• Genética
  • Genética no tempo, sem artificialismos

    04/02/2019
    Respeitando a fixação de características no rebanho ao longo do tempo sem quaisquer maquiagens nas informações observadas e coletadas no campo.

    A Colonial Agropecuária é reconhecida no mercado como uma grife disseminadora de fêmeas precoces e com excelente habilidade materna. Foto: Arquivo Colonial

    Ivaris Junior*

    O cinquentenário Nelore Colonial foi um dos primeiros criatórios na formação da raça pelo que entendemos como moderna, no País, e também a se preocupar com a seleção de fêmeas. Sempre houve o entendimento de que as matrizes da raça são muito férteis e resistentes, porém carentes de um desempenho mais precoce na sua vida reprodutiva, bem como na sua habilidade maternal. Reduzir a idade média do primeiro parto era item preponderante para equiparar sua produtividade à das raças europeias, em especial a britânica Angus.

    Convencidos desse desafio, Gabriel Donato de Andrade, um dos fundadores da Andrade Gutierrez e fundador da Colonial Agropecuária no município de Janaúba, Norte de Minas Gerais, e hoje com 93 anos de vida, ao lado de sua equipe de técnicos foi se valendo das ferramentas disponíveis a cada tempo e melhorando cada característica que constrói a excelência de uma boa vaca. De modo que, hoje, parte importante do seu plantel de 1,5 mil fêmeas registradas e outras 3,5 mil sem livros, consegue emprenhar a partir dos 12 meses, derrubando um bezerro de qualidade por ano, ao longo de um bom tempo nas fazendas. A seleção chegou à tão desejada superprecoce.

    Traduzindo em números a importância desse desempenho dentro de uma bovinocultura de corte competitiva, quando uma fêmea gera um bezerro a mais em dez anos de permanência no rebanho, ela proporciona um retorno maior em pelo menos 15%. Deve-se somar ainda o fato dela eliminar a categoria animal de recria e o aumento da taxa de desfrute do rebanho, como um todo. Sem contar que estes animais superprecoces, nos últimos leilões da grife, registraram ágio na casa dos 30% em relação às novilhas de produção tradicional, ou seja, com primeiro parto na idade média de 33 meses (quase um ano depois).

    Gabriel Donato de Andrade, um dos fundadores da Andrade Gutierrez e fundador da Colonial Agropecuária. Foto: Arquivo Colonial

    Pontos de partida

    À frente do melhoramento genético do rebanho da Colonial com 32 anos de casa está Neurisvan Teixeira dos Santos. Ele conta que uma das primeiras ações já aconteceu em 1972, quando passaram a buscar fêmeas com maior produção leiteira. E não foi uma busca qualquer. Ela se deu por meio de “Controle Leiteiro Oficial”, algo que somente os rebanhos produtores de leite praticavam em suas fazendas, pois exige mensuração diária do volume produzido. Desta data em diante passaram a identificar as mães Nelore mais leiteiras. Aliás, esta habilidade é uma das grandes virtudes que a grife carrega em suas dezenas de touros colocados em centrais de inseminação artificial ao longo do tempo.

    O passo seguinte foi ingressar em um programa de melhoramento genético, cujos valores se encontravam com os da Colonial. Em 1993, seu rebanho foi o quarto a ingressar no PMGRN, baseado em Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) e estruturados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP de Ribeirão Preto); entre eles Raysildo Barbosa Lôbo que, mais tarde fundaria a Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), dando sequência ao trabalho do programa “Nelore Brasil”. Atualmente a Colonial possui três das certificações máximas de excelência concedidas pelo programa.

    Durante muitos anos, a Colonial fez controle leiteiro oficial de suas fêmeas Nelore. Foto: Arquivo Colonial

    As superprecoces

    Tudo começou quando o médico veterinário Paulo Namur pediu apoio à Colonial Agropecuária para estudar o item precocidade das fêmeas Nelore, em defesa de tese acadêmica destinada a provar que o Nelore possuía genética para gerar um modelo animal precoce reprodutivamente, com correlações de precocidade também de carcaça tipo frigorífica. Sem pestanejar, a equipe liderada por Andrade entendeu este como um caminho correto, promissor e não mediu esforços, desde então.

    Os primeiros produtos do trabalho vieram da safra de 1993 que, em 1994, já entravam para estação de monta com idade entre 12 e 14 meses. Os seis anos seguintes foram muito difíceis, pois a experiência não possuía muita retaguarda prática. Vale lembrar que o preço pago era o do pioneirismo, pois não existiam fórmulas para tanto. Contudo a empresa identificou indivíduos, depois famílias e partiu para a multiplicação genética por meio da Transferência de Embriões (TE) e posteriormente Fertilização in Vitro (FIV), principalmente das fêmeas superprecoces que emprenharam, pariram e reconceberam na estação seguinte, sempre bons bezerros, em regime exclusivo de pasto.

