• Nutrição
  • Fake news nutricionais

    07/11/2018
    Algumas notícias falsas envolvendo a nutrição de bovinos podem atrapalhar seus ganhos... Não se iluda e confira como fugir deste risco!

    Sérgio Raposo*

    O mundo digitalizado, na velocidade da luz, é uma conquista formidável da humanidade, com um impacto positivo enorme para a vida das pessoas. Todavia, como há sempre dois lados, alguns desafios têm surgido junto com os benefícios. Um realmente complicado é a quantidade de informações com as quais somos bombardeados, o que tem gerado alguma confusão por falta de tempo para o seu devido processamento. Precisamos aprender a ser mais seletivos para que boas informações sejam privilegiadas e, com tempo, possam ser bem compreendidas. Isso tem sido cada vez mais difícil.

    Pior ainda é que, também na velocidade da luz, pipocam as “fake news”. Ainda que algumas possam ser consideradas “perfumaria” e sejam aparentemente inofensivas, é muito difícil imaginar algo que atenta contra a verdade e não tenha consequência negativa nenhuma. Portanto, uma política de tolerância zero contra a mentira, não só é um imperativo moral, mas o único caminho para haver um futuro que valha a pena ser vivido.

    A nutrição animal, como não podia deixar de ser, tem suas “fake news” também. No texto deste mês, faremos breves comentários sobre algumas delas que são recorrentes e trazem prejuízo para as pessoas que acabam sendo iludidas com elas.

    (1) É melhor usar o sal para gado na nossa comida do que o sal branco do supermercado.

    É possível que muita gente estranhe ter esse “fake” na lista e, ainda por cima, em primeiro lugar. O motivo é porque ela é um exemplo de fake que deriva de outros fakes. Foi divulgado na rede (internet, whatsapp, etc.) que seria uma boa trocar o sal comum que usamos no dia-a-dia em casa pelo sal do gado. Comecei a receber e-mails de muita gente perguntando se isso seria bom. Caso alguém tenha alguma dúvida, segue a resposta de um nutricionista animal sobre essa questão de nutrição humana: O sal para gado deve ser usado apenas pelos animais. Tanto o sal comum (um dos ingredientes do sal mineralizado vendido pelas empresas), como o próprio sal mineralizado.

    O gado precisa do sal mineralizado, pois consome apenas forragens que, frequentemente, têm teores de vários minerais abaixo das exigências para atingirem o potencial produtivo deles.

    Nós, humanos, se tivermos uma dieta diversificada (cereais, legumes, frutas, verduras e carnes de várias espécies animais), como deve ser, temos grandes chances de não precisar de qualquer suplementação, seja mineral, seja vitamínica.

    As principais diferenças entre o sal para humanos e para gado são:

    • O sal que compramos no mercado é basicamente só o cloreto de sódio (fornecendo Cloro e Sódio), enquanto o sal mineralizado que fornecemos aos bovinos é uma mistura de mais de uma dezena de sais e óxidos para fornecer vários elementos minerais: cálcio, fósforo, enxofre, magnésio, manganês, cobre, zinco, iodo, cobalto e selênio. É exatamente por ter esses minerais a mais que surgiu esse mito que seria melhor consumi-lo;

    • Os processos para fabricar ingredientes e suplementos para animais têm exigência muito diferentes quanto à manipulação e higiene. Obviamente, são bem mais restritivas no caso do sal para consumo humano, o que já seria razão suficiente para usar apenas o feito para nosso consumo;

    • No caso do sal branco para gado, há ainda mais um problema: Apenas o sal branco destinado para consumo humano é enriquecido com Iodo. Isso é feito obrigatoriamente por força de lei, visando reduzir a incidência de bócio ou papeira, distúrbio decorrente da falta de Iodo na dieta que ocorre, particularmente, na população não litorânea. Os habitantes do litoral, em geral, não têm deficiência por conta do maior consumo de frutos do mar, mais ricos em Iodo. Assim, usar sal comum comprado na agropecuária, traz dois prejuízos: (a) consome-se um produto feito com padrões de higiene inferiores aos do produto destinado ao consumo humano e (b) corre-se um alto risco de ficar deficiente em Iodo.

    Ao deixar de usar o sal mineralizado do gado e voltar ao sal para humanos, uma outra grande vantagem é que o sabor da comida vai melhorar muito!

