• Genética
  • Programação fetal e o desempenho do gado de corte

    17/10/2018
    Pesquisadores do Nepec explicam a importância do manejo nutricional de vacas gestantes

    Vacas de corte gestantes em pastagem de baixa qualidade no Brasil Central. Foto: Nepec.

    Karolina Batista Nascimento¹, Alyce de Melo de Faria², Marcio de Souza Duarte³, Mateus Pies Gionbelli4*

    Você sabia que o manejo nutricional das vacas gestantes pode afetar o desempenho dos seus bezerros? Bom, se você tem negligenciado aquela categoria animal, saiba que pode estar perdendo dinheiro! Pesquisas têm demonstrado que a restrição nutricional em fases específicas da gestação traz efeitos negativos do nascimento ao abate. Dentre estes efeitos temos a redução da eficiência placentária e diminuição do peso fetal, aumento da morbidade e mortalidade neonatal, disfunção de órgãos específicos, retardamento do crescimento pós-natal, alterações na qualidade da carne, mudanças endócrinas metabólicas negativas do ponto de vista de deposição de carne, dentre outras consequências que podem reduzir a rentabilidade com a pecuária de corte.

    No Brasil, temos aproximadamente 70 milhões de vacas de corte, sendo que, pelo menos 2/3 delas são criadas em regiões com estações de seca e águas claramente definidas (ambiente tropical, principalmente cerrado). Devido à preconização das estações de monta e parição em períodos de maior disponibilidade e qualidade de forragem, muitas matrizes passam o terço médio e parte do terço final da gestação na estação seca. Tais circunstâncias podem afetar a produção de carne principalmente porque a maioria das fibras musculares fetais é formada entre o segundo e oitavo mês da gestação em bovinos. Ao contrário dos tecidos ósseo e adiposo (que juntamente com tecido muscular esquelético compõem a carcaça do animal), o músculo tem capacidade de crescimento por hiperplasia (aumento no número de células por divisão celular) limitada ao período fetal. Portanto, após o nascimento o aumento da massa muscular acontecerá apenas pelo processo de hipertrofia, ou seja, pelo aumento do tamanho da fibra do animal, devido ao acúmulo de proteína em seu interior.

    As células do tecido muscular, ósseo, conjuntivo e adiposo têm origem de um mesmo tipo celular, que são as células mesenquimais progenitoras, as quais são capazes de se transformar em qualquer um destes tecidos na fase fetal. O que controla este processo de diferenciação, ou seja, o que define se as células-tronco serão recrutadas para formar músculo, gordura ou células de tecido fibroso são fatores sensíveis ao status nutricional materno. Isso pode favorecer a formação de determinados tipos de tecidos em detrimento de outros. Em condições de escassez nutricional, a hiperplasia muscular é prejudicada, prejudicando assim o potencial do animal em produzir carne.

    Animais que tiverem um baixo número de fibras musculares ao nascimento podem ter menor capacidade de ganho de peso, uma vez que terão menos fibras para crescer em tamanho. Existe a possibilidade de que o ganho de peso entre filhos de mães que passaram por restrição na gestação e de mães que tiveram suas exigências nutricionais plenamente atendidas apresentem ganhos similares em fases específicas da vida em condições iguais de manejo. Tal reflexo pode acontecer por uma compensação na hipertrofia nos animais com baixo número de fibras musculares. No entanto, é importante frisar que a fibra muscular possui uma capacidade finita de crescimento, sendo que ao atingir um determinado diâmetro seu tamanho se estabiliza. Por outro lado, o oposto também acontece. A hipertrofia muscular pós-natal em filhos de mães que passaram por restrição nutricional pode ser limitada devido a um menor conteúdo de DNA e mionúcleos nas fibras musculares. Com isto, pode haver redução na capacidade de síntese proteica muscular e consequentemente diminuição da produção de carne.

