Soluções Integradas para a Cadeia Produtiva do Leite e da Carne

Projeto Balde Cheio auxilia produtores e técnicos em todo o país

programa balde cheioPrograma da Embrapa Pecuária Sudeste já chega a 24 estados e a mais de 700 cidades.

                Paulo Palma Beraldo*

Era um dia comum para o engenheiro agrônomo Artur Chinelato de Camargo, da Embrapa Pecuária Sudeste. Na época, ano de 1998, dar palestras fazia parte da rotina de seu trabalho. Ainda faz. Mas aquela foi diferente. A palestra era para um grupo de produtores de leite na pequena cidade de Quatis, no interior do Rio de Janeiro.

Ao final da palestra, surge um questionamento que alteraria os rumos dos projetos da Embrapa. Um produtor se levanta e vai decidido conversar com o palestrante. “Você vai me ajudar a realizar isso que propôs aqui na palestra?”. Artur responde que não, já que tem de ir embora. “E alguém aqui nesse recinto pode me ensinar a aplicar essas técnicas?”. Novamente, a resposta foi negativa. Frustrado, o produtor questiona: “Então para quê você veio aqui? Para falar que a gente pode ganhar dinheiro com leite, mas sem mostrar o caminho? Então era melhor nem ter vindo”, reclamou o produtor. Aquela frase permaneceu na cabeça durante todo o caminho de volta até São Carlos, na sede da Embrapa Pecuária Sudeste.

A partir daí surgiu um projeto que viria a alterar os modos de produção de leite em mais de 3.800 propriedades em 24 estados do país, com mais de 500 unidades demonstrativas – propriedades familiares abertas à visitação escolhidas para ser a referência de uma região. O Balde Cheio é também uma forma de melhorar a produção e o padrão de vida dos produtores. Existem casos de agropecuaristas que elevaram sua renda líquida em mais de 10 vezes.

Funcionamento

O Projeto Balde Cheio é um programa de transferência de tecnologia, por meio da capacitação de técnicos locais, realizado pela Embrapa Pecuária Sudeste. O lema do Balde Cheio é “utilizar a pequena propriedade como sala de aula prática”, como explica um dos coordenadores do projeto, o engenheiro agrônomo André Novo.

O técnico extensionista (agrônomo, engenheiro agrônomo ou zootecnista) deve ser capacitado nos mais variados temas: qualidade de leite, fertilidade de solo, sanidade, manejo de pastagem, práticas de preservação ambiental, conforto animal, gerenciamento de rebanho, suplementação alimentar dos animais, entre outros. André garante que, para isso, vivenciar a realidade do campo é a melhor opção. “Ficar uma semana em uma sala de aula mostrando slide não é o mais adequado, a absorção e uso dessa informação é muito baixa”.

O Balde Cheio é uma escola interessante para o técnico, para os pesquisadores e para o produtor. “É um processo de aprendizado, de absorção das soluções locais, tanto para superar a falta de recursos para um investimento mais sofisticado como para observar resultados e situações que um laboratório ou uma sala de aula não poderiam fornecer”, conta Novo

É importante ressaltar que o Balde Cheio não é um projeto de difusão de tecnologia, com palestras ou Dias de Campo. É um projeto de transferência de tecnologia, respeitando os limites e as particularidades de cada localidade. “Cada propriedade tem de ser entendida como um universo único”, reforça Novo. Os resultados são menos rápidos, porém são estruturados e assimilados de forma duradoura.

Vale o combinado

Para participar, é preciso cumprir algumas exigências: permitir visitas à propriedade e fazer exames de brucelose e tuberculose nos animais. Caso haja animais doentes, eles devem sair da fazenda. No entanto, existe uma regra mais importante. Novo conta qual é: “cumprir o que foi combinado entre técnico e produtor desde o início”.

O produtor também deve tomar nota da temperatura e do índice de chuvas da região. Para isso, recebe um termômetro e um pluviômetro do técnico. Essa seria a “matrícula” no projeto. Também é preciso anotar os gastos da atividade – quanto ganhou e quanto gastou – e fazer um controle da produção de leite pelo menos uma vez por mês. Não há requisito para tamanho de propriedade: o projeto abarca desde estabelecimentos rurais com meio hectare ate outros com mais de 200.

Novo explica que não existe contrato, formalidade ou qualquer tipo de burocracia. “Nada é imposto. O contrato é de ‘fio de bigode”, brinca ele. O único compromisso é cumprir o que foi combinado nas primeiras visitas. A cada quatro meses, um membro da equipe da Embrapa Pecuária Sudeste (ou um instrutor já capacitado anteriormente pela mesma metodologia) visita as unidades demonstrativas, faz o treinamento do técnico e confere os resultados. Se não for colocado em prática o que foi acordado, a propriedade está excluída do Balde Cheio. Por outro lado, se o produtor não gostar do projeto, tem o direito de abandoná-lo quando quiser.

Antecedência

Os técnicos analisam a propriedade e sugerem o que pode ser melhorado. Caso o investimento necessário não seja viável para o produtor, ele é alterado. “Tem que caber no bolso do produtor, se não a gente não faz”, argumenta André Novo. Ele conta que várias propriedades familiares começam com investimentos de 1.000 reais ou menos, em um processo gradativo. O objetivo é aprender a manejar o pasto, aumentar a produtividade gradativamente, já que é um processo de longo prazo – quatro anos. Em São Paulo, por exemplo, as propriedades que seguem as recomendações do Balde Cheio elevaram em pelo menos três vezes a produtividade, em um estado onde a produção de leite recuou 8% entre 2003 e 2009. O projeto tem maior abrangência no estado de Minas Gerais, o maior produtor de leite do Brasil, com mais de um quarto da produção nacional.

Relevância social

Nessa região, a exploração familiar em pequenas propriedades, o clima favorável e a disponibilidade de assistência técnica e de tecnologia foram alguns dos incentivos para o incremento da produção, como explica Francisco Heiden, técnico da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). “Predomina a pequena propriedade que, por uma questão de escala, precisa investir em explorações de alta densidade econômica, como a produção leiteira. Ele destaca também a “pouca necessidade de insumos e recursos financeiros externos” para o sucesso regional.

Francisco explica que em Santa Catarina, nove das dez regiões administrativas priorizaram a atividade leiteira. Afirma ainda que no oeste catarinense, “pelo número de famílias envolvidas e pelo volume de produção, considera-se o leite a atividade de maior importância social e econômica”.

Com uma forma de enxergar a atividade leiteira semelhante à do Balde Cheio, Francisco destaca a importância do leite no estado: “a viabilidade econômica da cadeia produtiva do leite catarinense deve estar necessariamente acompanhada de prudência ambiental e da manutenção da sua importância social”.

*Paulo Palma Beraldo é jornalista – Unesp

Fonte: Portal Dia de Campo (www.diadecampo.com.br )

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