    (2) Proteinado é tudo igual e uso o mesmo nas águas e na seca.

    Apesar dos ingredientes serem basicamente os mesmos, há grandes diferenças na formulação dos suplementos indicados para cada estação. As proporções dos ingredientes variam muito. Não teria como ser de outra forma, uma vez que a pastagem que eles complementam nutricionalmente é totalmente diferente uma da outra.

    Um ingrediente que muda completamente nas formulações entre essas duas estações é a ureia: Na seca, ela aparece em grandes quantidades, sendo a maior fonte de proteína da quase totalidade das formulações. Nas águas, ela nem aparece ou ocorre em quantidades muito pequenas.

    Aliás, um risco de continuar usando o proteinado das secas após a volta das chuvas, é exatamente essa combinação resultar em poças d´água no cocho em que a ureia solubiliza. Esse refrescante “suco de ureia” pode ser consumido rapidamente por algum animal e colocá-lo em risco de ultrapassar o limite crítico de consumo de ureia (> 40-50 g/100 kg PV). Uma vez gravemente intoxicado, dificilmente é possível salvar o animal, que morre não muito depois dos primeiros sinais de intoxicação.

    Assim, não bastasse ficar com suplementos inadequados à época, com prejuízo ao desempenho, deve-se considerar essa questão de aumento de risco de perda de animais.

    (3) Usar ureia para animais em reprodução é prejuízo na certa.

    Ureia não atrapalha reprodução quando o fornecimento é feito dentro das recomendações nutricionais, isto é, suplementos bem formulados, consumidos dentro do esperado, com adaptação à ureia realizada e com o cocho com medidas para evitar a formação de poça, como drenos e assentado com algum declive em direção aos drenos.

    Há, inclusive, trabalho mostrando animais experimentalmente intoxicados com ureia, que receberam valores elevadíssimos desse ingrediente, ficando à beira da morte, mas que, depois de recuperados, tiveram desempenho reprodutivo normal.

    O que causa risco ao desempenho da reprodução é o excesso de proteína, especialmente de proteína degradável. O desbalanço quando se tem pouca energia e muita proteína degradável, agrava a situação. Desde que evitado esse desbalanço e não passando dos limites de uso, a ureia pode ser uma grande aliada de altos desempenhos reprodutivos com o benefício de ser a fonte mais barata de proteína que existe.

    (4) Para ter índices de fertilidade elevados, só suplementando com ração.

    Os índices reprodutivos de fazendas têm uma estreita correlação com o estado corporal das vacas. Fazendas que parem vacas em boa condição corporal têm bons índices. Uma vez que elas estejam bem na parição, basta manter condição corporal até o próximo parto.

    Boa disponibilidade de forragem e sal mineral são suficientes para ganho de peso na época das águas. A medida que avança a seca, é preciso alternativas para evitar a perda de peso que ocorre neste período.

    Usar o sal com ureia costuma ser suficiente para manter o peso em pastos com boa massa de forragem, em geral vedados na época das águas para acumular forragem para a seca. Assim, o sal com ureia é uma boa opção para quem tem vacas em boa condição corporal na entrada da seca e pastos vedados, pois ele só precisa manter o peso dos animais.

    Em todo caso, é perfeitamente possível ter elevados índices de fertilidade (80%, por exemplo), apenas com uso de pasto e sal mineral nas águas e sal com ureia na seca, bastando, apenas um bom manejo de pastagem.

    (5) Ureia pecuária e agrícola são a mesma coisa.

    Há pessoas que juram de pé junto que a ureia pecuária e agrícola são exatamente a mesma coisa, inclusive com relatos que elas sairiam da mesma “bica” na fábrica. Isso, todavia, não procede, pois são feitas de forma diferente e com características próprias. Abaixo, algumas das diferenças conforme informado pelo fabricante:

    • A ureia pecuária não possui os aditivos que as tornam fisicamente adequadas para fins de uso como ureia fertilizante que são o Formol e o Polivinilacetato (PVA).

    • Não existe na especificação da ureia pecuária, o controle do teor de biureto, o que as torna inadequadas principalmente à adubação foliar.

    • Na ureia fertilizante a granulometria é de grande importância, enquanto que, no caso da ureia pecuária, o grau de pureza é a maior preocupação.

