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  • MULHERES DO AGRO - ISABEL PENTEADO: UMA HISTÓRIA SECULAR DE TRADIÇÃO, RESILIENCIA E AMOR AO CARACU

    08/03/2018
    A paulistana Isabel Penteado nunca quis passar despercebida no poderoso meio da pecuária, desde que herdou do pai a centenária Fazenda Aurora, com pouco mais de 40 anos de idade e jurando para si mesma que, se fosse para colocar o seu nome no jogo, era para sair vencedora. Sempre.

    Isabel Penteado é daquelas guerreiras que pega o touro pelos chifres e transforma-o em...sofá. Na foto, ela sentada no dorso de Galante, um dos touros mais premiados do seu plantel

    Texto de Marisa Rodrigues

    Com esse propósito, durante quase quatro décadas manteve-se firme, na liderança da criação e seleção de Caracu, primeira raça de gado a chegar ao Brasil, não por acaso, pelas mãos de uma outra mulher, Ana Pimentel, esposa do governador de capitanias hereditárias, Martim Afonso de Sá, no ano de 1534.

    Não foi por outra razão que nós, da redação do portal BOI A PASTO, resolvemos homenagear as mulheres pecuaristas brasileiras, contando a história de uma pioneira, corajosa, resiliente e persistente mulher, que nunca sentiu medo, diante dos desafios que o destino lhe impôs, nem desejou fugir dele. Ao contrário.

    Como ela mesmo conta, numa agradável e ensolarada tarde de domingo, quando abriu as portas da Fazenda Aurora, em Sta. Cruz das Palmeiras, para receber a nossa equipe, “o setor do agronegócio, em especial o da pecuária era e ainda é muito machista, portanto, ao optar por seguir os passos do meu pai, herdando e dando continuidade aos seus negócios, eu sabia muito bem o que me esperava”.  Entretanto, e talvez exatamente por isso, por ser daquelas mulheres que pega o touro pelos chifres e o transforma em sofá (ela costumava fazer isso, literalmente, com Galante, um dos touros mais premiados do seu plantel), ela decidiu que não só iria honrar o legado de sua família, como iria fazer o seu próprio nome ser lembrado e destacado como uma das criadoras de Caracu mais respeitadas e admiradas do País. “Não consigo fazer nada mais ou menos”, diz, destacando que “se era para fazer, tinha que fazer bem feito e ser a melhor”.

    A Fazenda Aurora, durante quase quatro décadas manteve-se firme, na liderança da criação e seleção de Caracu.

    Com esse espírito aguerrido, ela dominou o palco da criação e seleção de Caracu por mais de 30 anos e, ainda hoje, conserva o seu plantel de gado PO, cujo mercado é bastante específico: criadores interessados em produzir um rebanho que tenha todas as qualidades do Caracu e que não são poucas, aliadas as do Nelore, e assim, desenvolver raças como Montana e fêmeas do Senepol, cuja origem seja esse valoroso gado taurino, oriundo de terras como Portugal, Espanha e Galícia, de onde trás a carne macia, com bastante marmoreio,  a docilidade das fêmeas, a dupla aptidão para carne ou leite, a facilidade de adaptação para climas tropicais, entre outras características que o colocam entre as raças de ponta, muito procuradas por quem quer fazer cruzamento industrial e não quer apostar no escuro. “O Caracu é mais que centenário no Brasil e apresenta uma linhagem limpa, pura de origem, mesmo”, reforça Isabel.

    Mas as coisas não foram simples nem fáceis, para Isabel Penteado, quando ela chegou a esse mercado. “O agronegócio, de um modo geral, olhava com muita desconfiança para uma mulher que até os 40 e poucos anos só tinha cuidado de casa, filhos e marido”, recorda-se, salientando que chegou a fazer os tais cursos apelidados à época de “espera maridos”, como aprender a bordar, cozinhar, cuidar de crianças, entre outros do gênero, até 1966, quando se casou com apenas 22 anos e foi morar na Fazenda Aurora.

