• Sanidade
  • A batalha dos parasitas

    14/08/2014
    Nas três fazendas do criador Carlos Viacava, dono da marca CV Nelore Mocho, no interior paulista, o rebanho de seis mil animais com produção destinada ao abate é levado ao curral duas vezes por ano para receber vermífugos que o protegem de parasitas, entre eles os carrapatos, os bernes e as moscas.

    “Aproveitamos os meses de campanha contra a febre aftosa para aplicar os antiparasitários”, diz Ricardo Viacava, filho de Carlos e que hoje administra as fazendas CV. Porém, essa tarefa semestral está com os dias contados na agenda da maior parte das fazendas do País. O Ministério da Agricultura (Mapa) tomou uma decisão no fim de maio, que vinha sendo sinalizada ao setor desde 2010: proibiu a fabricação e a venda de antiparasitários de longa ação, que contenham como princípio ativo as avermectinas, um grupo de fármacos presente nos principais vermífugos utilizados pelos pecuaristas, há cerca de duas décadas. 

    São considerados de longa duração os medicamentos que protegem o gado por um período acima de 40 dias. No caso dos de curta duração, com concentração menor de princípios ativos, a proteção é de até 28 dias.

    Por conta da proibição, estão em pé de guerra com o Mapa os pecuaristas, acostumados com a comodidade no manejo do gado, e a indústria de medicamentos veterinários, um setor que movimenta R$ 950 milhões por ano, dos quais R$ 500 milhões vêm dos vermífugos de longa ação. “Os vermífugos ajudam a diminuir os custos da fazenda, na comparação com aqueles que requerem um tempo menor entre as aplicações”, diz Viacava. “Agora, teremos que fazer aplicações intermediárias.” Segundo estudos da Embrapa, animais desprotegidos podem chegar ao frigorífico com perdas de peso de até 60 quilos por causa de carrapatos, 45 quilos no caso de vermes, 40 quilos por bernes e até 20 quilos pela ação de moscas.

    Baseado nos números da Embrapa, Bruno Andrade, gerente executivo da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), diz que o assunto deveria ser discutido por toda a cadeia, antes de se tomar alguma decisão. “Foi uma medida unilateral”, afirma. Sebastião Guedes, do Conselho Nacional de Pecuária de Corte (CNPC), órgão da Confederação Nacional da Agricultura, fez coro às reclamações. “Não houve uma discussão harmoniosa sobre o tema.” E foi além. Disse que o setor recebeu a notícia “em clima de revolta” e não poupou o atual ministro da Agricultura, Neri Geller. “Ele está mal assessorado.” Questionado por DINHEIRO RURAL sobre a insatisfação no setor, o ministro não quis se pronunciar. Limitou-se a informar apenas, via assessoria, que há um “grupo de trabalho para discutir o protocolo que deverá ser seguido para o uso dos produtos veterinários” daqui para frente. O grupo foi criado em junho, com o compromisso de apresentar suas ponderações o mais rapidamente possível.

    Nova ordem

    Independentemente da resposta do Mapa, o certo é que há uma nova ordem no mercado e ela não deve sair do radar da pecuária nos próximos anos. A possibilidade de abrir um mercado consistente para a carne in natura brasileira nos Estados Unidos, que importa um milhão de toneladas por ano, e também abrir o mercado de outros países que seguem as normas americanas, como o Japão, a Indonésia e a Coreia do Sul, por exemplo, vai nortear muitas questões da pecuária nacional. Entre elas estão os resíduos de medicamentos que podem comprometer a qualidade do produto. Foi essa a justificativa dada pelo Mapa ao publicar a medida restritiva aos vermífugos de longa duração, alegando o risco de perder o já conquistado mercado norte-americano de carne industrializada. 

