Seca prolongada, piora das pastagens e aumento do custo da suplementação podem alterar decisões de venda e retenção de animais em um mercado que já opera com o boi gordo acima de R$ 350 por arroba.

A possível formação de um El Niño nos próximos meses pode provocar mudanças importantes na pecuária de corte brasileira. Mais do que impactos diretos sobre a produção, pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) avaliam que o fenômeno tem potencial para alterar decisões de venda, retenção e reposição de animais, influenciando a oferta de gado e aumentando a volatilidade dos preços da arroba.
Os principais efeitos esperados concentram-se em quatro frentes: qualidade das pastagens, disponibilidade de água, estresse térmico e custos de suplementação.
As preocupações são maiores no Centro-Oeste e no Norte do país, regiões em que a irregularidade das chuvas e as temperaturas mais elevadas podem comprometer a recuperação das pastagens justamente na transição entre o período seco e o chuvoso.
Para a pesquisadora de Pecuária do Cepea, Natália Grigol, o impacto do clima vai além do desempenho imediato dos animais. “Além dos efeitos sobre ganho de peso e ritmo de terminação, existe um ponto estratégico para os sistemas de cria: a condição corporal das matrizes. O período entre maio e outubro é decisivo para preparar as fêmeas que entrarão na estação reprodutiva”, afirma.

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Segundo ela, caso a seca se prolongue, as pastagens percam qualidade ou a suplementação fique mais cara, a recuperação do escore corporal das vacas pode ser prejudicada. “Isso afeta fertilidade, taxa de prenhez e o desempenho reprodutivo do ciclo seguinte. Os efeitos de um evento climático podem se estender por muito mais tempo do que uma única estação”, diz.
Pasto pior pode acelerar vendas
A deterioração das condições das pastagens costuma ter reflexos imediatos nas estratégias adotadas pelos pecuaristas.
Em momentos de menor disponibilidade de forragem, muitos produtores antecipam a venda de animais para evitar perdas de peso ou reduzir a pressão sobre as áreas de pastagem.
O pesquisador de Pecuária do Cepea Giovanni Penazzi afirma que essa movimentação pode alterar rapidamente a dinâmica de mercado. “Quando o produtor percebe dificuldade para manter o desempenho do rebanho, a venda antecipada se torna uma alternativa para preservar caixa e evitar aumento dos custos. Isso pode ampliar temporariamente a oferta de animais”, explica.
Por outro lado, ele alerta que o cenário também pode dificultar a recomposição futura dos plantéis. “Se os custos de

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suplementação e reposição permanecerem elevados, a decisão de retenção se torna mais complexa. Isso pode limitar a oferta de animais nos ciclos seguintes e aumentar a sensibilidade dos preços às oscilações de mercado”, afirma.
Mercado já opera em ambiente sensível
O alerta dos pesquisadores ocorre em um momento em que o mercado do boi gordo trabalha em patamares historicamente elevados.
No dia 08 de junho, o Indicador do Boi Gordo Cepea/Esalq foi cotado a R$ 353,15 por arroba, acumulando alta de 0,99% no mês.
Embora maio tenha registrado alguma pressão negativa sobre os preços, a arroba permanece em níveis que exigem atenção redobrada dos agentes do setor.

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Para o pesquisador de Pecuária do Cepea Thiago Carvalho, o mercado está particularmente sensível a qualquer alteração na oferta. “Quando os preços estão elevados, mudanças no ritmo de terminação, retenção ou descarte tendem a ter reflexos mais rápidos nas cotações. O clima passa a ser um fator ainda mais relevante para a formação dos preços”, afirma.
Ele destaca que a preocupação não está apenas em uma eventual quebra de produção. “O El Niño pode afetar a pecuária por vários canais ao mesmo tempo. Dependendo da intensidade do fenômeno e da região atingida, os impactos podem aparecer na produção de pasto, nos custos de alimentação, no desempenho dos animais e, consequentemente, na oferta de gado para abate”, diz.
Planejamento ganha importância
Diante da possibilidade de um cenário climático mais instável, os pesquisadores recomendam atenção especial à formação de reservas alimentares, ao monitoramento da condição corporal das matrizes e ao planejamento dos custos de suplementação.
Para eles, em um mercado de margens apertadas e preços elevados, antecipar decisões e reduzir vulnerabilidades pode ser decisivo para atravessar um eventual período de maior volatilidade climática e econômica.
Mais do que prever a intensidade do El Niño, o desafio da pecuária brasileira será administrar os riscos que ele pode impor à produção e ao equilíbrio do mercado nos próximos meses.
Fonte: O Presente Rural






