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Os desafios do Brasil para garantir a sustentabilidade no campo

Rodrigo C. A. Lima, gerente geral do ICONE e pesquisador da RedeAgro, em entrevista à repórter Cintia Rocha, do portal Boi a Pasto, explica o conceito de REDD e aponta o que o país traz de bons e maus exemplos para atender a esse conceito. Ele ainda destaca que o agro brasileiro é sustentável, seja o produtor familiar, médio ou grande. “É evidente que existem pontos para melhorar, como uso racional da água e de agrotóxicos, coibir desmatamento ilegal, recuperar áreas degradadas e intensificar a pecuária, aumentando o número de animais por hectare. No entanto, o plantio direto, a integração lavoura e pecuária, as florestas plantadas, o etanol, dentre outros exemplos, são casos de sucesso que evidenciam a sustentabilidade no campo”, afirma.

Boi a Pasto – O Brasil possui diversas ações que evidenciam que a redução do desmatamento é uma de suas prioridades, como Plano Amazônia, Plano e Política Nacional sobre Mudança do Clima, Políticas Estaduais de Clima, entre outros. O que o País traz de bons e maus exemplos para atender o conceito de REDD (redução de emissões por desmatamento e degradação)?

Rodrigo Lima – O REDD plus é uma forma de valorizar a floresta em pé e seus serviços ambientais, como carbono, biodiversidade, àgua. A adoção de planos de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, de compromissos de redução de emissões no âmbito da Política Nacional sobre Mudança do Clima, e a discussão sobre uma lei que regule a criação de projetos REDD plus são passos importantes para atacar drivers do desmatamento e permitir a implementação de projetos REDD no Brasil.

Além disso, o governo discute tecnicamente como fomentar a adoção de projetos REDD plus, o que deverá ganhar força no médio prazo.

Boi a Pasto – Dentre os projetos de REDD já existentes no País, quais são referências e, por quais motivos se destacam?

Rodrigo Lima – O caso da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma, coordenado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é um caso interessante, pois envolve não só evitar o desmatamento, mas cuida do monitoramento da área e busca dar melhores condições de vidas para as comunidades locais, reduzindo a pressão pelo desmatamento. Essa é a idéia de projetos REDD plus, que agregam não só carbono, mas biodiversidade e questões sociais.

Boi a Pasto – Na questão de meio ambiente, o agronegócio brasileiro tem vantagens competitivas em relação aos seus principais concorrentes no que diz respeito a disponibilidade de terra e água, por exemplo. Como tirar proveito dessas vantagens diante da maior oferta de demanda mundial, mantendo-se nessa posição de superioridade e, principalmente, mostrando ao mercado consumidor que estamos produzindo de forma eficiente e sustentável?

Rodrigo Lima –  As fazendas brasileiras precisam ter florestas associadas à produção, esse é o modelo do Código Florestal, que deverá ser mantido com a nova lei. Isso significa que as fazendas no Brasil possuem estoques de carbono, biodiversidade e protegem a água e o solo, o que é positivo para a produção e para a conservação. O ponto é conhecer esses recursos, valorizá-los, e utilizá-los como ativos ambientais que os produtores brasileiros possuem. Se considerar que, na maioria dos países, as florestas protegidas estão em parques e não nas fazendas, esse é um diferencial importante que precisa ser utilizado.

Com a regularização ambiental das propriedades que deverá ocorrer no âmbito do novo Código Florestal, esses benefícios tenderão a ser maiores, e é essencial que a agricultura saiba utilizar esses ativos.

Boi a Pasto – O Brasil tem sido convincente em demonstrar suas boas práticas de produção? Como analisa o marketing realizado interna e externamente nesse sentido?

Rodrigo Lima – O agro brasileiro é sustentável, seja o produtor familiar, médio ou grande. É evidente que existem pontos para melhorar, como uso racional da água e de agrotóxicos, coibir desmatamento ilegal, recuperar áreas degradadas e intensificar a pecuária, aumentando o número de animais por hectare. No entanto, o plantio direto, a integração lavoura e pecuária, as florestas plantadas, o etanol, dentre outros exemplos, são casos de sucesso que evidenciam a sustentabilidade no campo.

Apesar de ações concretas, é preciso reforçar o marketing e trabalhar a imagem do agro junto à sociedade, principalmente junto à população urbana. O projeto Rede de Conhecimento do Agro Brasileiro que o ICONE iniciou em 2011, busca trabalhar os temas ambientais, sociais e econômicos a fim de desfazer mitos e trabalhar para aprimorar o papel do agro em direção ao desenvolvimento sustentável.

Boi a Pasto –Para atender às novas exigências, no que o modelo produtivo brasileiro ainda precisa melhorar, visando, sobretudo, superar barreiras ambientais ou protecionistas?

Rodrigo Lima – Várias ações precisam ser tomadas, dentre elas: a) aprovar o novo Código Florestal e gerar uma maciça regularização das propriedades privadas; b) combater o desmatamento ilegal, o que exige a participação ativa do estado; c) incentivar a adoção de tecnologias no campo, a fim de aumentar a produtividade, trazer mais renda para o campo e otimizar a utilização de recursos; d) investir em ações de baixo carbono e buscar o pagamento por serviços ambientais; e) acabar com a dicotomia entre agricultura familiar e agronegócio, e dar suporte para a diversificação da produção visando eficiência produtiva e maior renda; f) criar políticas públicas consistentes e que permitam o desenvolvimento do agro brasileiro.

Boi a Pasto – Quais são suas expectativas para a COP 17? O que esperar, sobretudo, da pressão por acordos e das negociações em relação ao REDD plus?

Rodrigo Lima –A COP 17 deverá definir o futuro de como as mudanças do clima serão reguladas no plano multilateral. A chance de que os países desenvolvidos não adotem um segundo período de redução de emissões para depois de 2012 é enorme e, se isso acontecer, é muito possível que se adote um acordo amplo, sem metas concretas, onde cada país adotará suas ações de mitigação e adaptação.

Em relação à REDD plus, o que se espera na COP17 é definir as fontes de financiamento para incentivar a adoção de projetos e ações que visem reduzir desmatamento. Como financiamento está ligado à adoção de metas de redução de emissões pelos países desenvolvidos, e de ações de mitigação pelos países em desenvolvimento, é natural que a ambição em relação a financiamentos específicos para REDD plus fique condicionada a adoção de metas para depois de 2012. Vale ressaltar, no entanto, que independentemente dessa decisão, há recursos para financiar projetos de redução de desmatamento, como o Forest Investment Program (FIP).

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