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  • Temple Grandin: Práticas de bem-estar animal traz vantagens para o gado e para o pecuarista

    18/07/2018
    Pesquisadora norte-americana Temple Grandin está no Brasil e fala sobre a preocupação com o bem estar animal e sua importância para obter-se mais produtividade na fazenda. Ela é uma das maiores autoridades científicas do mundo, neste assunto, que desenvolveu por causa de sua história pessoal, ao descobrir-se portadora da Síndrome de Asperger (Autismo). Inspira milhares de pessoas e até virou filme em 2010.

     

    São inúmeras as vantagens para o produtor pecuarista ao adotar práticas de bem-estar animal, segundo o professor e zootecnista Mateus Paranhos, da UNESP Jaboticabal e diretor do Instituto ETCO - Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal. Segundo ele, tratar bem os animais “reduz perdas, permite a conquista de novos mercados, atende pressão da sociedade e é uma chave para a sustentabilidade. Além disso, devemos considerar que os animais são seres sencientes e isso deve ser respeitado”. As afirmações de Paranhos foram dadas na apresentação à imprensa da pesquisadora norte-americana e professora doutora do departamento de zootecnia da Universidade do Estado do Colorado (EUA), Temple Grandin, considerada referência mundial em bem-estar animal.

    Temple Grandin está no Brasil para disseminar boas práticas de bem-estar animal e a agenda que irá cumprir começou dia 17 de julho na capital paulista, com palestra sobre autismo para pais e cuidadores no Teatro Gamaro, no bairro da Mooca. No dia 18, participou de workshop sobre bem-estar animal e, dia 19, encerra sua participação com sessão de pôsteres acadêmicos. Ela veio ao País, à convite da JBS, da Boehringer Ingelheim e da Tortuga, marca da DSM, em parceria com o Grupo ETCO). Autista, Grandin identifica detalhes que passam despercebidos pela maior parte das pessoas e entende de forma única o comportamento animal. Diz que, “assim como os animais, entendo e penso as coisas como imagens e não como palavras”. Com isso, numa carreira de mais de 40 anos, desenvolveu o chamado “manejo racional” em unidades produtivas, trazendo uma série de recomendações que se mostram eficientes para melhorar o bem-estar dos bovinos e reduzir o índice de acidentes.

    Na coletiva, ao falar sobre o manejo racional, foi enfática ao afirmar que novas tecnologias não são suficientes para resolver todos os problemas na pecuária. “Somente 50% se resolve com tecnologia. Os outros 50% são resolvidos com o manejo correto”. Mas, para isso, segundo a pesquisadora, “é preciso que as pessoas que lidam com o rebanho sejam treinadas. Nem todos tem o dom de trabalhar corretamente com os animais. Somente alguns entendem o gado. As demais pessoas, seriam boas para trabalhar com máquinas. Não servem para a lida com os animais”.

    Apesar de todo seu trabalho e a dedicação de anos em disseminar conceitos e técnicas para que os animais sejam bem tratados, Templo Grandin entende que, no final, esses animais irão morrer para nos alimentar. “É claro que serão abatidos. Acham que teríamos gado se as pessoas não comessem todos os dias? Seriam apenas animais engraçados nos zoológicos. Não, nós os criamos para nós. Significa que devemos a eles todo o nosso respeito. A natureza pode ser mais cruel que os homens, mas não precisa ser. Temos que dar a esses animais uma vida que valha a pena ser vivida. Na verdade, uma vida decente, porque tudo vai morrer um dia. Podemos facilmente fazer de forma que não sintam dor e nem se assustem”.

    Grandin também foi enfática e crítica ao avaliar a situação no Brasil. Disse que muitas práticas devem ser mudadas e, nesse contexto, referiu-se ao desmatamento: “Este é um País tropical, de grande extensão. Não é possível que o País continue abrindo novas áreas para colocar o gado. Parem com isso. Parem de desmatar”. E, ao ser questionada sobre a preocupação com a sustentabilidade, afirmou que prefere identificar primeiro o que não é sustentável. “Desmatamento não é sustentável. Monocultura não sustentável, pois destrói o solo. Monocultura pode gerar mais receita a curto prazo, mas no longo prazo destrói o solo e causa prejuízos. O uso inadequado da água também não é sustentável. Então o correto é identificar o que não é sustentável e que possa ser evitado. É um conceito difícil de compreender, mas que deve ser uma preocupação constante”.

