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  • iLPF: quando a soma das partes é maior que o todo

    26/07/2017
    Quais são as vantagens e os desafios que o pecuarista e o agricultor encontrarão na hora de fazer a travessia para os sistemas integrados?

    Sérgio Raposo de Medeiros*

    No dia 15 de julho foi celebrado o “Dia do Pecuarista”. No próximo dia 28 de julho, será a vez de comemorar o “Dia do Agricultor”. Escrevo esse texto entre essas datas, feliz pela coincidência de ambas ocorrerem no mesmo mês. Sugiro, então, fazermos de julho o “Mês da Integração Lavoura-Pecuária” (ILP). A ILP é onde quem faz capim virar proteína de alta qualidade, encontra quem produz os demais alimentos e, como resultado, produzimos mais e melhor.

    Precursores da integração lavoura-pecuária, como conhecemos hoje, foram tecnologias desenvolvidas para recuperar áreas de pastagem, semeadas junto com a lavoura, como o Sistema Barreirão (Kluthcouski et al., 1991) e o Sistema Santa Fé (Kluthcouski et al., 2000), ambas obtendo grande sucesso. Mais recentemente, temos o Sistema São Mateus1, desenvolvido nas condições desafiadoras da parte Leste do Mato Grosso do Sul.

    Atualmente, há sistemas integrados em todos pais, nos quais o componente animal pode ser bovino de corte, gado leiteiro ou ovinos e o componente agrícola uma das muitas opções entre milho, sorgo, soja, girassol, cana-de-açúcar, etc. Estima-se que já exista mais de 11 milhões de hectares com sistemas integrados (incluindo aqueles contendo o componente florestal) e, nos prognósticos mais otimistas, que exista a possibilidade de incorporar até 40 milhões de hectares.

    Um alerta importante é que, quando falamos em sistemas integrados, eles precisam de fato estarem interligados. Se, na sua propriedade, você cria bovinos e tem lavoura, mas em áreas distintas, isso não configura “integração”. Para que os benefícios do sistema integrado ocorram essas atividades devem ocorrer na mesma área em tempos subsequentes. E os benefícios mútuos são vários:

    1. Melhoria das propriedades químicas, físicas e biológicas do solo;
    2. Quebra do ciclo de pragas e doenças;
    3. Melhor controle de invasoras;
    4. Aproveitamento de subprodutos e resíduos entre as atividades;
    5. Disponibilização de pasto de alta qualidade na entrada da seca;
    6. Incremento na produção animal após cultura;
    7. Maior produção de grãos após pastagem;
    8. Fluxo de caixa mais favorável ao produtor;
    9. Melhor aproveitamento da mão-de-obra;
    10. Diluição de risco econômico.

    Há muita complementariedade entre os efeitos de cada componente. De forma geral, considera-se que a lavoura melhora, principalmente, a fertilidade, enquanto a pastagem, as propriedades físicas do solo. O sistema radicular abundante e profundo da forrageira ajuda na estruturação do solo, aumentando sua porosidade e a capacidade de infiltração da água. O adubo residual que sobra da condução da cultura aumenta a produção da forragem.

    O resultado é a maior produção de grãos em áreas com ocupação prévia de pastagens dentro de sistemas integrados.
    Aumentos nos rendimentos de soja de 180 a 720 kg/há foram relatados em áreas previamente cultivadas com milho intercalado com gramíneas forrageiras perenes. Ganhos elevados na seca e com alta lotação também são possíveis em sistemas de ILP.

    Solos sob pastagens bem manejadas ou em sistemas de integração podem ter níveis de carbono semelhantes ou superiores à vegetação nativa, conforme estudos feitos nos biomas da Amazônia, Cerrado e da Mata Atlântica.

    No solo, quanto mais carbono, melhor, pois ele possibilita o armazenamento de nutrientes, melhora a retenção de água, aumenta a capacidade de troca de cátions (importante para sua fertilidade), aumenta a biomassa microbiana e melhora a estrutura e porosidade do solo, deixando-o menos suscetível à erosão.

    Além disso, esses solos apresentaram maior densidade e biodiversidade de espécies, o que favorece a manutenção da sua qualidade. Dentre as comunidades favorecidas pelo uso de forrageiras nos sistemas integrados destacam-se os gêneros que incluem as minhocas os besouros coprófagos, que auxiliam na estruturação do solo.

