderam os mais otimistas, dentre a nova geração de criadores que assumiu o condomínio. É o caso da fêmea Alcânfora TE da Quilombo, comprada da criadora Alice Ferreira, de Indaiatuba, SP, que registrou resultados promissores, segundo análise da Pecus, de Campo Grande, MS, empresa especializada em medição de carcaça. Para área de olho de lombo (AOL), espessura de gordura subcutânea (EGS) e marmoreio, os índices observados são de, respectivamente, 87,10 cm2, 19,65 mm e 4,02 de escore. O ratio (medição do contrafilé) é de 0,49; a AOL/100, de 9,92; e a EGS/100, de 2,24 (veja quadro). “Estamos em busca desse modelo de fêmeas – elas são em número de 1.800 em nossa base de seleção –, por terem características de alta herdabilidade”, diz César Brugnera, um dos sócios do condomínio.
De acordo com a veterinária Ana Elisa Bardi, da Pecus, é comum encontrar-se animais que se destacam por uma das características (AOL e EGS). “Difícil é encontrar equilíbrio entre elas, por apresentarem correlações negativas, principalmente associadas ao marmoreio”, diz ela. “Isso não quer dizer que o Nelore deva orientar a seleção para marmoreio, pois perderia em produção de carne. Mas o resultado mostra que é possível produzir animais que se distingam pelas três características”, acrescenta.
Alcânfora foi criada em cocheira. Mas, segundo Ana Elisa, “ainda que tivesse sido criada a pasto, seu valor de herdabilidade seria de 52% para AOL, 46% para EGS e 68% para marmoreio. Pista e pasto podem, sim, estabelecerem uma ponte confiável”, diz ela.
Alta rusticidade – A história que uniu os novos gestores da CBMW Talismã começou a partir da criação de Nelore, há trinta anos, de Marco Antônio Mendonça Pedrosa, engenheiro e um dos diretores da Associação Goiana do Nelore. Por motivo de negócios urbanos, Pedrosa tornou-se amigo do administrador gaúcho César Brugnera e lhe vendeu inicialmente uma cota de doadoras, antes de formalizar a sociedade, em 2004.
A parte Talismã, incorporada ao empreendimento em 2008, pertencia a Leonardo, o cantor sertanejo de nome real Emival Eterno da Costa, que é pecuarista há mais duas décadas em Goiás, sua terra natal. “Juntamente com o irmão Alessandro, que toca o trabalho de campo, Leonardo visitava a CMMW para comprar 20 touros, quando disse de brincadeira que queria ser nosso sócio. Nós o levamos a sério e propusemos a formação do condomínio, como forma de ganhar escala na produção de touros”, informa Brugnera.
A criação do condomínio distribui-se por três fazendas. Na Riacho Fundo, de 1.452 hectares em Araguaiana, MT, são mantidos os touros criados para repasse de rebanho puro, 50 doadoras e 300 fêmeas de elite de campo, em invernadas de 40-70 hectares, cultivadas com braquiarão e humidícula. O objetivo é produzir animais de alta rusticidade em ambiente de Cerrado. A região, sujeita a temperaturas elevadas, assemelha-se ao Pantanal quanto à umidade, pois no tempo das chuvas muitas áreas permanecem submersas. Da fazenda saem por ano 200 animais de FIV-fertilização in vitro, e 250 de criação natural. É nessa unidade que a totalidade do plantel é submetida a ultrassonografia.
A Fazenda Talismã, em Jussara, GO, considerada pelos proprietários como a “fábrica de touros”, está em processo de expansão. Seus 7.260 ha são ocupados por 1.500 fêmeas POs. Todas as crias avaliadas como melhores são retidas, incluídas as das demais fazendas. Elas integram a base de seleção, que deverá estabilizar-se em 3 mil puras. Seguem o modelo de pastejo a campo, somente em braquiária.
Primeiramente – as fêmeas, incluídas as novilhas de 14-15 meses – são emprenhadas por monta natural, em estação de 90 dias, de outubro a dezembro. A seguir, de janeiro a fevereiro, é realizada a IATF-inseminação artificial por tempo fixo, uma única vez. As fêmeas que permancem vazias são colocadas junto a touros de repasse para cobertura, por 30 dias. “Optamos pela monta natural em primeiro lugar, invertendo a ordem, porque nosso cliente número um é o criador de vacas no Cerrado, que necessita de touros a campo. Então, queremos desafiar as fêmeas nas condições em que seus filhos irão trabalhar”, explica César Brugnera.
As provas de ganho de peso são realizadas, desde 2006, em outra fazenda de nome Talismã, em Guapó, GO, de 290 ha. Oficializada pela ABCZ, a fazenda realiza uma prova de desempenho de performance para os animais em idades que não se enquadram em prova de ganho de peso. Uma de suas cocheiras recebe animais destinados às exposições, cerca de meia dúzia por ano, todas regionais goianas.
Interessados no que há de mais atual em biotecnologias reprodutivas, os gestores do condomínio adotou, há dois anos, a tecnologia de marcadores moleculares para a cabeceira do rebanho, entre os quais está Oxum de Genebra, filho de Nobre TE da Primavera, alojado na CRI Genética. É 0,5% tope no programa de melhoramento da ABCZ. Outros três machos candidatos a touros de central estão em teste na fazenda. “Depois do criador de vacas no Cerrado, nosso segundo cliente são os frigoríficos”, diz Brugnera. O condomínio dispõe ainda de 8.230 ha destinados à recria e terminação.
O que indicam os índices
- A área de olho de lombo indica o rendimento de cortes comerciais na composição da carcaça e o grau de musculosidade. Valores acima de 75 cm2 são indicativos de alto rendimento.
- Ratio é a relação entre a altura e a largura do contrafilé, calculado para reduzir a influência de animais que, mesmo com alto valor de AOL, não apresentam enchimento de carne na carcaça, como por exemplo um Holandês. Nos EUA, a medida é utilizada como critério de ingresso nos confinamentos. De acordo com os padrões desse país, os valores devem superar 0,40.
- A espessura de gordura subcutânea demonstra o potencial genético para precocidade de acabamento; o mínimo de 3 mm é considerado fundamental para atuar como isolante térmico.
- Marmoreio ou gordura entremeada indica suculência e sabor. A característica é critério de sobrepreço nos EUA, Canadá, Japão, Austrália e em nichos no Brasil. O escore médio das raças de marmoreio é 3,5.
- Relações de AOL/100kg e EGS/100Kg são calculadas para reduzir a influência do peso vivo e facilitar a comparação entre animais.
Publicado na Revista DBO – edição nº 365. Reprodução autorizada
Compartilhe :
LEIA OUTRAS MATÉRIAS
- Programa AltaEmbryo apresenta novas parcerias na ExpoZebu
- Antes os campeões de pista; agora os campeões do pasto.
- Incubadora genética melhora produção bovina
- Guzerá tem seu primeiro clone
- Máximo de tecnologia para acelerar a produção
- Técnica de congelamento de embriões sexados fertilizados InVitro, é ideal para a pecuária leiteira tropical.
- Girolando – Formação da raça visou produção e padrão do gado



