Soluções Integradas para a Cadeia Produtiva do Leite e da Carne

O Zebu no caminho da sustentabilidade

Eduardo Biagi, presidente da ABCZ para o mandato 2010-2013 (Foto: Maurício Farias)
Eduardo Biagi é o atual presidente da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), entidade que representa mais de 19 mil associados do País e no exterior. Nesta entrevista ao portal Boi a Pasto, o dirigente fala sobre a contribuição do zebu em prol da pecuária sustentável, questões técnicas, políticas, econômicas e melhoramento genético, além de destacar os programas e estratégias de ação que têm sido desenvolvidos durante seu mandado a frente da ABCZ.

Boi a Pasto – Quando o assunto é sustentabilidade, a questão ambiental aparece como um dos itens fundamentais no centro do debate, objetivando uma maior produção, numa mesma área, e em menos tempo. Na sua opinião, o pecuarista brasileiro tem desempenhado bem seu papel nesse sentido?  Como vê a imagem da pecuária nacional lá fora? O que seria necessário fazer para aprimorá-la e agregar mais valor a carne e ao leite brasileiro?

Eduardo Biagi - O pecuarista brasileiro está cada vez mais consciente quanto à necessidade da verticalização da atividade pecuária. Prova disso, é que estamos percebendo um progressivo investimento em melhoramento genético, não só por parte dos grandes pecuaristas, como também dos médios e pequenos produtores. Os selecionadores de zebu estão atentos a importância das avaliações genéticas, enquanto os pequenos e médios criadores, já começam a sentir na prática a diferença que o um zebuíno puro pode imprimir em seu rebanho, seja de carne ou de leite. Quanto à imagem da pecuária nacional no exterior, muito ainda precisa ser feito. Há ainda muita desinformação em relação ao modo como produzimos tanto a nossa carne quanto o leite. Sabemos que precisamos avançar em vários aspectos, sobretudo, em relação à sanidade, mas também sabemos que estamos aptos a atender a demanda de vários países, especialmente, para exportar genética superior. Apesar da desinformação, acredito que a imagem da pecuária do Brasil no exterior tem melhorado bastante.

Boi a Pasto – Nessa busca por maior eficiência da produção e rentabilidade do produtor, qual tem sido a contribuição do gado zebu (tanto na pecuária de corte, quanto na leiteira)? De que forma o melhoramento genético das raças zebuínas tem visado o desenvolvimento sustentável?

Biagi - O zebu contribuiu e contribui muito ainda hoje com a pecuária brasileira, em especial, pela sua rusticidade e boa adaptação ao sistema de produção do nosso País. Ao longo de várias décadas, os criadores brasileiros se preocuparam em produzir animais com foco em alguns aspectos essenciais, como fertilidade, precocidade e produtividade. Justamente devido a este excelente trabalho de seleção alcançamos um lugar de destaque na pecuária global. Através do melhoramento genético, baseado nas DEP’s e avaliações genéticas, podemos intensificar o processo evolutivo dos nossos animais. Com isso, além de produzir mais, em menos tempo, utilizamos menos recursos naturais.

Boi a Pasto –E em que a evolução genética do rebanho tem esbarrado no Brasil? Quais são os inimigos do produtor? Como combatê-los?

Biagi - Acredito que a desinformação ainda é um grande entrave. O Brasil também enfrenta o obstáculo de ser um país com extensões continentais. Mas estamos caminhando bem. A ABCZ tem se esforçado em promover as raças zebuínas e o melhoramento genético em todos os estados do país, mostrando aos criadores que esta é a melhor maneira para fazer da pecuária uma atividade ainda mais moderna, sustentável e competitiva. Através do melhoramento genético, mostramos que os ganhos de qualidade e produtividade estão diretamente ligados ao emprego de tecnologias. Para levar mais informações aos pecuaristas, a ABCZ tem investido constantemente na realização de dias de campo, palestras sobre o PMGZ (Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos) e, mais recentemente, em cursos sobre Melhoramento Genético. O primeiro curso com noções básicas sobre o tema foi realizado em Belém, no mês de setembro. Os próximos cursos serão realizados em Uberaba e Bauru/SP, ainda este ano.

Boi a Pasto – A ABCZ tem trabalhado o projeto “Pecuária Intensiva Sustentável”. Quais são seus pontos principais e o público que visam atingir? Inicialmente, a ação está sendo desenvolvida onde? Há intenção de disseminá-la a outras localidades, como ocorre, por exemplo, com o Pró-Genética?

Biagi - O projeto Pecuária Intensiva Sustentável é promovido pela FAZU (Faculdades Associadas de Uberaba), com o apoio da ABCZ, no campus da faculdade, localizado em Uberaba. A proposta é que o projeto desenvolva modelos de produção viáveis às diferentes propriedades, evidenciando a importância da associação entre genética superior e sistemas de produção tecnificados, incrementando o mercado com animais comprovadamente melhoradores, destacando a importância do uso correto de equipamentos e insumos e desmitificando a pecuária como vilã à preservação ambiental. Sabemos que em grande parte das propriedades rurais do Brasil, em especial aquelas que se dedicam à pecuária comercial, a defasagem tecnológica e a falta de orientação técnica adequada ainda são grandes empecilhos para a evolução genética do rebanho e, consequentemente, para o desenvolvimento da qualidade da produção e a boa rentabilidade do produtor rural. Nestas propriedades, tecnologias simples, como a IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo), fundamental para disseminar genética de animais melhoradores de maneira rápida e segura, além de facilitar o manejo com os bezerros, estão longe de serem aplicadas no rebanho.
O programa irá confirmar a importância do zebu para o agronegócio nos países tropicais, a partir da formação de um plantel de alta qualidade com exemplares de várias raças zebuínas, onde serão aplicadas as mais modernas técnicas de manejo, reprodução e melhoramento genético, com o objetivo de demonstrar aos pequenos e médios criadores que com um baixo investimento é possível atingir melhores índices zootécnicos, garantindo dessa forma uma pecuária ainda mais sustentável e lucrativa.

