“Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/
É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da
apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império
de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um
enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao
colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao
Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.
A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico
nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória
construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao
desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a
raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar
diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e
se expressa culturalmente.
Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça
responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão,
sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais,
baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir
escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de
um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi
silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore
do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a
“cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael,
Junior Marques e Carlos Jr.
Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser
restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário
coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente,
entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida
funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse
compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi
Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/
É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.
A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de
ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente,
tropical e competitivo, construído com base em seleção genética,
adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo
que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de
carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.
À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e
pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa
história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado
por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão
disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e
o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível,
aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da
pecuária na vida nacional.
Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença
permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira
– hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando
avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados
à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a
consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo
com a sociedade.
O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a
pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte
brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida,
ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade,
história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.
Por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos
Criadores de Nelore do Brasil (ACNB)





