• Genética
  • O crescimento da IATF e seu impacto na cadeia produtiva da carne

    28/05/2014
    Não há duvidas que a eficiência reprodutiva seja um fator determinante no retorno econômico da pecuária de corte. Em outras palavras, a eficiência em tornar vacas gestantes em momentos específicos do ano (estação de monta) dirige o nascimento de bezerros, seu potencial de desenvolvimento e, consequentemente, a produção de matrizes para reposição e de animais para a engorda e abate.

    Roberta Machado Ferreira e Lais Mendes Vieira*

    Paralelamente, é inegável a importância do melhoramento genético nos rebanhos de corte e seu impacto na produtividade. A busca por touros ditos “melhoradores” já é uma prática comum em diversas propriedades, sendo a inseminação artificial (IA) uma importante aliada da difusão de genética. De forma geral, o uso da IA possibilita que o produtor escolha touros selecionados de qualquer região do mundo de acordo com seus interesses comerciais, acelerando a absorção das características desejadas no seu rebanho. No entanto, a eficiente utilização da IA requer boas taxas de detecção de cio ou a implantação de programas de IA em tempo fixo (IATF).

    Conforme discutido em artigos anteriores, além de dispensar a observação de cio e auxiliar o melhoramento genético do rebanho, a IATF traz como grandes vantagens o aumento da taxa de serviço (100% dos animais tratados são inseminados), a antecipação da prenhez na estação de monta (mais vacas prenhes no início da estação), a redução do intervalo entre partos e a formação de lotes homogêneos de bezerros. Outro ponto positivo é a concentração e otimização da mão de obra para a execução de tarefas específicas em momentos específicos do ciclo de produção como o manejo reprodutivo, o nascimento de bezerros, a desmama e a formação dos lotes de recria e engorda. Por esses motivos a IATF está ganhando espaço e credibilidade nas propriedades brasileiras a cada ano que passa.

    Nesse artigo, serão apresentados alguns dados relacionados à evolução da pecuária de corte ao longo dos anos, com foco em 2010. Gostaria que os senhores leitores olhassem esses dados tendo em mente a importância da eficiência reprodutiva para alcançá-los. Ainda, desafio os senhores a projetarem o impacto que o aumento do uso da IA, especialmente da IATF pode causar nesses índices (já que essas tecnologias são ainda muito pouco empregadas no Brasil).

    O rebanho brasileiro cresceu de 193,20 milhões de cabeças em 2007 para 210 milhões em 2010. O aumento da produção de carne foi acompanhado pela evolução do melhoramento genético e das técnicas de manejo, levando a melhora da produtividade, ou seja, da produção de carne (Kg) por hectare. Assim, pode-se dizer que as áreas de pastagem já existentes foram melhor aproveitadas, fator importante para a sustentabilidade do agronegócio brasileiro (Figura 1).

    Figura 1. Evolução da produção de carne por hectare no Brasil. Fonte: Em discussão! Revista de audiências públicas do Senado Federal

    O aumento da produtividade proporciona tanto a melhora do abastecimento interno de carne quanto o aumento das exportações, trazendo retornos econômicos importantes para o país. Atualmente, a maior parte da carne produzida no Brasil é consumida por nós. Mesmo assim, o Brasil é hoje o segundo maior produtor de carne bovina do mundo e ainda tem potencial para crescer muito mais. Segue abaixo uma ilustração sobre escoamento da carne bovina produzida no Brasil (Figura 2).

    Figura 2. Escoamento da carne produzida no Brasil. Fonte: Em discussão! Revista de audiências públicas do Senado Federal

    A título de curiosidade, apresentaremos abaixo uma previsão do crescimento da participação do Brasil no mercado mundial de carne bovina de 2008 a 2012 e de 2013 a 2017, que foi realizada com base nas exportações líquidas de anos anteriores (Figura 3). Observem o potencial que nosso país possui se simplesmente acompanhar as tendências de anos prévios.

    Figura 3. Previsão da participação do Brasil no mercado mundial da carne bovina nos próximos anos. Fonte: Em discussão! Revista de audiências públicas do Senado Federal

    Hoje, a média de intervalo entre partos no Brasil está próxima de 24 meses, ou seja, a cada ano pouco mais de 50% das vacas geram um bezerro para o produtor. Sabe-se que grandes motivos para esses índices tão baixos são (1) a ocorrência de anestro pós-parto (bastante evidente nas vacas Nelore criadas em sistema extensivo, especialmente primíparas) e (2) a ineficiência de detecção de cio. Vale lembrar que a IATF, quando bem empregada, ajuda a transpor eficientemente esses dois problemas. Assim, fica claro o nosso potencial para aumentar as tendências de crescimento mostradas na figura acima se intensificarmos a produção de bezerros por vaca/ano, utilizando tecnologias reprodutivas como a IATF por exemplo.

    Nos últimos dez anos foi observada uma grande evolução do número de inseminações realizadas tanto em rebanhos de corte quanto de leite, sendo esse crescimento bastante consistente nos últimos quatro anos (Figura 4). No último ano, foram comercializadas 10.415.070 de doses de sêmen (Relatório da Asbia 2010), ou seja, apenas 8% das 71.988.424 fêmeas em idade reprodutiva (acima de 24 meses) foram inseminadas (considerando-se uma média de duas doses de sêmen por concepção), uma parcela ainda muito pequena se comparada ao potencial brasileiro (Figura 5). Dentre as raças de touro utilizadas para a IA, a Nelore representa quase metade do sêmen comercializado. Sêmen de outras raças é comercializado em menor proporção e utilizado tanto para a IA de rebanhos puros quanto para a realização do cruzamento industrial, uma ótima alternativa para atender as distintas exigências de mercado consumidor.

    Figura 4. Evolução geral da IA em gado de corte, leite e total (fonte: Relatório de 2010 da Associação Brasileira de Inseminação Artificial – Asbia)

    Figura 5. Porcentagem de animais inseminados e raças utilizadas para esse fim no Brasil (Adaptado do Relatório anual da Asbia)

    Em linhas gerais, o aumento do número de IA nos últimos anos foi decorrente do crescimento da IATF, uma vez que houve redução do uso da IA em fêmeas observadas em cio. Em outras palavras, pode-se dizer que o aumento do número de doses de sêmen comercializadas ocorreu em função da difusão dessa biotecnologia (inseminar em tempo fixo, sem observar cio). Essa evolução pode ser claramente observada na Figura 6.

    Figura 6. Evolução geral da IA e a participação da IATF no aumento do número de animais inseminados (fonte: Departamento de Reprodução Animal da USP/SP)

    Provavelmente, o crescimento da IATF colaborou para o crescimento de todos os índices de produção e produtividade aqui mencionados. Há alguns anos essa tecnologia é foco de diversas pesquisas no Brasil e, atualmente, já dominamos uma série de alternativas viáveis para sua utilização com sucesso. Dessa forma, a difusão da IATF pode ser uma excelente estratégia para multiplicar as perspectivas de crescimento da cadeia de produção da carne, visto que 92% de nossas matrizes ainda são acasaladas em sistema de monta natural.

    Cabe aos veterinários a função de levar esclarecimentos sobre essa técnica e de avaliar a realidade de cada propriedade para aplicá-la de maneira rentável e eficiente. Cabe ao produtor se conscientizar sobre os possíveis benefícios que a técnica pode trazer, vencer seus preconceitos e procurar um veterinário especializado que avalie qual a melhor estratégia reprodutiva pra seu rebanho.

    *Para o BeefPoint

     


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