Boi a Pasto – Em números, quem é hoje a ABCZ, em termos de associados, estrutura e representatividade?
Biagi - A ABCZ é a principal entidade representativa dos criadores de zebu no Brasil, além de ser a delegada do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para realizar o registro genealógico das raças zebuínas em todos os estados brasileiros. Atualmente, a entidade conta com mais de 19 mil associados que se dedicam a criação e seleção de zebu. A entidade possui uma sede, localizada na cidade de Uberaba/MG, 26 Escritórios Técnicos Regionais e 2 filiadas que estão localizadas em pontos estratégicos do país para melhor atender aos associados. A ABCZ representa seus associados nos principais fóruns de debate, seja político ou setorial.
Boi a Pasto – Vocês lançaram neste ano o Plano Estratégico ABCZ 2011-2015. Qual o atual momento desse projeto? Quais são os pontos que ele contempla e o que pretendem alcançar por meio do mesmo?

Biagi - Todos os objetivos do Plano Estratégico 2011-2015 foram elaborados com o intuito de promover os produtos e serviços da ABCZ, além de aproximar a entidade dos associados e seus clientes. Uma das primeiras ações delineadas é o fortalecimento da pecuária comercial com a identificação de mecanismos para transferência de tecnologias e conhecimento. Apontar soluções de sucesso para o pecuarista esclarecendo sobre a importância de investimentos em melhoramento genético do gado zebuíno. Neste sentido, um ponto considerado fundamental é o fortalecimento e a expansão do PMGZ. A ABCZ pretende que o programa seja o mais robusto e confiável do Brasil e que, além de promover o melhoramento genético sistemático do rebanho, seja uma ferramenta para otimizar o desfrute do rebanho e tornar cada vez mais eficiente a produção de carne e leite de zebuínos. Outra ação prioritária é tornar o Pró-Genética um dos principais programas nacionais de fomento para atividade pecuária de médios e pequenos criadores. As prioridades são: ampliar o programa para outros estados, identificar mecanismos de acesso a recursos públicos e viabilizar canais de comunicação com os participantes.
No Plano Estratégico, a “Promoção” também vai receber bastante atenção nos próximos períodos. Um amplo projeto de comunicação com objetivos e públicos distintos está sendo realizado, utilizando as novas mídias e as tradicionais, para valorizar a carne e o leite de origem zebuína, melhorar a imagem da pecuária nacional e posicionar a ABCZ como principal entidade representativa do setor.
Ações políticas têm intenso destaque no Plano Estratégico. Inovações de liderança institucional que foram sugeridas e serão trabalhadas dentro de uma abertura de cronograma são a criação e atuação ampla em nível nacional do Consecarne e do Conseleite. Os dois conselhos representativos deverão reunir todos os elos das cadeias produtivas da carne e do leite para agir de forma aglutinada na formulação de políticas de remuneração frente à organização industrial. Outra tarefa designada aos conselhos é criar mecanismos de certificação pelo selo de pureza de origem zebuína.Os quesitos Motivação e Desenvolvimento serão trabalhados com as diversas equipes da sede e dos escritórios regionais da Associação. O objetivo é manter em nível elevado a satisfação dos funcionários para garantir a execução do plano estratégico. Para isso, será remodelada a estrutura organizacional, monitorado o clima organizacional e ampliada a qualificação dos colaboradores.

Boi a Pasto – Qual a opinião da ABCZ diante do texto aprovado pela Câmara dos Deputados para o novo Código Florestal? O documento satisfez parte dos anseios da entidade? O que esperam a partir desta aprovação?
Biagi - O texto aprovado garante um pouco mais de tranquilidade aos milhares de agricultores e pecuaristas, que trabalham diariamente para produzir alimentos para a população brasileira e mundial. As alterações foram importantes para manter a atividade em áreas produtivas importantes de vários estados brasileiros. Sabemos da relevância do reflorestamento de áreas degradadas e da preservação e recomposição de APPs. É por isso, que em muitas propriedades este trabalho de recuperação já vem sendo feito. Sem a pressão de ambientalistas e, sim, com a conscientização do produtor rural.

Boi a Pasto – Por fim, qual a mensagem que o senhor deixa aos pecuaristas brasileiros?
Biagi - A minha mensagem é de agradecimento a todos os pecuaristas que se esforçam diariamente para manter-se com dignidade na atividade e que juntos, conseguem fazer da pecuária brasileira referência mundial. Continuemos unidos, investindo cada vez mais em tecnologia e no melhoramento genético de nossos rebanhos. Tenho convicção de que o nosso profissionalismo será reconhecido e nossa pecuária será cada vez mais moderna, sustentável e competitiva.

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