• Conjuntura
  • No longo prazo, o viés é de alta nominal, do boi ao refrigerante e ao tomate

    14/08/2018
    As cotações nominais do boi gordo não superam as máximas já observadas há 25 meses.

    Hyberville Neto

    A inflação é a desvalorização do dinheiro, que é avaliada por diferentes cestas de produtos, a depender do setor analisado. Há índices de inflação com maior peso de itens referentes ao mercado atacadista, como os “Índice Gerais de Preços” (IGP-DI, IGP-M, IGP-10) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), outros abordam os preços no varejo, como o IPCA, que é o índice oficial de inflação, calculado pelo IBGE.

    A questão é que, como o dinheiro perde valor (perda oficialmente medida pelo IPCA, para o Real), a tendência é que os valores nominais de todos os produtos aumentem, do boi gordo ao refrigerante e ao tomate.

    Valores nominais são aqueles que foram negociados à época. Se encontrar as notas de negócios antigos, são os impressos nelas. Preços deflacionados são aqueles ajustados para o valor atual da moeda, com isso, normalmente quando deflacionamos um preço, ele aumenta, pois a moeda de hoje vale menos (processo inflacionário).

    Um exemplo drástico disso é a situação da Venezuela, onde o dinheiro não vale nem o papel da impressão.

    Em geral, o viés dos diferentes mercados de commodities é de alta, sob uma perspectiva nominal. Podemos ilustrar isso com as correlações de preços nominais e deflacionados de diferentes produtos.

    Quando comparamos séries nominais, a inflação é um ponto que “está” em todas, pois a medida de preço é a moeda (sujeita à inflação). Com isto, quando analisamos a correlação entre milho, soja e boi, desde o começo de 2001, a menor delas é 0,792, o que indica movimentação semelhante.

    Quando deflacionamos e retiramos este “viés”, as correlações caem, com a maior delas observada para milho e soja, de 0,495. Veja a figura 1.

    Máximas históricas

    Voltando aos preços do boi gordo, como as séries nominais tendem a subir, de tempos em tempos as cotações superam os picos nominais anteriores.

    Aqui cabe uma ressalva de que este viés de alta nominal também é observado para os custos, e normalmente em ritmo maior que para os preços de venda, daí a importância da produtividade.

    A figura 2 mostra a série de preços do boi gordo, os preços nominais recordes até o momento; a sombra ilustra o quanto a cotação em determinado período estava abaixo da máxima anterior.

    Quando a sombra diminui, se aproxima ou encosta em zero, quer dizer que os preços estão nas máximas já observadas ou próximo delas. Isto aconteceu, por exemplo, entre 2007 e 2008. Em julho de 2018, a cotação média esteve 9,7% menor que a média em junho de 2016, recorde nominal para o boi gordo em São Paulo. A tendência é que as cotações alcancem e superem a média.

    Nos três últimos intervalos maiores, a cotação demorou 32 (2005-2007), 25 (2008-2010) e 36 (2010-2013) meses para superar a máxima anterior. A média destes cenários foi de 31 meses.

    Sem querer simplificar o mercado ou beirar a numerologia, a última máxima foi há 25 meses, em junho de 2016.

    Talvez usar as cotações para maio de 2019 no patamar atual (últimos negócios em R$147,50/@) possa fazer sentido, se a fazenda estiver neste nível de gestão, de usar os mercados futuros também para reposição.

    Mais uma vez, os abates de fêmeas

    Como a pecuária, mesmo evoluindo, continua começando pelas vacas, vamos comparar a distância dos preços máximos do boi gordo com os abates de fêmeas. Neste caso, a variação dos abates frente ao mesmo mês do ano anterior. Veja a figura 3.

    Perceba que nos momentos de abates de fêmeas em queda, a distância da cotação máxima está em zero. Isto indica que as máximas nominais estão sendo rompidas, como entre 2007-2009 e 2014-2016. Nas fases de abates de vacas e novilhas em alta, os preços se distanciam das máximas, como no momento atual.

    Para os próximos anos a tendência é que os abates de fêmeas a mais, observados desde 2017, gerem valorizações para reposição e boi gordo, resultando em retenção e tendência de preços em alta.

    Destacamos que estes rompimentos de preços nominais não significam necessariamente recordes de preços reais, mas ilustram uma melhoria na receita do produtor.

    Estas tendências podem ser aproveitadas, com aumento do estoque de arrobas ou mesmo usando os futuros para garantia de preços de reposição. O foco, no entanto, não deve ser acertar na mosca as fases do mercado ou máximas de preços.

    O pecuarista deve sair do risco de mercado, sempre que possível, e ter eficiência dentro da porteira, para gerar resultados mais folgados e passar relativamente ileso pelos solavancos que, invariavelmente, afetam o Brasil.

    Hyberville Neto é Médico veterinário, MSC em administração de organizações, com MBA em gestão financeira e consultor da Scot Consultoria. hn@scotconsultoria.com.br

    Fonte: Carta Boi - Volume 16 • Número 190 – agosto 2018 – Scot Consultoria. Foto: Bela Magrela na Fazenda Cachoeira - Itaberá/SP



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