    Objetivando simular uma condição de Brasil e avaliar os efeitos da restrição nutricional sobre o desempenho de bezerros de corte, o Núcleo de Estudos em Pecuária de Corte (Nepec) da Universidade Federal de Lavras (UFLA) está conduzindo um experimento para investigar os efeitos da suplementação proteica na gestação sobre o desempenho das crias após o nascimento. O estudo está sendo realizado no Setor de Bovinocultura de Corte do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras utilizando vinte e cinco vacas Tabapuã e suas crias (Bos taurus indicus) em dois anos consecutivos (totalizando cinquenta pares vacas-bezerros em cada ano). No terço médio da gestação, as vacas foram submetidas a diferentes níveis de alimentação – Controle: fornecimento de uma dieta controlada de baixa qualidade (simulando pastagem de seca), com 5,5% de proteína bruta (PB) e sal mineral; ou Suplemento: mesma dieta basal, porém, acrescida de suplementação proteica (suplemento com 40% de PB ao nível de 3,5 g/kg de peso vivo). Desde 200 dias de gestação, todas as vacas passaram a receber exatamente o mesmo tratamento, com uma dieta de média qualidade, até o parto. No pós-parto, todos os animais foram alocados em piquete de Brachiaria decumbens cv. Marandú e houve o fornecimento de suplemento energético-proteico para os bezerros via sistema creep-feeding. Os bezerros foram desmamados aos 205 dias de idade e confinados aos 240 dias de idade, fase que está acontecendo atualmente e que terá duração de 187 dias.

    Com os resultados preliminares obtidos, observou-se que os filhos de mães em restrição (tratamento controle, simulando uma pastagem de seca) nasceram 4,9 kg mais leves comparados aos filhos de mães que receberam a suplementação. Além disto, ao nascimento dos bezerros, também foi nítida a diferença em relação ao vigor dos animais de diferentes grupos. Ao desmame, filhos de mães que tiveram os requerimentos nutricionais atendidos via suplementação no terço médio da gestação, desmamaram 14 kg mais pesados do que os bezerros (as) cujas mães não receberam suplemento (211 vs 197 kg). Na primeira fase do confinamento (chamada de sequestro, com duração de 65 dias) também houve diferença em relação ao desempenho. Filhos de mães suplementadas ganharam 138 gramas a mais por dia (P = 0,016) em relação a filhos de mães que não tiveram sua nutrição corrigida no terço médio da gestação, o que atualmente representa aproximadamente R$ 0,70 por animal/dia. Esta resposta é reflexo da programação fetal, pois na fase de confinamento o desempenho é dependente exclusivamente da capacidade produtiva do bezerro e não mais das mães, como na cria.

    Embora o experimento ainda não tenha sido concluído, pode-se perceber que a suplementação materna durante a gestação pode ser uma estratégia efetiva para melhorar o desempenho da progênie ao longo de toda a vida.

    Pesquisas recentes realizadas pelo Grupo de Pesquisa em Nutrição Gestacional e Programação Fetal (UFLA/UFV) têm mostrado a importância de não descuidar da vaca durante a gestação. Fique atento: se falta nutrição adequada às vacas durante a gestação, poderá faltar desempenho aos bezerros e bois oriundos dessas vacas ao longo de toda a vida!

    *¹Karolina é zootecnista pela UFV, tem mestrado em Bioengenharia pela UFSJ e cursa Doutorado em Zootecnia pela UFLA;
    ²Alyce é graduanda em Zootecnia pela UFLA;
    ³Marcio é zootecnista, Mestre e Doutor em Zootecnia pela UFV e professor de Nutrição de Ruminantes da UFV. É um dos líderes do Grupo de Pesquisa em Nutrição Gestacional e Programação Fetal do CNPq;
    4Mateus é zootecnista pela Udesc, Mestre e Doutor em Zootecnia pela UFV e professor de Bovinocultura de Corte da UFLA. É um dos líderes do Grupo de Pesquisa em Nutrição Gestacional e Programação Fetal do CNPq. Coordena o Núcleo de Estudos em Pecuária de Corte (Nepec – http://www.nucleoestudo.ufla.br/nepec/).

    Fonte: Portal DBO



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