Atacado perde sustentação, boi também
Lygia Pimentel*
É, não tem jeito, o mercado não nos engana. Nós é que muitas vezes preferimos não enxergar seus sinais.
Como tínhamos comentado, as escalas encurtaram, definitivamente. É o que tenho mostrado nos últimos textos: o gráfico com a evolução das programações de abate repetidas vezes. Procuro acompanha-lo de perto sempre. Mas o fato é que já elas estiveram mais apertadas em outras ocasiões em que o boi não subiu como fez no último mês. Com a reação do consumo no início de novembro (e também com a reação recente do dólar), as margens dos frigoríficos foram mantidas mesmo com pagamentos mais altos pela arroba.
Quero dizer, aí sim valeu a pena pagar mais pelo boi, já que as escalas estavam encurtando. Imagino o pessoal no frigorífico pensando sobre isso: “Se posso escoar o produto por um valor mais alto, também posso pagar mais sem comprometer minha margem. O produto está escasso, então o caminho é esse mesmo”. E foi o que aconteceu. Observe o gráfico abaixo.
Gráfico 1. Evolução das escalas de abate, equivalente físico e indicador Cepea/ESALQ à vista.
No gráfico, observe a linha tracejada. Ela indica um suporte em relação à duração das escalas. Isso significa que quando as escalas se encurtam demais, entre 3 e 5 dias, os frigoríficos ficam apertados e precisam se mexer para comprar animais, para que as escalas saiam da zona de “perigo” e andem um pouco. O que quero dizer, é que essa linha tracejada já foi tocada mais vezes em um espaço mais curto de tempo no passado, o que deixa a média das escalas no período mais baixa do que está hoje. Para entender, observe o que ocorreu na metade do ano e compare com o que ocorre hoje. Em resumo, isso prova o que eu disse acima, que as escalas já estiveram em situação mais complicada em outras ocasiões.
Agora observe a linha azul, ou seja, o equivalente físico. Nele, existe uma seta indicando o momento exato em que a demanda fraquejou. Juntamente com a chegada do fim do mês (novembro), os altos preços fizeram o consumidor recuar e o equivalente físico não aguentou. O boi casado, que no ano passado teve máxima nos R$7,36/kg, chegou aos R$7,09/kg recentemente e a partir daí recuou.
Ao mesmo tempo, o indicador continuou para cima, mas aí já tinha ficado claro que a alta não era “saudável”, pois comprometia a margem dos frigoríficos. É aí que a gente tem que ficar desconfiado. E foi só a carne cair que o jogo virou, o pessoal começou a chutar a canela dos pecuaristas. Hoje ligo no frigorífico e me oferecem até R$4,00/@ a menos em relação ao início da semana.
De toda forma, as escalas continuam curtas e temos outros indicadores que podem ajudar a manter a sustentação no início de dezembro. A começar pelo próprio recebimento dos salários, que costuma dar aquele empurrãozinho de no começo dos meses.
Em segundo lugar, o pessoal continuará recebendo o 13º salário. Alguns já receberam, outros receberão apenas na primeira semana de dezembro. Junte a isso as festas de fim de ano, que sempre estimulam o consumo de carnes nobres e temos um fator de suporte para a carne em breve.
As margens do varejo têm mantido um bom ritmo, isto é, após terem sofrido no ano passado, quando o boi gordo disparou até os R$115,00/@, aproximadamente. Mas recuperaram-se quando a arroba começou sua trajetória descendente e agora se mantêm. Observe o gráfico.
Gráfico 2. Evolução do ágio do varejo sobre a arroba (%) e do preço pago pela arroba (R$/@, SP).
Bom, de toda forma, esse resultado vale para outubro. Espero ainda os números de novembro para acompanharmos mais de perto como ficou essa relação após a escalada de preços da carne no atacado.
E por último, o spread do dianteiro bovino com o frango:
Gráfico 3. Evolução da diferença entre o dianteiro bovino e o frango no atacado.
A diferença entre as duas carnes está equilibrada. Isso porque o bovino subiu, mas o frango reagiu em proporção maior recentemente, o que é bom, pois mantém uma diferença entre as duas carnes que não compromete ainda mais a competitividade da proteína vermelha. Para quem não sabe, quando a carne bovina sobe e o frango não acompanha, boa parte dos consumidores deixa de consumir carne vermelha e a substitui pela proteína do frango, que é mais barata.
Isso nos diz que o frango não está atrapalhando, então ainda podemos ter esperanças para o início de dezembro e um possível empurrão que virá do consumo de fim de ano.
Um abraço a todos.
* Lygia Pimentel é médica veterinária e especialista em commodities
faxagricola@gmail.com Twitter: @lygia_pimentel
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