    Por fim, a diferença entre elas está baseada em legislação do Ministério da Agricultura. Uma das exigências legais é que elas devem ser mantidas em armazéns diferentes, para preservar a pureza da ureia pecuária. A outra, mais importante na prática, é a proibição de uso da ureia agrícola para alimentação animal.

    Além de um processo de produção mais exigente, a ureia pecuária tem maior incidência de impostos, portanto sendo bem mais cara. Assim, por não haver diferença de desempenho dos animais consumindo uma ou outra, há grande tentação em se usar a agrícola no lugar da pecuária.

    O problema é que o uso de ingredientes proibidos é considerado um grave crime e, quando chega as manchetes do jornal ou quando são explorados pelos nossos concorrentes que vem nos visitar em busca de falhas, essa ocorrência causa grandes prejuízos para a imagem do setor.

    Como qualquer outra “bandeira de alerta” que recaia sobre a cadeia da carne em que reforce que o produtor fere a lei para aumentar seu lucro, o resultado é perda de confiança no produto, sendo mais um estímulo para termos um novo vegetariano na população.

    Assim, o produtor deve abrir mão desse ganho de curto prazo para evitar problemas legais e, principalmente, para evitar notícia negativa sobre seu negócio. Isso já deve ser suficiente para escapar dessa tentação, mas ele deve considerar também que, apesar da diferença ser grande entre os preços das ureias, como são usadas em pequenas quantidades em relação aos demais insumos, o que parece uma grande economia quando se faz a compra, acaba tendo um impacto bem pequeno quando se olha a planilha de custo como um todo.

    (6) Incluir gordura na dieta ajuda a acabar o animal.

    Gordura não ajuda a apressar a terminação. A relação que existe, na verdade, é com a taxa de ganho de peso. Quanto maior o ganho, mais gordura o animal deposita e mais rápida é a terminação.

    É por isso que animais em pastagem precisam ser mais pesados para terminar e, um lote semelhante em confinamento, fica pronto para abate bem mais leves.

    Assim, a dieta com gordura só ajudará na terminação se promover um ganho de peso superior do que a dieta alternativa sem ela, que teria o mesmo teor de energia, mas isso não é de se esperar. O oposto, todavia, pode ocorrer, pois podemos ter uma dieta que resulte num ganho menor por ter excesso de gordura, que atrapalha a fermentação ruminal e/ou reduz a ingestão de alimentos. Assim, opostamente a nossa intuição, dar muita gordura ao animal pode fazê-lo demorar mais a depositar tecido adiposo e estar pronto para o abate.

    (7) Sempre vale a pena usar aditivo.

    Há consultores que afirmam que, se você faz uma dieta de confinamento sem aditivo, já errou! Apesar dessa afirmação parecer validar a afirmação acima, é preciso fazer uma ressalva: Usar apenas aditivos que tenham benefício:custo positivo.

    O pecuarista é bombardeado por uma grande quantidade de opções de aditivos disponíveis para serem usados. Algumas dicas para escapar das ciladas que abundam no mercado: (a) Desconfiar de aditivos que prometem ganhos muito expressivos (acima de 20%); (b) Se, além disso, forem muito baratos, pode-se colocar mais uma “bandeira vermelha”; (c) Entender o fundamento do aditivo também ajuda a escapar de armadilhas, quando ficar patente ele ser ilógico ou quando a explicação for muito exotérica. Se o aditivo prometer alterações no DNA ou para entender seu fundamento seja usada física quântica, como já várias vezes me explicaram, aumente a desconfiança e, por fim, (d) o velho e bom caminho para escapar de “fakes”: procurar informações em fontes confiáveis.

    Para poder fazer a análise de benefício:custo será obrigatório ter uma ideia do benefício esperado, além obviamente de seu custo.

    Tendo só o custo, é possível analisar qual o ponto de equilíbrio, ou seja, qual o ganho/dia a mais que ele tem que dar para que o ganho a mais em função do seu uso pague o quanto ele custa/dia. É comum esperarmos uma relação benefício:custo de 2:1, ou seja, para cada Real investido, que retornem dois. Assim, se o ponto de equilíbrio for 50% de um ganho esperado a mais, isso é um bom indicativo.

