Pesquisa da Embrapa identificou 62 microrganismos associados à eficiência alimentar de animais Nelore e aponta possibilidade de prever ainda na recria a pasto o desempenho futuro dos bovinos

A análise de microrganismos presentes nas fezes de bovinos pode ajudar a identificar, ainda durante a recria a pasto, quais animais terão maior eficiência na conversão dos alimentos em carne. A conclusão é de uma pesquisa conduzida pela Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), com 100 tourinhos da raça Nelore.
O estudo mostrou que a composição da microbiota do sistema digestivo tem relação com a eficiência alimentar dos animais. Isso significa que a capacidade de um bovino aproveitar o pasto e transformá-lo em ganho de peso não depende apenas de sua genética, mas também dos microrganismos presentes no rúmen e no intestino.
A descoberta pode contribuir para a seleção de animais que demandam menos alimento para produzir a mesma quantidade de carne. Na prática, bovinos mais eficientes podem atingir o peso de abate em menor tempo, reduzindo os gastos com alimentação e o período de permanência no sistema produtivo.
O ganho também pode ser ambiental. Um ciclo produtivo mais curto e uma melhor eficiência alimentar têm potencial para diminuir as emissões de metano associadas à produção de carne bovina.
62 microrganismos ligados à eficiência alimentar

Iniciado em 2021, em parceria com a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), o trabalho acompanhou 100 tourinhos Nelore em três momentos: no fim do período seco, após o período das águas e na conclusão do confinamento.
A partir do DNA encontrado nas fezes, os pesquisadores avaliaram as mudanças na composição da microbiota intestinal. Ao longo do experimento, foram identificados 62 microrganismos relacionados ao Consumo Alimentar Residual (CAR), indicador utilizado para medir a eficiência alimentar independentemente do tamanho do bovino.
Um dos principais resultados foi que grande parte dos microrganismos relacionados ao CAR já estava presente nos animais durante a primeira fase da recria a pasto. Com isso, as bactérias encontradas em bovinos recém-desmamados podem ajudar a prever como esses animais irão se comportar meses depois, inclusive durante o confinamento.
Segundo a pesquisadora Luciana Regitano, coordenadora do estudo, os resultados abrem a possibilidade de prever o desempenho futuro do bovino quando ele ainda está na fase de recria.
A constatação também tem importância para o melhoramento genético. Parte da composição da microbiota é influenciada pela genética do próprio animal, indicando que características relacionadas à eficiência alimentar podem ser incorporadas a estratégias de seleção genômica.
Seca aumenta diversidade de microrganismos
A pesquisa também encontrou diferenças na microbiota de acordo com a época do ano. O período seco apresentou diversidade de bactérias superior à observada durante as águas e no confinamento.
A explicação está relacionada à qualidade da dieta. Durante a seca, os bovinos consomem alimentos mais fibrosos, favorecendo determinados microrganismos capazes de auxiliar na degradação das fibras.
“As fibras favorecem o desenvolvimento de alguns microrganismos, que, por sua vez, ajudam a quebrar essas fibras para produzir os ácidos graxos, que são a fonte de energia para os bovinos”, explica Luciana.
Somente ao fim do período seco, os pesquisadores encontraram 30 microrganismos relacionados à eficiência alimentar. Também foram identificados microrganismos associados a características como ganho de peso, espessura de gordura, área de olho de lombo, maciez da carne e reatividade dos animais.
Aplicação pode reduzir custos da engorda
A possibilidade de identificar precocemente animais com genética superior e microbiota associada à maior eficiência pode ter reflexos econômicos importantes. A alimentação está entre os principais custos da produção, especialmente durante a fase de confinamento.
Animais capazes de aproveitar melhor os nutrientes podem demandar menos recursos para atingir o peso desejado e chegar ao abate mais jovens. Além da redução dos custos, esse desempenho pode contribuir para diminuir a pegada ambiental da carne produzida.
Os resultados também poderão servir de base para novas tecnologias. Segundo Regitano, as informações coletadas podem auxiliar futuramente no desenvolvimento de aditivos, prebióticos e probióticos destinados a melhorar a eficiência da conversão dos alimentos em produtos de origem animal.
Próximo desafio é medir eficiência diretamente no pasto
Durante o experimento, os tourinhos permaneceram 12 meses em recria a pasto antes do confinamento. Os animais receberam suplementação conforme a época do ano, com sal proteinado no período das águas e silagem durante a seca.
As amostras de fezes foram coletadas em três etapas após o desmame: depois dos primeiros seis meses a pasto, no fim da seca; após outros seis meses de recria, ao término das águas; e na conclusão do confinamento.
Agora, um dos desafios dos pesquisadores é avançar na avaliação da eficiência alimentar diretamente em condições de pastejo. A etapa é considerada importante diante da predominância dos sistemas baseados em pastagens na pecuária de corte brasileira.
Se for possível associar de maneira precisa os microrganismos identificados ao desempenho dos animais no campo, a tecnologia poderá ampliar as ferramentas disponíveis para selecionar bovinos que produzam mais carne utilizando melhor o pasto e os demais alimentos disponíveis na propriedade.
Fonte: Gisele Rosso (MTE 3091/PR) / Embrapa Pecuária Sudeste
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto






