• Conjuntura
  • A pecuária é um bom negócio?

    30/10/2018
    Números da safra 2017/2018 revelam o segredo das fazendas 16 x mais lucrativas

    Antônio Chaker Neto*

    Reunir 40 técnicos do setor e olhar para os números da safra que acabou de fechar, nos mostra a realidade nua e crua da pecuária. Neste outubro não foi diferente. Tivemos sustos e realizações ao nos depararmos com os números da safra 2017/2018, com 420 fazendas, avaliadas pelo Instituto Inttegra de Métricas Agropecuárias, que reúnem 1,7 milhão de animais.

    Por um lado, constatamos, infelizmente, um ano de rentabilidade insignificante para a média das fazendas, pois fecharam em R$28,00 ha/ano com uma taxa interna de retorno de 0,11% ao mês. O valor nos preocupou muito.

    O que nos acalmou, foi que, no mesmo período, há fazendas que ganharam muito dinheiro, exatos, R$719,00 ha/ano (top 10%). Se ampliarmos a lente e olharmos para o grupo das 30% melhores, ou seja, quase um terço das analisadas, encontramos um resultado de R$461,00/ha/ano, ou seja, 16 vezes maior.

    Por mais um ano, os resultados comprovam que a pecuária é um excelente negócio para muitos, desde que seja bem feito, com ênfase no controle de processos, finanças e pessoas. A habilidade depende do líder e de suas escolhas.

    O primeiro segredo dos que se destacaram nessa safra foi a “paixão pelo lucro”. Digo isso, sem nenhum pudor, pois focar no lucro não significa um “capitalismo selvagem”, que diminui as pessoas ou o cuidado com os animais. Muito pelo contrário.

    Quem tem “paixão pelo lucro” percebe que esses fatores fazem parte da construção do sucesso financeiro. Haverá mais cobrança, controle, meta, treinamento o que é bom, pois transforma as pessoas. Além disso, o respeito ao animal e ao meio ambiente é cada vez mais latente por uma demanda do consumidor e precisa estar presente.

    Buscar o lucro não significa rir sozinho, mas dividir isso com a equipe. Prova é que nesse ano, em um dos projetos que acompanhamos, o gerente tirará uma bolada que vai lhe garantir um carro de luxo novo, porém, foram dois anos pedalando, de forma disciplinada, rumo a meta. Todos ganharam.

    Paixão pelo lucro significa sobrepor o interesse do projeto ao apego das informações qualitativas, ou seja, referentes a alguns animais ou categorias. O olhar passa a ser amplo para o todo.

    Outra lição extremamente importante que os dados da safra acabam de nos mostrar é a necessidade do equilíbrio. Quem ganhou mais dinheiro é bom em tudo, está acima da média, porém, seus índices não retratam a ponta do iceberg.

    Para exemplificar, vamos nos valer dos dados de Ganho Médio Diário Global (GMD global), ou seja, uma das medidas-chave de produtividade, pois nos mostra quanto o animal ganhou de carne, em quilos, por dia.

    As fazendas 30% mais rentáveis no Benchmarking Inttegra registraram GMD de 481 g /dia. A média ficou em 403 g /dia e os líderes no indicador conseguiram imprimir 601 g/dia. A mesma dinâmica foi registrada se avaliar o GMD por atividade de cria, ciclo completo e recria/engorda (figura 2).

    O mesmo se repete em outros índices relevantes como lotação, desembolso por cabeça ao mês, valor médio de venda entre outros. Quem ganhou mais dinheiro não foi quem teve a maior nota, mas quem conseguiu equilibrar todas. Uma das justificativas que discutimos internamente é que quando se busca a máxima produtividade em um indicador, se gasta mal. Investe-se além da conta. Além de impactar no detrimento de outro índice também importante que acaba puxando a rentabilidade para baixo.

    Outros segredos

    Gastar bem também foi mais um dos segredos das fazendas top rentáveis. Elas desembolsaram muito bem seu dinheiro, pois investiram 54% em nutrição e pastagem, contra 47% da média as fazendas. Quando se coloca mais recursos em nutrição há uma correlação positiva com produtividade. É um item que se transforma em carne, diferente das despesas administrativas ou de manutenção que apenas abocanham o lucro do pecuarista.

