• Sanidade
  • Miíase em bovinos

    13/06/2017
    A Miíase é um problema que deve ser sempre lembrado, devido aos danos causados ao animal e à economia do produtor. É uma infestação comum, mesmo tomando todas as precauções necessárias, porém em uma produção faz com que o animal retarde seu desenvolvimento ficando assim diferenciado dos outros animais do rebanho.

    Lesões provocadas por larvas

    Alexander Wiemer, Ana Carolina Lopes, Ana Luiza Crovador, Bárbara Richter, Beatriz Archioli , Edileine Cristina Noveleto Guiraldelli, Júlia Nocete e Lucas Brito e Mariane Salomé de Moraes*

    O termo Miíase se origina da palavra “myia”, que significa mosca e “asis” que significa doença (ZUMPT, 1965).

    A Miíase é uma infecção causada por larvas de dípteros, que são insetos holometabólicos, ou seja, possui ciclo completo, formação de ovo, três estágios larvais, pupa e adulto. A principal espécie causadora é a Cochliomyia hominivorax, é classificada como agente causador de Miíase Secundária obrigatória em animais vertebrados, infestando principalmente bovinos, caprinos, ovinos. Se desenvolve exclusivamente nos ferimentos recentes nos tecidos dos hospedeiros, onde ocorre a ovipostura nas bordas das lesões e as larvas eclodidas vão se alimentar do tecido muscular, elas possuem enzimas proteolíticas responsável pela digestão dos tecidos, resultando sua dilaceração, as lesões tem seu tamanho aumentado e exalam odor fétido, e é conhecida vulgarmente como “mosca da bicheira”. No aspecto clínico a Miíase é fundamentada a partir da localização em que é encontrada no corpo do animal, ou seja, podem ser cutâneas, cavitárias (nasofaringes, ocular e urogenital).

    Seu ciclo evolutivo é completo, a fêmea da mosca Cochliomyia hominivorax é fecundada uma única vez na vida, ela consegue armazenar aproximadamente 2.800 ovos e efetua várias posturas, em diferentes locais, de 350 ovos aglomerados com intervalos de três a quadro dias. As larvas do primeiro estágio (L1) surgem dentro de 12 a 24 horas e já fixam nos tecidos, iniciando sua alimentação. A fase larval irá passar por duas ecdises, de L1 transformando-se em L3 de seis a sete dias. Nesse estágio caíram do hospedeiro no solo começando a fase de pupa, que leva de seis a oito dias. No verão e em condições ótimas de temperatura e umidade o ciclo se completa de 21 a 23 dias. Os adultos vivem em media 60 dias. (FORTES. 4 ed).

    Ocorrem frequentemente em regiões tropicais e subtropicais que apresentam condições de clima quente e úmido. Este parasito é mais abundante nos meses de verão, em um estudo da distribuição nas regiões de floresta tropical no Panamá, concluíram que Cochliomyia hominivorax é mais abundante nas florestas semiabertas e bordas florestais, assim como em transições entre as estações úmida e seca. (PHILLIPS et al. 2004).

    No Brasil, a pecuária possui expressiva importância econômica. Nestas condições, a Miíase destaca-se por acarretar prejuízos à bovinocultura. As principais causas geradas pela “bicheira" incluem Miíases umbilicais dos bezerros recém-nascidos, bem como diminuindo a produção leiteira e os índices de fertilidade, reduzindo a taxa de conversão alimentar e o ganho de peso, se não tratado os animais podem desenvolver toxemia, hemorragia e infecções secundárias levando à morte. Estimam-se em muitos milhões de dólares as perdas ocorridas pela queda de produtividade, pelos custos dos medicamentos para o tratamento como também pela mão-de-obra para o manejo dos animais doentes, esses tratamentos também contribuem para presença de resíduos indesejáveis no leite e carne bovino (YARZON, 2005).

    Estima-se que os prejuízos causados pelos ectoparasitas, as Miíases responderiam por 150 milhões de dólares anuais (GRISI et al., 2002).

    Devido a essa grande importância econômica e aos prejuízos nos bovinos está sendo muito visada a erradicação dessa mosca Cochliomyia hominivorax.

    Em 1957, um programa de manejo integrado em área-ampla contra Cochliomyia hominivorax foi iniciado na Flórida - Estados Unidos. Após o sucesso deste programa, com a união entre produtores, pesquisadores e o governo federal, foram lançados programas de erradicação da espécie em outros estados do sudeste e sudoeste dos Estados Unidos. A mosca da bicheira foi dada como erradicada do país em 1982, depois no México em 2001 e, finalmente, da América Central em 2004 (MASTRANGELO, 2011).

    De forma geral se trata de uma espécie que causa grandes prejuízos aos produtores do Brasil devido ao parasitismo, e até mesmo um problema de saúde pública, se torna de grande importância e responsabilidade do Médico Veterinário.

    Ciclo de Vida

    Cochliomyia hominivorax é um inseto holometábolo, ou seja, tem metamorfose completa. Em temperaturas médias de 22 °C, o ciclo de vida ocorre em aproximadamente 24 dias, porém, dependendo das condições ambientais, este pode se estender até por 50 dias (GUIMARÃES et al., 1983).
    O ciclo biológico é dividido em quadro partes, primeiro os ovos, desenvolve por uma fase larval, uma fase pupa e por fim no animal adulto. Em um verão quente - condição ideal para as moscas, o ciclo de ovo fertilizado a adulto requer apenas de vinte dias, contudo esse ciclo pode ser alterado dependendo das condições que estes insetos se encontram (estação do ano, temperatura, umidade).

    Cada fêmea coloca em média 2800 ovos e efetua varias posturas em diferentes locais, em aglomerados de 350 ovos, quando atraída pelo odor característico de feridas já infestadas, podem levar a infestações com centenas ou milhares de larvas. (Fortes. E, 4.ed).

    As moscas são criaturas solitárias, ou seja, machos e fêmeas não permanecem juntos depois do acasalamento, as fêmeas não cuidam dos ovos ou os protegem. Elas simplesmente os deixam em lugar seguro contra predadores e dotado de alimentação.

    Deposita seus ovos em ferimentos recentes na pele do hospedeiro, animais mortos ou matéria orgânica em decomposição da qual os insetos adultos se alimentam. Em 24 horas, as primeiras larvas começam a emergir dos ovos. As larvas são sem divisões, com bocas em forma de ganchos usadas para alimentação, crescem rapidamente. Em menos de dois dias, dobram de tamanho e devem, portanto, passar pela muda. Um verme passará por três estágios larvais (L1, L2 e L3) emergindo maior e mais desenvolvido a cada estágio.

    Depois do terceiro estágio, as larvas se desprendem do hospedeiro e caem no solo onde vão entrar na fase de pupa. Suas peles se escurecem e endurecem e elas passam ao estágio de pupa. Dentro dessa casca protetora, a larva desenvolverá plenamente os segmentos de corpo e apêndices de uma mosca adulta. (Guimarães. et al.,2001).

    • 12 a 24 horas para que os ovos eclodam larvas de primeiro estágio;
    • 27 horas do primeiro ao segundo estágio;
    • 22 horas do segundo ao terceiro estágio;
    • 6 a 8 dias desde o último estágio até se tornar pupa;
    • 20 dias até emergir como mosca.

    As larvas da mosca Cochliomyia hominivorax se alimentam da carne do animal

    Fatores Ambientais

    A incidência de Miíase está presente em todas as estações do ano, porém, nota-se que há uma incidência maior no verão e menor no inverno, devido a altas temperaturas.

    A mosca Cochliomyia hominivorax normalmente deposita suas larvas que se alimentam da carne do animal, através de feridas abertas ou ferida eventualmente provocada por picada de carrapato.

    É necessário que o ambiente em que o animal vive esteja sempre higienizado, sem acúmulo de fezes e restos de comida, evitar que o animal tenha contato com locais úmidos, tratar os problemas de pele que o animal possa apresentar e ter conhecimento sobre os aspectos de sazonalidade da mosca tendo um esquema de controle, para que as mesmas não depositem suas larvas em feridas abertas no animal.

    Em caso de feridas, o uso de antisséptico e spray de prata no local da ferida para expulsar as larvas deixando o local livre para a cicatrização.
    Idade que mais acomete

    Podemos observar que a Miíase não está muito relacionada com a idade do animal, mas sim com as condições de higiene do ambiente em que vive e com o manejo que é feito. Não existe uma idade mais propícia, ela acomete o gado em qualquer idade, embora a frequência seja ligeiramente maior em animais adultos.

    Em bezerros, por exemplo, logo após o nascimento é necessário o cuidado com infecções umbilicais que podem ser um chamativo para as moscas que causadoras de Miíase. Nos adultos podemos encontrar Miíase Nodular Subcutânea que causa um grande prejuízo econômico ao produtor de couro.

    Prejuízos

    Os prejuízos da Miíase são basicamente a perca de produtividade (peso e lactação), danos no couro e gastos com remédios. Em animais novos atrasa parcialmente o crescimento.
    Se esta infestação de larvas for muito grande, pode levar o animal a óbito.

    Quando nascem os bezerros geralmente surge a Miíase na região do umbigo, devido a resquícios do cordão umbilical, se não for curado nos primeiros dias gera riscos ao recém-nascido. (RODOSTITS, 1991.)