    Conforme meus colegas que trabalham com sistemas integrados, o tempo recomendado para manter as pastagens na área em relação ao condicionamento físico do controle do solo e dos nematóides é de 24 a 36 meses, mas esse período mínimo não está sendo respeitado por questões econômicas. O fato é que, ao reduzir o tempo com pastagens espera-se obter maior rentabilidade associada à agricultura. Isso faz com que a combinação mais recomendada de anos de pastagem e cultivo não seja a mesma que a do ponto de vista econômico. Deve ser lembrado que isto é dentro de uma avaliação de curto prazo, sem considerar as perdas dos benefícios de se manter a pastagem.

    Em todo caso, esse é um bom exemplo de informação a ser considerada para proposição de políticas públicas que criem algum estímulo para a manutenção de pastagens por mais tempo. Uma dessas políticas públicas poderia ser o pagamento por serviços ambientais pela manutenção das pastagens, uma vez que há redução de necessidade de uso de defensivos agrícolas e melhor conservação do solo.

    Usualmente, temos pecuaristas e agricultores, cada um cuidando de sua especialidade. A adoção da ILP, em geral, implica em que um deles tem que fazer a movimentação para o lado oposto, ou seja, abandonar sua “zona de conforto”.

    Na tabela 1, há um resumo das vantagens e dos desafios que cada um deles encontra ao fazer a travessia rumo aos sistemas integrados.

    TABELA 1. Vantagens e desafios relacionados à adoção do sistema integrado de acordo com experiência prévia do produtor (Agricultura para Pecuária ou Pecuária para Agricultura)

    Uma boa forma de fazer a travessia para a nova atividade, é pelo estabelecimento de parcerias. Assim, o pecuarista que nunca trabalhou com agricultura, pode fazer um contrato de parceria com um agricultor para explorar determinada área. Analogamente, o agricultor pode estabelecer pastagens em sua propriedade, em comum acordo para arrendamento para um parceiro pecuarista. O uso de praças de alimentação e cerca-elétrica facilitam o uso dessas áreas, mas algum investimento adicional talvez ainda seja necessário para a suplementação dos animais.

    Essas parcerias podem ser duradouras ou os envolvidos podem aproveitar para se familiarizarem com a nova atividade, usando a oportunidade como treinamento até se sentirem mais confiantes para tocarem por conta própria o sistema integrado como um todo.

    O fato é que todas as sinergias entre as atividades dão maior sustentabilidade à produção agropecuária. Quanto mais adoção houver, melhor para o Brasil, pois a soma da pecuária mais a agricultura da integração é maior que a soma de cada uma delas isoladamente, com ganhos ambientais e econômicos.

    Nota: Esse texto se baseou em informações que estarão disponíveis nos Anais da Reunião da Sociedade Brasileira de Zootecnia (Barioni et al., 2017) e do Simpósio de Manejo de Pastagens da ESALQ-USP (Medeiros et al., 2017).

    REFERÊNCIAS:

    Barioni, L.G.; De Oliveira Silva; R.; Fasiaben, M.C.R.; Medeiros, S.R. Fitting brazilian livestock production to changes in natural and political environments. In: Anais 54ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia (no prelo) 2017.
    Kluthcouski, J.; Cobucci, T.; Aidar, H. et al. Sistema Santa Fé – Tecnologia Embrapa: integração lavoura-pecuária pelo consórcio de culturas anuais com forrageiras, em áreas de lavoura, nos sistemas direto e convencional. Santo Antonio de Goiás: Embrapa Arroz e Feijão, 28p., (Embrapa Arroz e Feijão. Circular Técnica, 38) 2000.
    Kluthcouski, J.; Pacheco, A. R.; Teixeira, S. M. ; Oliveira, E. T. Renovação de pastagens de Cerrado com Arroz. 1- Sistema Barreirão. Goiânia: EMBRAPA-CNPAF, 20p. Documentos, 33. 1991.
    Medeiros, S.R.; Barioni, L.G. Mitigação da emissão de gases de efeito estufa em sistemas de produção animal em pastagens – Em busca da carne com emissão zero. In: Anais do 28ª Simpósio de Manejo de Pastagens (no prelo) 2017.

    * Sérgio Raposo de Medeiros  é Pesquisador da Embrapa Gado de Corte, agrônomo com mestrado (1992) e doutorado (2002) pela ESALQ/USP, especialista em nutrição animal, atuação em pesquisa com os seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável.

    Fonte: Carta Conjunta edição 65 – Scot Consultoria

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