    Mateus Paranhos também comentou essa preocupação que, segundo ele, interfere na qualidade da propriedade, na qualidade de vida do trabalhador e dependendo da situação interfere no próprio ambiente. “Temos vários exemplos de pastagens degradadas, de solo degradado, erosão, assoreamento... Isso também é produto de mau trato ao meio ambiente, e consequentemente, maus tratos aos animais; de falta de compromisso com a sustentabilidade”. E, para Temple Grandin, o mais importante “é a atitude do gestor, do proprietário, independentemente do tamanho da propriedade, porque muitas vezes acham que vão encontrar uma solução mágica, usando alguma tecnologia comprada no mercado. E se esquecem do manejo”.

    Ao abordar a questão do embarque de animais vivos, assunto que tem dominado o noticiário nas últimas semanas, com a exportação de animais para a Turquia e que gerou muitas manifestações contrárias à exportação, principalmente de ativistas pelos direitos animais no Porto de Santos (SP), a professora de zootecnia da Universidade do Colorado observou que é um tipo de comércio “que pode ser feito, mas de forma limpa. Não dá para descartar carcaça, não dá para fazer em condições ruins. Na Austrália, por exemplo, onde é frequente o transporte de animais vivos, eles tiveram que limpar todo o sistema. O modo de transporte, os veículos que são usados, tudo teve que ser transformado”.

    E, ao falar sobre os novos mercados que podem ser conquistados com a adoção de práticas de bem-estar, Temple Grandin referiu-se aos mercados norte-americano e europeu, onde nota-se “cada vez mais interesse no bem-estar animal. Há mais preocupação da sociedade nesse aspecto, com a preferência dos consumidores, mais exigentes”. Sobre o abate religioso, como o Halal e o Kosher, Grandin disse que há duas questões a serem consideradas: “A primeira é como manejar, o que deve ser feito de maneira correta, racional, e depois com o abate propriamente dito, para efetuar os cortes de acordo com os princípios religiosos. Já há uma preocupação, por exemplo, de autoridades islâmicas, que já estão mudando o tipo de abate. No Brasil, sabemos que já estão usando eletricidade, tornando o abate mais humanitário”.

    O bem-estar na cadeia produtiva

    As práticas de bem-estar animal foram desenvolvidas com embasamento científico e têm por objetivo avaliar e favorecer as questões de saúde, emocionais e de comportamento natural para que o animal alcance melhores índices de qualidade de vida. De forma prática, a Organização Mundial de Saúde (OMS), defende a adoção do novo princípio, “de uma vida que vale a pena ser vivida”, que implica na necessidade, em geral, de minimizar experiências negativas e, ao mesmo tempo, proporcionar aos animais oportunidades de experiências positivas. Esse conceito tem implicações para revisar e potencialmente atualizar padrões mínimos em códigos de bem-estar. Assim, os procedimentos ganham cada vez mais relevância tanto na indústria quando entre os consumidores finais, que exigem das empresas o cumprimento de boas práticas de bem-estar na produção de proteína animal.

    Temple Grandin

    Temple Grandin, 70 anos, é membro do Comitê Científico da Certified Humane e uma das mais respeitadas no mundo quando o assunto é manejo de bovinos.  A Ph.D. em Animal Science, é a autora do AMI Guidelines (Recomendações de Manejo Animal & Guia de Auditoria), uma publicação de referência para a indústria no que se diz respeito ao abate e transporte humanitários de bovinos, suínos e ovinos.

    Apesar da mudança no comportamento do consumidor, ela reconhece que há muito o que avançar na conscientização das pessoas. Para prevenir, de fato, o sofrimento dos animais, a especialista acredita que o trabalho de certificação e manutenção com auditorias, como o da Certified Humane, são essenciais.

    Para cumprir essas exigências e obter o selo de bem-estar animal, os produtores devem se adaptar a algumas normas que asseguram que os animais terão uma vida digna. Para Temple Grandin, o confinamento restritivo deve ser eliminado. Com relação ao abate de bovinos, os pontos que merecem atenção em plantas frigoríficas são a quantidade de bovinos de corte insensibilizados no primeiro disparo da pistola pneumática, a quantidade de animais inconscientes antes de içar, mugidos ou grunhidos emitidos na baia de insensibilização, quedas e o número de animais conduzidos com bastão elétrico.

    Com todo esse conhecimento, Temple Grandin revolucionou o tratamento racional de animais de produção nos Estados Unidos e em diversos países no mundo, inclusive no Brasil. Atualmente, ela ministra cursos na Universidade Estadual do Colorado quanto ao comportamento de rebanhos e projetos de instalação, além de prestar consultoria para a indústria pecuária em manejo, instalações e cuidado de animais.

    Além disso, sua história de superação, por conta da Síndrome de Asperger (Autismo), inspira milhares de pessoas e já até virou filme em 2010, quando foi mencionada pela revista Time na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo na categoria “Heróis”.

    Por José Luiz da Silva, da Redação do Portal Boi a Pasto

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     



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