    Tranquila, ela encarou de frente esse período da vida, teve três filhos e sofreu muito quando o primogênito teve uma infecção gravíssima adquirida ainda no berçário, vindo a falecer de coma hepática, com apenas dois anos, de tanto tomar antibiótico, desde que nasceu. Traumatizada, no nascimento de sua segunda filha, Carolina Penteado Bastos, temendo que o mesmo ocorresse, não deixou que levassem o bebê de perto dela, na maternidade por nenhum segundo.  Já com o parto da terceira filha Beatriz Penteado Bastos Thayer, não pode ter esse cuidado extremado, porquê ambas, mãe e filha, quase morreram, em virtude de complicações durante o parto. Isabel ficou a maior parte do tempo desacordada e os enfermeiros cuidaram da recém-nascida, sem a mamãe-onça por perto. Enquanto as filhas eram pequenas, Isabel ia para a Fazenda Aurora apenas nos finais de semana, e o pai era daqueles que achavam que mulher não tem que entender de negócios. Depois de um tempo, tendo ficado doente, Alfredo Penteado Filho passou-lhe uma procuração para que ela fosse tomando pé da situação, e, finalmente, três anos antes de sua morte, Isabel assumiu definitivamente a propriedade.

    A fazenda Aurora, fundada em 1869.

    Ao assumir a secular Fazenda Aurora, fundada por seu bisavô João Carlos Leite Penteado, em 1869,  Isabel não se deixou intimidar pelo desconhecido, e passou a buscar os mais diferentes cursos de pecuária e agricultura, uma vez que a propriedade também produzia café e laranja. Matriculou-se em cursos de pastagem, manejo, inseminação, até que chegou à Universidade da Terceira Idade, já com 60 e poucos anos, frequentando o curso de Zootecnia, oferecido pela USP – Universidade de São Paulo.  “Num mundo machista, eu precisava me impôr e falar de igual para igual”, ressalva Isabel, “ mas, para isso, precisava estar tão ou mais preparada do que os pecuaristas e criadores da época”.

    Mergulhando nos cursos e no trabalho, para botar em prática o que aprendia, Isabel não mediu esforços para dedicar-se à seleção da raça Caracú, que, segundo ela, “ainda sofre muito preconceito, porquê o brasileiro, vítima do complexo de vira-latas,  não valoriza nada do que é seu, não enxerga e nem admite que a verdadeira “raça brasileira” de gado é a Caracu, pois é um gado que se desenvolveu em nossas terras, muito antes da chegada da família real por essas bandas”.

    De fato, ela tem toda a razão. Oriundo de raças como Minhota, Rúbia Galega, Alentejano, entre outras, o Caracu veio da Península Ibérica e foi muito importante para o desenvolvimento das atividades extrativistas do País pois, como é um animal muito forte – os touros chegam a pesar cerca de mil kgs, era utilizado como um trator, desbravando e derrubando florestas, limpando áreas  para que os portugueses que aqui estavam, junto com índios e africanos  -- ainda na condição de escravos --, pudessem transformá-las em lavouras de cana, a primeira produção agrícola do Brasil, incentivada por Portugal, para a respectiva fabricação de açúcar, além de outras culturas de subsistência, como arroz, feijão, milho, batata ou trigo. “Sem esse animal, que muitos consideram pequeno ou até raquítico – numa visão deturpada da raça – não teríamos nem começado a abrir picadas no Brasil”, ironiza Isabel.

    Com o passar do tempo, décadas e depois séculos, o Gado Caracú, de origem taurina, espalhou-se por várias regiões do Brasil, e mostrou-se um grande valente, sobrevivendo às mais diferentes condições geoclimáticas, como o frio intenso do Rio Grande do Sul, ou as altas temperaturas e o solo árido, do Nordeste, o clima temperado e úmido do centro-oeste, ou o tropical e encharcado do Norte. Houve uma seleção natural entre eles, e obviamente, só os mais fortes sobreviveram, adquirindo uma qualidade racial que os define por suas características de resistência ao calor, ao frio, aos parasitas, entre outras que os insere definitivamente, nas mais procuradas pelos pecuaristas que querem investir em produção de carne e/ou leite, pois o Caracú possui dupla aptidão, podendo ser usado para ambas as produções e se saindo muito bem, nas duas funções.

    Capacitação e solidariedade

    Após buscar os cursos necessários para sua própria capacitação, Isabel Penteado foi a pessoa – não por acaso, uma mulher – a preparar e ministrar cursos de pecuária dentro da Associação de  Mulheres de Negócios e Profissionais de São Paulo, em meados de 80, até 87, voltados para o ensino de outras mulheres que, como ela, estavam ávidas por aprender, mais e mais, sobre o negócio de criar boi, produzir carne e leite.  “Os cursos eram específicos para administração rural conta Isabel. Tínhamos contabilidade rural, formação de pastagens e melhoramento genético, que eram muito disputados, pois as mulheres tinham consciência que informação de qualidade era tudo o que as fariam diferenciar-se e crescer na profissão”, diz Isabel, para logo emendar que não é à toa que hoje cerca de 30% da mão-de-obra do agro é feminina. “Fazíamos dia-de-campo e também participamos de várias feiras, como aquela de Esteio, no Rio Grande do Sul”, recorda-se.

    Na opinião de Isabel, o número de mulheres que se dedica ao agro, hoje, só não é maior, porquê as mulheres sempre foram podadas no meio, tido e havido como ambiente próprio só para os homens.  “Até trinta anos atrás, ainda se podia dar alguma razão para quem pensasse desse modo”, observa, pois, de fato, tanto a agricultura como a pecuária requerem, muitas vezes, trabalho braçal, quase sempre pesado e rústico. Mas, com o advento da tecnologia, que trouxe os aplicativos de administração e finanças, entre muitos outros, não há mais justificativa que impeça as mulheres de se dedicarem cada vez mais à agropecuária”. “Se os homens podem coordenar tudo de seus notebooks e celulares, a quilômetros de distância dos seus negócios, porquê as mulheres não podem fazer o mesmo?”, indaga, para em seguida, ela mesmo responder: “Tanto podemos, que fazemos”, sorri, meio marota.

    Globe-trotter e longe dos mimimis

    Atualmente, Isabel Penteado se define no perfil de seu Facebook como uma globe-trotter, e, realmente, o que ela mais tem feito nos últimos anos, e com muito prazer, é viajar pelos quatro cantos do mundo. Mantém um apartamento na Flórida, EUA, e de tempos em tempos, costuma dar uma fugida para lá, quando quer descansar dos “mimimis” da fazenda e de outros negócios que ela ainda tem por aqui. Mas nem sempre foi assim. Muito pelo contrário. Isabel conta que não foram poucas as vezes em que passou acordada, aguardando o horário exato para a inseminação das vacas, mesmo que isso significasse levantar-se da cama, duas ou três horas da madrugada.

    Mesmo contando com profissionais veterinários para fazer esse trabalho, ela queria estar próxima no momento das inseminações, como se fosse um anjo protetor de suas vacas, pois nada poderia dar errado. “Não conseguia dormir direito, até ter certeza que a maioria das vacas tinham emprenhado”, ressalta Isabel, assinalando que sempre colheu uma alta taxa de fertilidade de seu rebanho, pois as fêmeas do Caracu não apenas são mães muito dóceis, como emprenham com facilidade e geram bezerros – machos ou fêmeas – sempre muito saudáveis. “Sempre amei fazer este trabalho”, exclama Isabel, “e o fiz com muito carinho e amor pelos animais, como se eles fossem seres da minha família, que de fato, eram e ainda o são,  visto que a história da minha família e até a minha própria, e a história da raça se cruzam, desde 1916. “É impossível falar sobre o Caracu no Brasil, sem citar os nomes do meu bisavô, João Carlos Leite Penteado, que deu inicio à criação desse gado, do meu avô, que Alfredo Penteado, que foi um grande melhorador do Caracu, e do meu pai, Alfredo Penteado Filho, que manteve o trabalho dos dois, e repassou este legado para mim”, frisa Isabel, certa de quem desempenhou um papel de relevância dentro da pecuária brasileira e que deixou sua marca para sempre na história dessa raça, no Brasil.

    Da Redação do Portal Boi a Pasto



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