    Paralelamente, o que se vislumbrava – caso contrário não valeria o esforço – era a obtenção de animais bons ganhadores de peso e com desenvolvimento rápido, além de acabamento de gordura. “O sucesso das sucessivas safras variou de acordo com o pedigree dos padreadores. Teve anos de 10% e outros de 70%”, recorda Neurisvan dos Santos. A média geral de todos os trabalhos ficou em 25%, com alguma interferência mais direta da genética materna e do ambiente, principalmente: a austeridade Norte de Minas Gerais (chuvas concentradas em 90 dias em torno de 760mm, em média, entre primavera e início de verão; com temperaturas média anual de 31o C).

    Neurisvan Teixeira dos Santos, gerente de melhoramento genético da Colonial. À direita, superprecoces de segunda cria. Fotos: Arquivo Colonial

    O sobe e desce das respostas

    “Em anos mais chuvosos, a oferta de forragem é de melhor qualidade e as novilhinhas respondem mais favoravelmente”, destaca o gerente de melhoramento genético. Para efeito de mensuração, no início de 2018, trabalhando com animais nascidos na temporada de 2016, a taxa de prenhez da categoria foi de 45%. Contudo, na estação de monta anterior foi de 31%, exatamente metade dos 62% da estação de 2016.

    Já no final dos anos 90, alguns reprodutores fechados na genética Colonial, além de animais nascidos com a marca COL, Credencial, Quark e Ranger das linhagens (Gim de Garça) e (Zefec), mostraram melhor desempenho na produção de fêmeas superprecoces, evidenciando também aquela correlação entre precocidade e desenvolvimento de carcaça frigorífica. “Foi uma grata, surpresa e uma confirmação das impressões de Namur”, relembra Santos.

    Em 24 anos de trabalho, a Colonial produziu mais de 2 mil fêmeas superprecoces, entre as da série COL e COLM (os animais fechados em matrizes Colonial com mais de 50% de concepção, entre 12 e 14 meses de idade), e as da série COL, com genética mais aberta e desempenho em torno de 25%. Importante destacar que entre os touros que produzem filhas superprecoces há também os que melhoram em muito o temperamento do gado, em geral, fator importante na hora do manejo no curral. Aliás, a inseminação artificial foi decisiva na obtenção de melhores números no passar dos anos.

    Fêmeas superprecoces parem ao completar dois anos de vida e assim produzem um bezerro mais em sua jornada reprodutiva. Foto: Arquivo Colonial

    No rigor do ambiente de exploração desses animais, Santos atenta para a necessidade de disponibilizar boa oferta de forragem a essas fêmeas em desafio e, quando possível, e uma suplementação proteica-energética no último semestre de gestação, mesmo no pasto. A estratégia final vai ajudar no bom desenvolvimento da fêmea, na oferta de leite ao bezerro e em melhores condições de escore corporal para a reconcepção. Importante: “não pode haver perda de habilidade materna”, reitera o gerente.

    O modelo de fêmeas da Colonial é um animal de frame moderado, com peso na fase adulta de até 18 arrobas, que tenha nascido pequena e alcançado rápido desenvolvimento corporal. Por muitos anos, a seleção trabalhou com redução de peso na idade adulta e passou a buscar animais com frame moderado e com maior ganho de peso pós desmame, para alcançar essa precocidade reprodutiva e, portanto, produtiva também no frigorífico.

    Depois de anos da Colonial frequentar importantes pistas de exposições, a partir de 1993 decidiu sair e se dedicar somente ao melhoramento genético, me regime de pasto, e ao projeto Nelore com garantia de precocidade. Contudo, a grife fixou uma caracterização racial padrão, aceitável ao registro genealógico. Daí em diante passou a explorar o seu potencial genético e exigir índices mais econômicos no rebanho, sem se descuidar do que se entende pelo “melhor Nelore”. Vale a pena reforçar que a Colonial quer animais bons de pasto e com a melhor conversão alimentar, o que também os empurram para o bom desempenho em terminação confinada.

    *Texto de Ivaris Junior, da Redação do Portal Boi a Pasto



  • Suplementação mineral é essencial para rebanho, mas exige medida específica

  • Não existe receita de sucesso e é preciso fazer análise real de cada caso

    + leia mais
  • A vez delas também na pecuária

  • Estamos falando das fêmeas bovinas como fiel da balança na hora de melhorar a rentabilidade do negócio. Na cobertura a campo, predominante na pecuária nacional, produzem em média 28 filhotes por ano,

    + leia mais
  • Uma nova revolução

  • Eficiência alimentar passa a ser grande preocupação dos principais selecionadores de bovinos do País. A característica promete conferir maior competitividade à produção de carne vermelha.

    + leia mais
  • Genética no tempo, sem artificialismos

  • Respeitando a fixação de características no rebanho ao longo do tempo sem quaisquer maquiagens nas informações observadas e coletadas no campo.

    + leia mais


  • Escreva um comentário



  • *

    *
    *





  • Comentários (0)



  • Criação de sites