• Nutrição
  • Uma nova revolução

    06/12/2018
    Eficiência alimentar passa a ser grande preocupação dos principais selecionadores de bovinos do País. A característica promete conferir maior competitividade à produção de carne vermelha.

    Eficiência alimentar gera lucros na gestão do negócio pecuário, independentemente da conjuntura / Foto: Divulgação Rancho da Matinha

      Ivaris Junior, da Redação do Portal Boi a Pasto

    Alguns avanços tecnológicos, muitas vezes simplesmente no modo de fazer, provocaram verdadeiras revoluções – até certo ponto silenciosa – na bovinocultura de corte brasileira, nas últimas décadas. A chegada do zebu no final do século XIX, o advento da braquiária na década de 60, a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a inseminação artificial, a suplementação mineral, a transferência de embriões e a apuração das Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs), são algumas delas. Em algumas delas, o setor nem se deu conta, engolido pela rotina do dia a dia, já que elas se tornaram sucessivas e recorrentes, atualmente mais e mais, em um menor espaço de tempo. Nos últimos anos, penetramos no movediço terreno da genômica e, mais recentemente, da eficiência alimentar.

    Os principais programas de melhoramento genético, unidades da Embrapa e institutos de pesquisa como o IZ, fazendas universitárias e iniciativas privadas estão concentrando esforços na compreensão e identificação de genéticas que atendam os anseios. O pioneiro da seleção por eficiência alimentar no Brasil é Luciano Borges Ribeiro, conhecido nelorista do Rancho da Matinha, em Uberaba (MG), que já fez dezenas de reprodutores em centrais de inseminação e líderes de sumários de avaliação genética. Depois de ter conhecido inúmeros trabalhos acadêmicos e experiências sobre eficiência alimentar nos EUA, a partir de 2005; em 2011 ele investiu R$ 1,2 milhão em equipamentos importados daquele país para começar a mensuração do seu rebanho. Como resultado de sete temporadas avaliando a característica, seus ganhos bateram em 20%.

    A eficiência alimentar

    O conceito não é recente. Vem dos anos 70. Mas atualmente ele ganha muita força, dependendo da conjuntura em que é necessário ser ponderado. Um animal, qualquer que seja, precisa de um determinado volume de ração (dieta) para apresentar pleno desenvolvimento, manifestação de potencial zootécnico e desempenho no trabalho. Como na bovinocultura extensiva a alimentação do gado representa por volta de 70% dos custos de produção, mais competitiva ela será se puder fazer mais ou as mesmas coisas com menos recursos. Isso significa que a característica é de suma importância para uma gestão que entende que o gerenciamento de gastos é um dos critérios mais importantes para a ampliação das margens de lucro.

    Para se ter uma ideia, há 20 anos, um frango precisava em média de 3kg de ração para produzir 1kg de peso. Depois de exaustivas pesquisas e melhoramento genético constante, nos dias de hoje esse parâmetro caiu para 1,8kg de ração para cada 1kg de peso. A economia é de 40%. E quem não precisa de tamanha eficiência dentro da fazenda ou do confinamento? Borges explica que um ganho de 20% de eficiência no rebanho – animais que consomem 20% menos comida – permite que o pecuarista possa aumentar o volume de animais na propriedade também em 20%; esteja ele em qualquer produção: de bezerros, de animais recriados e de engorda a pasto ou em confinamento.

    Então, diante de uma pecuária de corte cada vez mais pressionada por culturas mais rentáveis, restrita a terras cada vez mais pobres e de ambientes inóspitos, além de dependente de insumos quase que dolarizados, a eficiência alimentar ganhou enorme importância e econômica, uma resposta de médio e longo prazos à sobrevivência da atividade. Quando o Rancho da Matinha começou a sua seleção, identificou animais extremos que precisavam de até 16kg de matéria seca (MS) para ganhar 1kg de carne. Hoje, no outro extremo, já disponibiliza sêmen no mercado de tourinhos que precisaram de apenas 3,8kg de MS para cada 1kg que ganhou. A média do rebanho já está em 8kg.

    Luciano Borges Ribeiro, titular do Rancho da Matinha, em Uberaba (MG) / Foto: Divulgação Rancho da Matinha

    A tecnologia para medir a eficiência alimentar dos animais foi desenvolvida há 50 anos e, além de proporcionar ganhos econômicos expressivos, nos dias atuais é valorizada em função de que estudos apontam que animais que consomem menos alimentos, emitem menos gases de efeito estufa (GEE); ou seja, colaboram com a preservação do meio ambiente. Para se mensurar a característica é preciso que um equipamento quantifique o que cada animal consome, individualmente, hoje de forma eletrônica. Desse modo, compara-se o desempenho de cada bovino envolvido na prova. Há duas correntes preponderantes na melhor avaliação.

