Tempos Difíceis
Lygia Pimentel*
É, pessoal.
Nosso querido boi gordo não tem dado muito alento para quem deixou o hedge de custos para o ano que vem e apostou que este seria o ano dos R$120,00/@. Até mesmo os mais pessimistas têm se surpreendido com o escorregão, apesar de alguns não admitirem. Queda de R$5,00/@ desde o início de agosto até a última cotação registrada pelo indicador Cepea/ESALQ à vista. O boi gordo em São Paulo voltou aos patamares registrados em maio, ou seja, aquele que é considerado o fundo da safra para a maioria dos anos.
Algumas variáveis justificam esse desempenho ruim no segundo semestre.
A primeira variável é o cenário macroeconômico complicado. Países considerados como os melhores, as potências, o primeiro mundo, estão com dificuldades enormes para honrar suas dívidas neste momento. Observe o comportamento do IBOVESPA no último ano. Lamentável!
Gráfico 1.
Evolução do IBOVESPA nos últimos 12 meses, em pontos.
Fonte: Bloomberg
Para quem não sabe, o IBOVESPA é o Índice que mede o desempenho médio das principais ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, a Bovespa. É uma cesta que contém as empresas mais negociadas no Brasil e seu comportamento reflete o que tem acontecido com esse conjunto de ações. No último ano, esse índice recuou 18%. Ruim.
E para não falarmos apenas do Brasil, observe o fraco desempenho das principais bolsas ao redor do mundo.
Gráfico 2.
Evolução dos principais índices ao redor do mundo nos últimos 12 meses.
Fonte: Bloomberg
Na próxima semana aprofundarei um pouco os comentários sobre o cenário macroeconômico e falarei também do cenário geral para as commodities, mas já ficou claro que os investidores não andam nada otimistas nos últimos tempos. Isso enxuga o crédito da praça e afeta o capital de giro dos frigoríficos. Não há mais “dinheiro novo”.
Em segundo lugar, as nossas exportações. Já discorremos sobre esse assunto em um artigo recente, chamado “Exportações: combinação de volume em baixa e câmbio prejudica resultados”, mas não custa nada ressaltar que o volume exportado caiu 15% na comparação ano-a-ano.
Em agosto, a alta do dólar frente ao real favoreceu o volume e houve melhora de 5%. O mercado vinha trabalhando com queda de 20% na comparação ano-a-ano, recuperou-se, portanto. Mas ainda estamos muito longe de recuperar os 77 milhões de toneladas que embarcávamos em setembro de 2010. Isso representa um excedente que é direcionado para o nosso fantástico mercado interno.
Refiro-me ao consumidor brasileiro como “fantástico” pois temos feito um excelente trabalho quando fala-se em consumo de carne. Dados recentes comparados a dados históricos mostram que o brasileiro está usando uma parte grande do capital reservado à alimentação para a compra de carnes. É o que mostra o gráfico a seguir:
Gráfico 3.
Participação do gasto do brasileiro com carnes dentro do gasto total com a cesta básica.

Fonte: DIEESE/IEA/FGV/XP Agro
Ao contrário do que muita gente diz, o consumo não está fraco. No gráfico fica claro que o brasileiro faz sua lição de casa e gasta muito com mais carnes perto do que costumava gastar dentro de um orçamento reservado à alimentação. Mas o que muita gente não enxerga é que esse gasto também está esticado e tem dificuldades em aumentar ainda mais.
Um dado interessante que acompanhei nos últimos dias foi divulgado pela empresa TeleCheque. Ele diz que o volume de cheques sem fundo destinados a supermercados, ou seja, à alimentação, aumentou 78% no último ano. Nada bom, o pessoal tá começando a não conseguir cobrir os gastos básicos. Junte a isso o excedente gerado pelas exportações e entendemos porque a demanda e o preço da carne no atacado não decolam como fizeram no ano passado. Tenho falado sobre isso há algum tempo e provavelmente continuaremos falando pois a demanda tem menor “agilidade” em modificar seu comportamento quando a comparamos à oferta.
E é bem neste ponto que entra a questão da oferta de animais terminados pra finalizar a análise “oferta vs. demanda”. Pesquisas indicam crescimento de 30% para o volume de animais de cocho em relação ao ano passado, que, por sua vez, tinha caído 20% em relação a 2009. Será que é verdade? Bom, é o que o gráfico das escalas de abate em São Paulo nos diz. Observe:
Gráfico 4.
Evolução das escalas de abate em Barretos – SP.

Os círculos comparam as escalas de abate exatamente as segundas quinzenas de 2010 e 2011 para sabermos se há mais bois ou não. As escalas dizem que sim.
Mas nem tudo é pesadelo, se você que está lendo for pecuarista. As mesmas pesquisas indicam que o maior volume de animais confinados será liberado em setembro, o que faz sentido, porque o preço do boi estava mais alto quando os preparativos para o primeiro turno de confinamento começaram, ou seja, fevereiro, março, abril… Quando o pessoal foi olhar o resultado do segundo turno, em maio, junho, julho, o preço do boi tinha caído, os custos tinham subido e a BM&F estava na maior lenga-lenga. Assim dá pra entender porque faz sentido que o maior volume seja mesmo liberado em setembro.
Observe que no ano passado as escalas também encurtaram em outubro e novembro. É uma possibilidade com a qual o mercado futuro já trabalha. Isso quer dizer que poderemos ter preços mais altos no mercado físico nos próximos meses, caso se confirme a liberação menos intensa de animais de cocho. A não ser que chova tanto que os pastos deem condições de aumentar muito o volume de animais de pasto ou semi-confinados, mas a coisa não evolui assim tão rapidamente. Até a recuperação das pastagens, vai demorar um tempinho.
Gráfico 5.
Mercado físico e vencimentos futuros

Fonte: Broadcast
E é isso. A situação não está fácil, mas talvez nem tudo esteja perdido. Ainda há uma esperança para os próximos três meses.
Ah, só mais um detalhe: volte ao gráfico 4 e observe mais cuidadosamente as escalas de abate. Elas ainda estão em patamares elevados, mas deu pra perceber o último movimento que o gráfico fez?
Abraços e até a semana que vem!
*Lygia Pimentel é médica veterinária e especialista em commodities
Publicado, originalmente, por Bigma Consultoria
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