• Sustentabilidade
  • Reformar ou Recuperar o pasto degradado?

    03/06/2021
    Como escolher a melhor opção e planejar.

    As gramíneas tropicais – que compõe o pasto – são um dos principais fatores que permitem ao Brasil ter o maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 220 milhões de cabeças. Pelo fato de as pastagens serem uma fonte de alimento consideravelmente menos custosa que suas alternativas, existem ainda muitas operações extensivas em nosso país. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos aproximadamente 160 milhões de hectares de pastagens que existem no Brasil, estima-se que 60 milhões de hectares estão com algum grau de degradação (Gráfico 1).

    Este cenário está mudando. Segundo o Censo Agropecuário 2017, divulgado pelo IBGE, a área de pastagens natural caiu 18,7%, entre 2006 e 2017, enquanto as pastagens plantadas tiveram um aumento de 9,1%. O Censo reporta que desde 1975 as pastagens naturais estão sendo substituídas por pastagem plantada, que são mais produtivas. Ainda dados do censo, o rebanho evoluiu 4,43% no mesmo período, o que ilustra o crescimento de produtividade. Este aumento do rebanho e redução das áreas de pastagens se devem muito pelo melhoramento genético das plantas, com lançamentos de cultivares mais produtivas, menos susceptíveis a pragas e a doenças e mais responsivas à adubação. Além disso, o melhor manejo dentro das fazendas colaborou com esta evolução de produtividade, com melhores critérios para movimentação de animais nos piquetes, uso de adubação, controle de invasoras, entre outros. Embora o desempenho da pecuária brasileira evolui com os anos, ainda está muito abaixo de seu potencial.

    A degradação das pastagens pode ocorrer por diversos motivos, como o uso inapropriado do solo, uso de forrageiras inadequadas para a área, falta de medidas conservacionistas, superpastejo e a não reposição de nutrientes no sistema. Quando estes elementos ocorrem na operação, o barato sai caro.

    A Lei de Liebig (que estabelece que o desenvolvimento de uma planta será limitado pelo nutriente deficitário, mesmo que todos os outros elementos ou fatores estejam presentes) pode ser aplicada também à operação pecuária. O “nutriente deficitário” é o pasto degradado, que não consegue oferecer o alimento suficiente para o gado, que por sua vez não engorda. Uma operação em que o boi não engorda, não tem lucro.

    Possíveis deficiências que um pasto degradado pode trazer para o animal.

    A gramínea oferece além de proteína e energia, diversos nutrientes. Estes nutrientes afetam diretamente no desempenho animal quando estão em falta. Digamos que um animal tenha energia e proteína suficiente para ter um ganho médio diário de 1 kg, porém algum mineral como o fósforo, por exemplo, esteja em deficiência (comum em pastagens tropicais), e limita o ganho a 0,8 kg/dia. Em 150 dias, o animal ganharia 30 kg a menos – 1 arroba – devido a deficiência de fósforo. Neste caso estamos contando apenas a deficiência de um nutriente, porém este prejuízo pode ser maior.

    O exemplo do fósforo é um, de vários possíveis, uma vez que os minerais exercem funções diversas no organismo do ruminante e nos microrganismos do rumem, segundo a Embrapa Gado de Corte:

    • Cobre: Diretamente ligado à formação da hemoglobina, maturação da hemácia e no funcionamento do sistema enzimático. Participa da formação do tecido ósseo e conjuntivo e do sistema imunológico. Ele é importante para a integridade do sistema nervoso central e da musculatura cardíaca. Encontra-se distribuído em todos os tecidos do organismo, principalmente sob a forma de metaloproteínas, funcionando como enzima.
    • Cálcio: Maiores problemas com animais que consomem altos níveis de concentrado, pois as plantas apresentam mais Ca do que P, e normalmente estes problemas são relativos a alta quantidade de P em relação ao Ca. Uma dieta deficiente de cálcio pode ocasionar, principalmente em animais jovens, alterações no desenvolvimento ósseo, raquitismo e crescimento retardado.
    • Fósforo: Geralmente é deficiente em pastagens no Brasil. Exerce função estrutural para o animal, sendo sua falta limitante de crescimento.
    • Sódio: O capim não apresenta Na suficiente (para o bovino). Este atua nos tecidos e fluidos corporais como eletrólito para manutenção do equilíbrio acidobásico, da pressão osmótica e da permeabilidade das membranas celulares.

    Cobalto e zinco também são responsáveis por quadros de deficiência nos bovinos, mesmo que subclínicos, e até mesmo a falta do selênio pode trazer prejuízo, causando distrofia muscular.

    Reformar ou recuperar o pasto? Qual a diferença entre as duas práticas e o que se deve levar em consideração na tomada de decisão.

    A maior diferença entre recuperar e reformar o pasto é a necessidade do sistema. A escolha pela reforma ou recuperação do pasto depende do grau de degradação e da população de forrageira que ainda existe no local, já que existem áreas degradadas em que as invasoras já tomaram conta, e quase não existe mais pasto. Em áreas que ainda existe uma população razoável de plantas desejadas, deve-se analisar a recuperação. Para determinar o grau de degradação, segundo Sttodart et. al. (1975), alguns estágios de degradação podem ser facilmente identificados e são característicos da maioria das pastagens degradadas, sendo eles: distúrbio fisiológico da espécie dominante; mudança na composição botânica; e invasão por novas espécies. Quando a área se encontra em um estágio mais avançado de degradação, pode-se ocorrer o desaparecimento da espécie dominante e, posteriormente, o desaparecimento das invasoras, comprometendo as condições de estabilidade do solo. Basicamente, existem dois parâmetros principais para avaliar o estágio de degradação do solo: diminuição de produção e mudança na composição botânica.

    Determinado o estágio de degradação e a decisão, recuperar ou reformar, está na hora do próximo passo. O sucesso da operação depende do planejamento e projeção da exploração. No planejamento da reforma, para uma formação de sucesso do pasto, é importante entender qual o local para implantação da forragem, a escolha das espécies forrageiras, análise, preparo do solo, correção e adubação, cuidados no plantio e época de plantio, qualidade da semente, densidade da semeadura, profundidade de plantio e compactação, condições de umidade, controle de plantas invasoras e utilização da pastagem.

    Escolha da área: Cada área apresenta uma topografia característica, que por sua vez têm seus métodos de preparo de solo recomendados, assim como a escolha das plantas forrageiras;

    Escolha da espécie forrageira: Cada ecossistema apresenta características diferentes, das quais as diferentes espécies forrageiras se beneficiam mais ou menos. Para formar um pasto sustentável, é necessário conhecer as peculiaridades ambientais, como o clima, solo e topografia. Também é importante conhecer o histórico da área, como a espécie que era utilizada, o nível tecnológico, a produtividade de anos anteriores, quais invasoras tinham predominância, e as pragas e doenças existentes na área. Mostramos na Tabela 1, adaptada de Santos et al. (dados não publicados), as principais espécies por ano de lançamento e empresa:

    Tabela 1: Espécie e Cultivar por ano e empresa.

    Fonte: Santos et. al., dados não publicados. Adaptado pelo autor.

    Pedro Silvestre de Lima

    Vivo a pecuária desde que nasci. Já fui monitor do curso Especialização em Nutrição de Ruminantes e Pastagens da ESALQ/USP durante dois anos e meio, trabalhei com consultoria técnica, empreendedorismo, mercado e inovação na pecuária de corte. Hoje atuo no fomento e disseminação de informações úteis e relevantes, com foco no lucro sustentável para o produtor rural.

    Con curadoria Boi a Pasto.



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