    Manejo encarecido: Ricardo e Carlos Viacava utilizam vermífugo de longa duração no rebanho. Com as novas normas, o custo da fazenda vai aumentar. Foto: Felipe Gabriel

    O Brasil vende para os Estados Unidos carne cozida enlatada, o chamado corned beef, desde 1996. Mas, em 2010, os embarques foram interrompidos por sete meses porque os americanos encontraram resíduos de medicamentos acima do que consideram aceitáveis. Embora as exportações tenham sido reabertas, o Brasil acabou perdendo uma fatia desse mercado para Austrália e Nova Zelândia. Segundo a Associação das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), nos últimos quatro anos, a redução nas vendas representou um corte de US$ 250 milhões em receitas para o País. No ano passado, quando o Brasil exportou 101 mil toneladas de corned beef por U$S 612 milhões, a queda foi de 8% ante 2012.

    A questão de resíduos de medicamentos na carne bovina sempre foi um tema complexo para o setor. O limite máximo de resíduos de ivermectina, um dos componentes do grupo de fármacos das avermec tinas, fixado pelos Estados Unidos em 10 partes por bilhão (10 ppb) como aceitável nos produtos cárneos, é mais restritivo que os padrões internacionais estipulados pelo Codex Alimentarius, órgão da Organização das Nações Unidas que define normas comuns aos alimentos no mundo inteiro. 

    Na União Europeia, por exemplo, o limite é três vezes superior ao exigido pelos americanos, mas ainda assim está de acordo com o Codex. No Brasil, representantes de entidades de pecuaristas, entre elas a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), reconhecem a importância do mercado americano. “Mas devemos nos curvar às exigências de um país que responde por menos de 5% das exportações brasileiras?”, pergunta Francisco Manzi, diretor da Acrimat.

    Por conta de impasses dessa natureza, grandes exportadores de carne, como os grupos JBS, Marfrig e Minerva, estão atentos às discussões. Para a Abiec, que representa o setor, a indústria frigorífica já fez a sua parte para tentar solucionar o problema dos resíduos de medicamentos na carne bovina, ao adotar uma série de medidas. Fernando Sampaio, diretor-executivo da entidade, cita o Programa de Suporte ao Pecuarista, que visa orientar o produtor no uso do medicamento. Cita, também, a criação de uma lista de classificação de risco nas propriedades e até mesmo a proposta de condicionar o abate à apresentação de uma carta de garantia do fornecedor de gado ao frigorífico, atestando que foram cumpridos os prazos de carência dos medicamentos. “Tudo o que tentamos não deu resultado até agora”, diz. 

    Segundo Sampaio, o problema dos resíduos de medicamentos na carne bovina sempre caiu no colo da indústria frigorífica, que tem arcado com todos os prejuízos. Somente com os laboratórios para detectar resíduos, a indústria já gastou R$ 28 milhões, entre 2010 e 2013, para um total de 560 mil análises realizadas na carne enviada aos consumidores.

    O fato é que no campo ainda predomina a falta de orientação aos pecuaristas menos informados e que utilizam pouca tecnologia ou mesmo a má fé. Disponível em todo o mundo, as avermectinas são amplamente utilizadas nos rebanhos bovinos, porém com insuficiente controle de uso no Brasil. Normalmente, o balconista da loja agropecuária é quem indica os medicamentos veterinários ao produtor ou peão da fazenda, muitas vezes sem nenhum critério técnico. Casos de superdosagem também são frequentes, visto que são poucos os pecuaristas que pesam os animais na fazenda para se certificar de que estão aplicando a dose correta. 

    Somam-se a isso as inúmeras opções de medicamentos aprovados pela Anvisa, que o produtor tem à sua disposição. Esse fato muito se deve à quebra da patente da molécula de ivermectina, em meados dos anos 1990, medida que possibilitou a inundação do mercado de produtos a preços mais baixos. Até então, essa patente pertencia à americana Merial Saúde Animal. Atualmente, existem 118 marcas registradas dessa molécula no País. “O uso é, de fato, indiscriminado”, diz Sampaio, da Abiec. “Precisamos arrumar a casa.”

    Fonte: Dinheiro Rural / Acrimat

     

     

     


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