    Obviamente, que antes dessa análise, ele já deve ter passado pelos critérios do parágrafo anterior: não havia promessas de ganhos mirabolantes, não é algo quase gratuito, ele tem bom fundamento e há trabalhos científicos suficientes com resultados positivos.

    (8) Vale a pena ajudar o bezerro a ter bactérias ruminais.

    Há produtos oferecidos no mercado que prometem acelerar a colonização ruminal. Eles seriam a fonte de inóculo para fazer o rúmen se tornar funcional mais cedo. Às vezes, além disso, alegam ser um inóculo diferenciado, ou seja, que tem bactérias melhores do que as que o animal teria sem essa ajuda.

    No quesito de adiantar a colonização ruminal, não existe nenhuma evidência que haja vantagem, pois, a inoculação natural já é muito eficiente. O contato com a mãe já é suficiente para que ocorra a transferência das primeiras populações. O contato com outros animais e o ambiente em geral, complementam o serviço, rapidamente e de graça!

    Quanto a poder haver superbactérias no produto, apesar de improvável, mesmo que elas existam, a questão é que uma coisa é você colocar uma superbactéria no rúmen, outra bem mais complicada é que elas se mantenham como uma população relevante.

    O ambiente ruminal é extremamente competitivo e, como superbactérias tem que fazer algo super (por exemplo, produzir mais enzimas que quebrem a fibra), elas perdem na competição com as normais, que não tem esse peso extra.

    Enfim, o bezerro, dessa ajuda, não precisa.

    (9) Dieta com caroço de algodão em confinamento resulta em carne de sabor ruim.

    Frequentemente é relatado problema de sabor na carne de animais que receberam caroço de algodão em sua terminação e, portanto, essa não é uma “fake news” sem qualquer fundamento. Há, inclusive, várias hipóteses para explicar essa ocorrência: (a) inclusão exagerada, acima dos limites recomendados, próximos a 15% da matéria seca (MS) da dieta; (b) uso deste ingrediente em mal estado de conservação e (c) acúmulo de algum componente aromático na gordura (ex.: Gossipol);

    Com relação à quantidade, valores tão elevados como 20% da MS como caroço de algodão não resultaram em carne com sabor alterado. Isso pode ser explicado porque, por exemplo, os teores da substância que causa o problema sejam tão variáveis que por vezes nem causem o problema. Esse, inclusive, é o caso de um dos suspeitos, o gossipol. Além disso, provavelmente, o tempo de exposição ao caroço seja tão importante quanto a quantidade, pois deve-se tratar de um composto que se acumula gradativamente na carne.

    No caso do uso de ingredientes em mal estado de conservação, há inclusive casos de carne com sabor ruim que eram atribuídos ao caroço, mas que, na verdade, eram de animais que nunca haviam consumido esse produto, mas que consumiram grão de soja. Como ambos são ricos em gordura insaturada, eles são mais fáceis de rancificar, bem como a carne produzida com eles, que também pode ficar mais insaturada.

    Portanto, a incorreção da notícia seriam duas: (I) nem sempre o caroço de algodão causa gosto ruim na carne e (II) nem todos os casos de sabor da carne são decorrentes do uso de caroço de algodão.

    (10) Ganhar dinheiro com pecuária é fácil.

    Esse não engana quem vive da atividade, mas é algo bastante arraigado na população urbana, que pensa o mesmo sobre a agricultura. Esse é um erro que começou na carta de Pero Vaz de Caminha para o rei de Portugal por época do descobrimento (“Nesta terra, em se plantando, tudo dá.”). O único antídoto é tentar informar mais o mundo urbano, o que é uma boa meta para associações de classe do setor agropecuário. O lema poderia ser: “o agro é tech, é pop, mas se fosse fácil e desse muito dinheiro, como vocês pensam, as cidades estariam vazias!”.

    Fugindo das “fakes”, concentrando em fazer bem feito, espero que, se não ganhemos fácil aqui no campo, pelo menos ganhemos bem. Daí a vantagem é o ar puro, a imensidão do horizonte e o profundo azul do céu...

    *Sérgio Raposo é Pesquisador da Embrapa Gado de Corte, agrônomo com mestrado e doutorado pela ESALQ/USP.

    Fonte: Carta Insumos - Volume 13 • Número 149 - outubro de 2018 – Scot Consultoria



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