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Segurança Alimentar: o papel do agronegócio no combate à fome

A necessidade de uma nova revolução verde é um dos caminhos apontados por Hélder Muteia para que se possa reduzir o número de famintos no mundo. De acordo com o representante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) no Brasil, é do acesso a tecnologia que virá o maior ganho para a segurança alimentar. Em entrevista ao portal Boi a Pasto,  o moçambicano fala ainda do papel da produção brasileira e detalha alguns dos principais pontos de sua apresentação realizada durante o 2º Fórum Internacional de Estudos Estratégicos para Desenvolvimento Agropecuário e Respeito ao Clima (FEED 2011), evento promovido no mês de setembro pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em São Paulo.

Boi a Pasto – A FAO estima que 925 milhões de pessoas passam fome no mundo, o que representa a média de uma, a cada sete pessoas. Quais os trabalhos que a Organização tem realizado a fim de chegar à meta de reduzir esse número pela metade, até o ano de 2015?

Hélder Muteia - De fato, a situação em que nos encontramos hoje, não nos dignifica como Humanidade. Não devemos aceitar que uma, em cada sete pessoas, esteja sofrendo e  morrendo de fome. Na Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar realizada em Roma em 1996, foi feita uma avaliação desta “trágica realidade”, e um compromisso foi assinado no sentido de mobilizar os principais atores do setor agrário para um esforço redobrado para aumentar a produção. Ao mesmo tempo, mais investimentos públicos e privados deverão ser canalizados para promover mais acesso à terra e água, à tecnologia, mercado, crédito e seguro agrícolas. Uma atenção especial vai ser prestada à agricultura familiar, não apenas pelas suas vulnerabilidades, mas também porque ela é a responsável pela cesta básica, em toda a sua diversidade e riqueza nutritiva. Esses esforços estão, naturalmente, concentrados na África Subsaariana e sul da Ásia, onde o problema está, de certa forma,  estigmatizado.

Boi a Pasto – Na sua opinião, quais têm sido os principais gargalos da insegurança alimentar? O que tem sido proposto para resolvê-los?

Hélder Muteia - A mãe da fome é a pobreza. Os países pobres têm maiores índices de insegurança alimentar. As comunidades, as famílias e os indivíduos pobres são também os mais afetados. A alta  volatilidade de preços das commodities agrícolas representaram um grave problema em 2008 e no primeiro semestre de 2011. As desigualdades sociais estão entre as causas predominantes no Sul da Ásia. A seca na região do Chifre da África também é outra questão que muito nos aflige. Os conflitos armados também causam insegurança alimentar, na África e no Oriente Médio. Assim, as causas são várias e a sua incidência difere de região para região. É preciso encarar esses problemas com coragem e flexibilidade. Produzir mais, e com mais eficiência,  é de fundamental importância, porque a humanidade está crescendo demograficamente, as mudanças climáticas representam um desafio e a água para irrigação vai escasseando. Portanto, o desafio é enorme e multifacetado, requer determinação e ação coordenada.

Boi a Pasto – Mundialmente, em quais regiões tem sido mais difícil superar questões como essas?

Hélder Muteia - Como mencionei, a África Subsaariana e o Sul da Ásia são as regiões mais afetadas. Cerca de 85% dos casos estão nessas regiões. Na Ásia, a situação é difícil porque se trata de uma região muito povoada e com problemas sociais de difícil resolução.  A Índia, por exemplo, logrou avanços significativos nas últimas décadas, beneficiou-se da revolução verde e aumentou a produção agrícola, mas esses avanços esbarram com o sistema de estratificação social baseado em castas. Na África, ainda paga-se o preço do colonialismo. As debilidades e vulnerabilidades herdadas do sistema colonial, refletem-se nos campos econômico, social e político. Faltam infraestruturas, falta uma estrutura produtiva, faltam políticas públicas que promovam maior produtividade do setor agrário, faltam tecnologias, falta um regime institucional adequado. Por causa dos aberrantes subsídios nos países mais ricos, a África viu-se obrigada, nos últimos 10 anos, a consumir cereais importados.Conflitos armados teimam em acontecer. Os desastres naturais acontecem freqüentemente e muitos países não estão preparados para enfrentá-los.  Os países, as comunidades, as famílias estão ficando mais pobres. Em algumas sub-regiões, a situação é mesmo regressiva.