    Argeu Silveira, consultor da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), entidade responsável por apurar vários programas de melhoramento genético, entre eles o Nelore Brasil, explica que uma dessas duas correntes pondera apenas o consumo alimentar. “O quanto o animal consumiu para cada quilograma de peso que ele ganhou. A outra é o Consumo Alimentar Residual (CAR). Após o período de alimentação, o consumo alimentar residual é calculado como a diferença entre o consumo alimentar observado (CA, kg/dia) e o consumo estimado por meio de ajustes para peso médio metabólico (PMM, kg0.75) e taxa de ganho de peso (GMD, kg/dia). Assim, animais que apresentam consumo alimentar residual negativo (baixo CAR) são mais eficientes em razão de consumirem menos que a quantidade necessária predita para um mesmo ganho em peso, quando comparados a animais com consumo alimentar residual positivo (alto CAR). A ANCP apresenta DEPs para consumo alimentar e também para consumo alimentar residual.

    Silveira, no entanto, explica que a eficiência alimentar é de extrema importância, mas apenas mais um número dentro da seleção. “É preciso ter atenção. A DEP de CAR deve desempatar animais bons ganhadores de peso, pois ela pode dar um número de aparente eficiência para um animal péssimo ganhador de peso. Da mesma forma ela não distingue animais que ganham gordura excessiva ou mesmo somente musculatura. Então, é preciso sempre avaliar a precocidade produtiva e reprodutiva, sem nada de excessos”, ressalta. O consultor também dá assistência à Agronova, empresa com propriedade em Barra do Garças (MT). Trata-se de mais um criatório que mensura eficiência alimentar e, em 2018, avaliou a terceira geração de animais, cerca de 400 deles. Na ocasião, segundo Silveira, foi identificado um animal que precisa de apenas 3kg de dieta para cada 1kg que ganha de peso.

    Instituto de Zootecnia (IZ) também avalia

    Outra seleção importante da raça Nelore que trabalha com eficiência alimentar é a do Instituto de Zootecnia, unidade de Sertãozinho. O IZ pertence à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Fundado em 15 de julho de 1905, tem por missão “desenvolver e transferir tecnologias e insumos para a sustentabilidade dos sistemas de produção animal”.

    Desde a década de 50 o IZ desenvolve pesquisas científicas com bovinos e o curso da evolução dessas pesquisas foi marcado pelo estudo pioneiro e fomento de inúmeras tecnologias, onde se destacam: a primeira prova de ganho de peso de bovinos de corte; primeira seleção do gado Caracu; a introdução no Estado de São Paulo de raças europeias leiteiras especializadas; seleção de raças indianas, como o Gir leiteiro; cruzamentos entre zebuínos e taurinos para obtenção de raças mais rústicas e produtivas; inseminação artificial em bovinos; introdução do controle leiteiro no estado de São Paulo; implantação do programa de melhoramento genético de animais da raça Nelore; implementação da seleção para consumo Alimentar Residual (CAR) de bovinos da raça Nelore; e primeiro centro de pesquisa a implantar um sistema de alimentação automática (Growsafe).

    Segundo Renata Helena Branco Arnandes, diretora geral do IZ, o instituto avalia essa característica desde 2005, mas somente começou a melhor incorporar os resultados dessa genética em sua seleção, em 2010. O órgão de pesquisa quer entender como se manifesta a seleção dessa característica, entendê-la e conferir se ela afetou de alguma forma a característica ganho de peso, mensurada no IZ desde a década de 70. Na temporada, a casa avaliou toda sua geração de machos, por volta de 350 cabeças do Nelore. Além da raça zebuína, avalia ainda seu rebanho de Caracu, desde 2016, e animais Senepol de parceiros. Como os testes de CAR acontecem em duas etapas (verão e inverno), o IZ mensurou em 2018, cerca 1,2 mil bovinos.

    Branco partilha do entendimento de Silveira de que o CAR “não pode ser trabalhado isoladamente dentro de nenhum rebanho”. O IZ que possui três rebanhos de Nelore: em um deles seleciona para peso aos 378 dias (em prova de ganho de peso), em outro para peso e eficiência alimentar, dentro de um modelo misto. O instituto ainda avalia outras características produtivas, como peso na desmama, área de olho de lombo, acabamento de carcaça (espessura de gordura), perímetro escrotal (PE) e peso aos 550 dias para as fêmeas, sempre tendo o cuidado de não incluir animais com DEPs negativas para PE nem habilidade maternal.

    Como a seleção do IZ se dá para CAR e outra característica, Branco relata que a experiência até aqui aponta para uma herdabilidade de média a baixa, pois vários são os fatores que interferem no desempenho animal. Entre eles a sua exigência de mantença. Se chega ao índice CAR primeiro apurando o consumo de matéria seca de cada bovino, naquele período de aplicação do teste, depois o peso médio metabólico e o ganho de peso médio diário do período. Ao término das contas chega-se a um número que pode ser positivo ou negativo. O que se pretende identificar são os animais negativos, pois foram eles que comeram menos para alcançar o desempenho esperado. A diretora reforça que o animal tem de ser eficiente no CAR e em todos os demais critérios. O IZ é o único instituto de pesquisa que trabalha com os dois equipamentos de mensuração individual e diária, disponível no mercado, tanto o norte-americano da GrowSafe, quanto o nacional da Intergado.