    Maior impacto é na desvalorização do couro, em consequência de muitas áreas perfuradas, de onde ocorreram as lesões. Gastos em medicamentos para tratamentos, curativos e preventivos também são apontados como uma das principais geradoras de prejuízos.

    Esses prejuízos gerados pelo parasitismo nos rebanhos bovinos brasileiros foram estimados em cerca de 150 milhões de dólares. (OLIVEIRA, 2005.)

    Deve-se também considerar o impacto ambiental produzido pela utilização desses medicamentos. O acúmulo de embalagens com restos de inseticidas é extremamente prejudicial ao ambiente, necessitando dessa maneira de racionalização do uso, nem sempre verificada nas propriedades rurais. (OLIVEIRA, 2005.)

    Tratamento

    A prevenção deve ser realizada em épocas específicas nos meses mais quentes, onde ocorrem as maiores exposições e infestações com o uso de inseticidas. (OLIVEIRA, 2005)

    O tratamento poderá ser realizado manualmente, retirando as larvas com o auxílio de uma pinça ou até mesmo uma pequena cirúrgia com anestesia no animal. (VILLAS BOAS, 2016)
    Ao retirar as larvas, colocar em uma solução com álcool para garantir que morrerão, pois quando caem no solo, irão enterrar-se, em seguida virar pupa, sofrer metamorfose e assim será uma nova mosca adulta, dando continuidade ao ciclo de vida e não acabando com a Miíase. (VILLAS BOAS, 2016)

    Em grandes rebanhos, a maneira eficaz seria com o uso de medicamentos, tais como bernicida, abamectinas, ivermectinas, moxidectinas; podendo ser aplicada diretamente na pele na regiao dorsal, ou por injeção subcutânea. (OLIVEIRA, 2005)

    O tratamento continuará com cuidados sobre a ferida, limpando com iodo, obtendo a  cicatrização completa do ferimento. (VILLAS BOAS, 2016)

    Considerações Finais

    Conclui-se, portanto, que a Miíase é uma das doenças de evolução dolorosa e de tratamento relativamente simples, que para o qual é necessária a assistência veterinária para evitar possíveis complicações. A conscientização e cuidados são fortes maneiras de se evitar a doença. O controle e a profilaxia desta infecção são de extrema importância, pois ela causa prejuízos econômicos devido ao menor rendimento do rebanho.

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    BARBOSA, C. G.; VRIA, A. S.; BARBOSA, M. D. P. R. C. Fase parasitária e alterações clínicas em bovinos infestados experimentalmente com larvas de Dermatobia hominis (Diptera: Cuterebridae). UFRJ, 2002. Disponível em: http://www.scielo.cl/pdf/parasitol/v57n1-2/art05.pdf Acesso em: 09. Out. 2016.
    BRANCO, F. de P. J. A. B.; PINHEIRO, A. da C.; SAPPER, M. de F. M. O Controle da Mosca das Miíases ou Bicheiras (Cochliomyia hominivorax). Ministério da Agricultura, Pecuária e desenvolvimento, 2001. 2p. disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/227326/1/ct402001.pdf Acesso em: 09. Out. 2016.
    BRUM, L. P. Dípteros: miíases. Rio Grande do Sul: Universidade Federal do Pampa. 78 slides. Apresentação em Power-point. Disponível em: http://pt.slideshare.net/CarolineGomes10/dpteros-miases-moscas Acesso em: 31. Out. 2016
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    GRISI, L.; MASSARD, C. L.; MOYA BORJA, G. E.; PEREIRA, J. B. Impacto econômico das principais ectoparasitoses em bovinos no Brasil. Hora Veterinária, Porto Alegre, v. 21, n. 125, p. 8-10, 2002.
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    VERISSIMO, C, J. Resistência e suscetibilidade de bovinos leiteiros mestiços ao carrapato Boophilus microplus. FCAVJ- UNESP, 1991.
    VILLAS BOAS FILHO, D. Aulas de parasitologia veterinária: artrópodes. Faculdade de Jaguariúna, 2016.
    YARZON, R. M. G. B. Cochliomyia hominivorax (COQUEREL, 1858): Meio Alternativo para produção de larvas e testes prospectivos. 2005. 44p. Dissertação (Mestrado em Ciência Animal) – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande.
    ZUMPT, F. Miíase no homem e animais no Velho Mundo. Londres: Butterworths, 1965. 267p.

    * Alexander Wiemer, Ana Carolina Lopes, Ana Luiza Crovador, Bárbara Richter, Beatriz Archioli , Edileine Cristina Noveleto Guiraldelli, Júlia Nocete, Lucas Brito e Mariane Salomé de Moraes são estudantes de Medicina Veterinária na FAJ - Faculdade de Jaguariúna (SP). Artigo desenvolvido com orientação do professor Marcos Alexandre Ivo.

    Fonte: Bárbara Richter



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