    Quando se fala em gasto, a equação ideal é investir 60% em despesas variáveis, nos quais se inclui a nutrição e, 40% em despesas fixas. Se pegarmos os dados da safra, as fazendas top rentáveis gastaram apenas R$18,70 cabeça/mês em custo fixo contra R$23,80 cabeça/mês da média. Como trabalhamos com commodities, precisamos produzir barato, o que não significa gastar muito pouco por cabeça, e sim aproveitar muito bem o dinheiro. O segredo está em ganhar 10 gramas de peso vivo para cada 1 real gasto por cabeça por mês.

    A máxima do equilíbrio também reflete em nosso índice mais poderoso: arrobas por hectare ao ano (@/ha/ano). Os pecuaristas 30% mais rentáveis produziram 14 @/ha/ano, acima da média (10 @/ha/ano), porém, abaixo dos que se destacam no indicador, pois as fazendas top conseguiram chegar a 20,8 @/ano/ano.

    Esse é um dos índices que monitoramos mais de perto, pois é um dos que reflete a última linha da pecuária. Ele mostra quanto geramos de carne no ano, assim como, quanto o agricultor produziu de soja ou de milho em suas terras. Focar em @/ha/ ano é a opção mais inteligente para alavancar a produtividade nacional, sem abertura de área.

    Mais do que o índice, defendo pessoalmente que precisamos buscar 25@/ha/ano, pois essa marca é a superação da taxa Selic, taxa básica de juros da economia brasileira. Mire nessa meta no longo prazo! Já há quem consiga.

    Outra lição que podemos tirar das fazendas mais rentáveis é que buscam manter uma equipe eficiente. Um dos índices que nos chamou a atenção foi o número de cabeças por funcionário de campo, no qual, as fazendas mais rentáveis alcançam a marca de 721 cabeças/funcionário de campo, acima da média das fazendas em 683 cabeças/funcionário de campo.

    Porém, mais importante ainda foi o faturamento por funcionário, o que refletiu no uso eficiente da mão de obra. O indicador é resultante da divisão de todo o faturamento pelo número de funcionários. As top rentáveis registraram R$330.027/ funcionário contra R$249.862/funcionário, da média.

    Ainda na relação entre equipe e faturamento, descobrimos um número muito interessante que é a relação entre o faturamento e a folha de pagamento (o que inclui salários e benefícios).

    Essa relação deve ser entre 10 vezes superior, ou seja, devo faturar10 vezes mais do que a folha. Além disso, outra constatação importante foi a que a fazenda deve manter uma margem sobre a venda superior a 30%. Para esse cálculo, devo calcular a diferença entre o desembolso por @ e o valor de venda e dividir pelo valor de venda.

    Os números apresentados são representativos, pois baseiam-se em um recorde de fazendas participantes deste levantamento.

    Foram 420 propriedades, dentre as mais de 500 nas quais recebemos informações. Juntas reúnem 1,7 milhão de animais em 1,4 milhões de hectares. No total, envolveram o trabalho de 4.366 colaboradores para anotação e coleta de dados e análise de 40 consultores de franqueados Inttegra.

    É uma amostra diferenciada, porém, muito representativa da realidade da pecuária brasileira. A publicação e divulgação dos dados é importante para que saibamos onde estamos, como também, os potenciais produtivos que podemos ter. Entender toda a descrição desses processos é essencial para padronizarmos as práticas e avançarmos na pecuária que, mais do que nunca, exige extrema habilidade em gestão.

    Nota: Solicite todos os dados detalhados do Benchmarking Inttegra no mailto:contato@inttegra.com. Os processos que levam ao lucro serão publicados em um livro no final deste ano.

    * Antônio Chaker Neto é Zootecnista e Msc. em Produção Animal pela UEM. Consultor Sênior em projetos de gestão pecuária e Coordenador do Inttegra.

    Fonte: Carta Gestor - outubro de 2018 - Volume 10 • Número 114 / Scot Consultoria - www.scotconsultoria.com.br



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