    Animais da Matinha dispõe de equipamento importado GrowSafe para mensurar o consumo alimentar do seu rebanho / Foto: Divulgação Rancho da Matinha

    Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (Embrapa - CNPGC)

    A unidade de Campo Grande (MS) da Embrapa, com seu Geneplus, também está avaliando a eficiência alimentar de seu banco de dados. Gilberto Menezes, zootecnista com doutorado em Genética e Melhoramento, pesquisador da Embrapa Gado de Corte em melhoramento genético animal, é quem relata o trabalho, atualmente realizado somente com as raças Senepol e Nelore. A estrutura para a raça zebuína, totalmente eletrônica, permite avaliar até 300 animais por etapa, e está em funcionamento desde 2016. Desde então, a unidade realizou sete rodadas de avaliações, sendo duas em 2018. Os cerca de quase 800 bovinos submetidos são todos pertencentes ao programa Embrapa/Geneplus e passaram por rigorosa análise antes de entrarem nas provas (até 16% de IQG – Índice de Qualificação Genética).

    Outro rigor é que todos esses reprodutores Nelore estão dentro do programa de avaliação genômica do Geneplus, de modo que em 2019, a unidade também deverá lançar DEP genômica para eficiência alimentar, além da existente DEP fenotípica. Já na raça Senepol, a Embrapa trabalha com animais lotados na Fazenda da Grama, em Pirajuí (SP), propriedade do pecuarista Júnior Fernandes. Em apenas um único teste, os animais da raça Centro-Americana utilizaram as instalações de Campo Grande. Menezes é o supervisor do programa “Safiras do Senepol” desde 2015. Diferente da Nelore, a Senepol submete aos testes fêmeas e não touros. A Grama já avaliou mais de 2 mil delas.

    Como resultado desse trabalho, que também pretende alcançar DEP genômica para eficiência alimentar, em 2018, a Senepol gerou informações de mais de 50 touros com 10 filhas cada, avaliadas para a característica. Isso resultou no lançamento do “Topázio Senepol”, uma prova exclusiva para bovinos machos. Com a ampliação da base de dados, o Geneplus deverá incorporar este trabalho. A Associação Brasileira de Criadores de Senepol (ABCSenepol) também monitora as informações, que estão em compatibilidade com as obtidas no Centro de Performance da Central CRV Lagoa (CP Lagoa). A empresa também apura eficiência alimentar em sua tradicional e anual prova de touros.

    A unidade de Campo Grande trabalha firmemente na ampliação de sua base de dados, condição para aumentar a acurácia de suas predições. Neste sentido, entre outras parcerias em estudo, está incorporando as informações resultantes dos oito anos de trabalho pioneiro do Rancho da Matinha, de Luciano Borges (Uberaba, MG); e também do Programa de Melhoramento Genético das raças Zebuínas (PMGZ), levado pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Já a Embrapa geral, além dessas frentes citadas, ainda realiza testes de eficiência alimentar na unidade Pecuária Sul (Bagé, RS), com as raças Hereford e Braford; e na unidade Arroz e Feijão (Santo Antônio de Goiás, GO), outra que também avalia o desempenho do Nelore, mas na variedade mocha.

    Universidades com importante papel

    Também as universidades estão se voltando ao estudo da eficiência alimentar. Uma das primeiras a acertar o passo foi a Universidade Federal de Uberlândia (Uberlândia, MG), que possui estreitas parcerias com criadores para realizar seus testes. Entre eles estão selecionadores de Senepol, pela ABCSenepol, com provas realizadas em 2016 e 2017, sob a supervisão da professora e doutora Carina Ubirajara. Mas a UFU tem história na avaliação da CAR desde 2013. Ainda no Triângulo Mineiro, mais recentemente, por meio de um convênio assinado com a ABCZ e a Intergado, a Faculdade de Agronomia e Zootecnia de Uberaba (FAZU) ampliou sua competência. A instituição é quem avalia a eficiência alimentar dos animais selecionados do Programa Nacional de Avaliação de Touros Jovens, levado pelo PMGZ/ABCZ.

    Na primeira prova oficial, em 2017, participaram somente animais da raça Nelore, cerca de 87 exemplares, das categorias de 18 a 21 meses, de 21 a 24, de 24 a 27 e de 27 a 30 meses. Em 2018, porém, o número de bovinos inscritos foi 30% superior; desta vez incluindo as raças Sindi, Brahman e Tabapuã. Para 2019, a professora Juliana Pascoal, uma das supervisoras da prova, espera novo crescimento do volume de animais. Para suportar a demanda, a Faculdade ampliou suas instalações para 200 cabeças, por prova. Além disso, investiu na padronização de procedimentos com agilidade de entrega e transparência das informações obtidas. Durante o período de avaliação, as pesagens ocorrem a cada duas semanas. A exemplo da UFU, a FAZU também avalia eficiência alimentar por meio da ponderação do Consumo Alimentar Residual (CAR). Para a docente, “a eficiência alimentar é fator preponderante na pecuária moderna, um caminho sem volta para uma atividade que precisa da exploração sustentável”, conclui.

    * Texto de Ivaris Junior – Redação do Portal Boi a Pasto

     



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