outubro 8, 2026

ILPF garante maior produtividade e sustentabilidade no campo

RS é o terceiro estado com maior área de adoção da tecnologia e tem 2.21 milhões de hectares com alguma modalidade de integração

Foto: Ivonei Sandro Librelotto / Fazenda Librelotto, de Boa Vista das Missões

A integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) é uma estratégia de produção que vem crescendo nos últimos anos para enfrentar os grandes desafios da sociedade brasileira e global nas próximas décadas, como o crescimento populacional, as mudanças climáticas e a escassez de recursos. Trata-se da utilização de diferentes sistemas produtivos, agrícolas, pecuários e florestais dentro de uma mesma área.

Os sistemas de integração podem ser feitos em cultivo consorciado, em sucessão ou em rotação, de forma que haja benefício mútuo para toas as atividades. Diferentemente do senso comum, a tecnologia pode ser adotada para aumentar a produtividade com sustentabilidade na pequena, média ou grande propriedade.

Os sistemas de integração envolvem a produção de grãos, fibras, madeira, energia, leite ou carne na mesma área, em plantios em rotação, consorciação e/ou sucessão. A ILPF funciona basicamente com o plantio, durante o verão, de culturas agrícolas anuais (arroz, feijão, milho, soja ou sorgo) e de árvores, associado a espécies forrageiras (braquiária ou panicum).

Existem várias possibilidades de configuração entre os componentes agrícola, pecuário e florestal, considerando espaço e tempo disponível, resultando em diferentes sistemas integrados. Os sistemas de ILPF são constituídos por quatro modalidades: a integração lavoura-pecuária (ILP) ou sistema agropastoril; lavoura-floresta (ILF) ou sistema silviagrícola; pecuária-floresta (IPF) chamada de sistema silvipastoril; e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF),o sistema agrossilvipastoril.

A estratégia de produção está sendo adotada em vários níveis de intensidade e vem ganhando espaço em todo o Brasil. Há diversos exemplos bem-sucedidos de uso da estratégia de produção 100% brasileira nos biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. A configuração mais usada pelos produtores é a ILP.

A prática vem crescendo no Brasil. Em 2005, a área com ILPF era de 1,87 milhão de hectares, mas da safra 2015/2016 até a de 2020/2021houve um aumento estimado de 52% de áreas com ILPF no Brasil. A Rede ILPFestima que 21,8 milhões de hectares tenham atualmente algum tipo de adoção de sistemasde integração. “A ILPF está em expansão e o País conta com 159 milhões de hectares que podem ser convertidos em ILPF, ampliando produção sem necessidade de novas aberturas”, diz o presidente executivo da Rede ILPF, o empresário Francisco Matturro.

Segundo ele, os sistemas integrados não são exclusividade de fazendas de grãos e pecuária, apresentando também encaixe para propriedades de menor porte por meio de outras culturas, como, por exemplo, frutas e heveicultura. A entidade, criada em 2006, é formada por instituições como a Embrapa e empresas como Bradesco, John Deere e Syngenta, entre outras. “A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta significa a emancipação do produtor. De que forma? Porque tem uma renda de curto prazo, que são as lavouras de grãos e cereais. Tem o gado no médio prazo e o componente florestal no longo prazo”, ressalta Matturro.

Os estados que se destacam com maior área com adoção da estratégia de integração são Mato Grosso do Sul, com 3.169.987 hectares (16,25%); Mato Grosso, com 2.281.544 hectares; (7,37%) e Rio Grande do Sul, que conta com 2.216.008 hectares (31,17%). Esse último é o que possuí o maior número de propriedades participantes de alguma das modalidades. A área sob uso agropecuário no estado sulino é de 7.108.887 hectares, sendo que 20,51% possuí algum tipo de integração.

O exemplo da Fazenda Librelotto

Ivonei Sandro Librelotto / Fazenda Librelotto, de Boa Vista das Missões

A Fazenda Librelotto, de Boa Vista das Missões, município localizado na Região Norte do Rio Grande do Sul, é referência no aperfeiçoamento do sistema de produção que integra lavoura (grãos de inverno e verão) com pecuária (forragens e gado de corte). Os resultados na produção agropecuária vêm do bom planejamento forrageiro, com oferta de alimento para o gado durante o ano inteiro.

Mas a propriedade, de 135 hectares, também segue práticas como o plantio direto contínuo, rotação de culturas, utilização de sistemas de terraços For Windows (escavação do solo de modo a formar uma espécie de dique destinado a reduzir a velocidade de escoamento da chuva e quase acabar com a erosão) e preservação de mata nativa para mitigar impactos de eventos climáticos extremos, como estiagens ou chuvaradas.

A aproximação com a pesquisa ocorreu há 18 anos, quando pesquisadores da Embrapa Trigo, de Passo Fundo (RS), aceitaram o convite para visitar a propriedade e conhecer os trabalhos desenvolvidos em Integração Lavoura-Pecuária (ILP). A Fazenda Librelotto passou de pai para filho com foco na engorda de300 a 400 bovinos de corte das raças Hereford e Braford. “O nosso propósito é produzir de forma eficiente, preservando os recursos para as próximas gerações”, diz o agropecuarista, Ivonei Sandro Librelotto, que assumiu a gestão da propriedade em 2007.

A inserção de grãos sempre esteve limitada à produção de soja no verão e forragens de inverno, como aveia e azevém. Com os primeiros resultados de pesquisa, que depois também envolveu a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o produtor passou a investir na rotação gramínea-leguminosa, incluindo o milho e o trigo de duplo propósito da variedade BRS Tarumaxi, da Embrapa, no sistema de produção. Os números da propriedade mostraram que a decisão foi acertada, conforme Librelotto, que está à frente do Sindicato Rural de Palmeira das Missões (RS) desde 2022.

Com a adoção da ILP, a produtividade de grãos da Fazenda Librelotto aumentou quatro vezes. Enquanto no Estado a média da soja fica pouco acima de 50 sacas por hectare, Librelotto colhe de 70 a 80 sacas por hectare. No milho, retira da lavoura 150 sacas por hectare.As sucessivas estiagens dos últimos anos, no entanto, cobraram um preço. “A produtividade média da lavoura de soja caiu muito com as secas, mas a renda bruta da propriedade foi o equivalente a 100 sacas de soja/ por hectare/ano, enquanto a renda líquida ficou em 50 sacas de soja por hectare/ano”, afirma Librelotto. A criação de gado literalmente salvou a lavoura e pagou as contas da propriedade. O plantel, que varia de 300 a 450 cabeças, é criado em uma área de 65 hectares, sendo 50 deles de campo nativo. “Nós produzimos terneiros e terneiras”, completa.

O que é ILPF

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta é um sistema de cultivo que permite diferentes sistemas produtivos em uma mesma área, como grãos, gado e árvores, de forma que haja benefícios para todas as atividades;

Benefícios da ILPF

– Manutenção da biodiversidade e sustentabilidade da agropecuária;

– Aumento da renda líquida, permitindo maior capitalização do produtor;

– Melhoria do bem-estar animal em decorrência do maior conforto térmico;

– Aumento da produção de grãos, carne, leite, produtos madeireiros e não madeireiros em uma mesma área;

– Redução da pressão pela abertura de novas áreas com vegetação nativa;

– Mitigação das emissões de gases causadores do efeito estufa.

Fonte: Rede ILPF
Curadoria: Marisa Rodrigues para o portal Boi a Pasto

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