Boi a Pasto – Considerando a perspectiva de que em 2050 o mundo terá nove bilhões de pessoas e de que a produção alimentar terá que crescer 70% para alimentar essa população, qual o papel e potencial do agronegócio brasileiro dentro desse cenário?

Hélder Muteia - Em 2050 projeta-se que a população mundial será de cerca de 9 bilhões. Para que possamos alimentar adequadamente essas pessoas, a produção deve crescer em 70%. Quando olhamos a nossa volta, constatamos que há países que logram maior sucesso na produção agrícola e no combate a fome. Entre eles está o Brasil, que não apenas abastece o seu mercado interno, como contribui para o resto do mundo através do comércio. A expectativa é que o Brasil continue esses avanços, produzindo de forma exemplar e ajude a manter os estoques mundiais em um nível aceitável. Mas, também, se espera do Brasil que partilhe os seus avanços tecnológicos, suas políticas públicas, sua organização produtiva. Isso é possível por meio da chamada cooperação sul-sul.

Boi a Pasto – Quando o assunto é crescimento populacional e aumento de demanda, é inevitável não citarmos a China. A seu ver, qual a importância da China como mercado consumidor e grande produtora no contexto agropecuário?

Hélder Muteia - Na apresentação, usei o exemplo da China para demonstrar como a demanda cresce, e como o crescimento econômico dos BRICs acelera essa demanda. A China vive um boom econômico e, como consequência, e uma procura cada vez maior de alimentos protéicos, ricos e processados. A sua demanda por soja e óleos cresceu de 1995 a 2003,  16,1% ao ano e de 2003 à 2010 8,8% ao ano, passando de 16,5 milhões de toneladas importadas em 1995  para 106,5 milhões de toneladas em 2010. E deve continuar assim nos próximos anos. Essa janela continuará aberta por muito tempo. A Índia e a Indonésia também procuram responder a essa demanda.

Boi a Pasto – Com a clara necessidade do aumento da capacidade de produção por área, como entra a questão da sustentabilidade nesse desafio? No caso do Brasil, o que já serve como modelo de desenvolvimento e investimentos e no que é preciso avançar?

Hélder Muteia -O aumento da produção deve resultar em mais ganhos tecnológicos e, não propriamente, apenas expansão das áreas de cultivo. Perante os compromissos já assumidos pelos países, projeta-se que haja um aumento de apenas 20% da área cultivada. Espera-se maior eficiência na utilização da água para irrigação, mais investimentos em pesquisa, o uso racional de agroquímicos e, de um modo geral, uma economia de baixo carbono.

Boi a Pasto – Ainda nesse contexto, como vê, por exemplo, a questão do uso e acesso dos produtores às novas tecnologias e mão de obra qualificada? O que, no seu ponto de vista, precisa melhorar nesse sentido?

Hélder Muteia - O acesso a tecnologia é de fundamental importância. Daí é que virá o maior ganho para a segurança alimentar no mundo. As instituições de pesquisa devem procurar novas soluções e elas devem ser passadas para os agricultores. Daí a importância das instituições de extensão agrícola. É preciso investir no acesso da agricultura pelos agricultores. E, nesse sentido, a agricultura familiar deve ser privilegiada.

Boi a Pasto – Durante o FEED 2011, o senhor ressaltou a necessidade de uma nova revolução verde mundial. Como seria possível alcançá-la e no que ela precisaria ser diferente em relação à primeira?

Hélder Muteia - O que fiz foi um apelo para uma nova revolução verde que evite os erros da primeira. A revolução verde dos anos 60 privilegiou os cereais mais nobres como o trigo e o arroz e negligenciou os cereais secundários como o milho e o sorgo. Negligenciou os aspectos ambientais, permitindo o uso abusivo de agroquímicos e o desmatamento. Não teve como prioridade a redução dos desequilíbrios regionais. Uma nova revolução verde tem que solucionar estas questões pertinentes: enfoque em tecnologias sustentáveis, diversificação da produção, priorização das regiões com maior incidência de pobreza e má nutrição, uso racional de agroquímicos e treinamento dos agricultores no seu uso, e uma plataforma firme de sustentabilidade ambiental. Esse apelo também serve para o Brasil.

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