Cultivares modernas apresentam ganhos de até 20% sobre materiais tradicionais; pesquisador da Embrapa alerta que evolução genética do gado precisa ser acompanhada pela tecnologia das pastagens

Bovinos de corte em pastagem dos campos experimentais da Embrapa Gado de Corte.
A evolução genética do rebanho bovino brasileiro nas últimas décadas aumentou o potencial produtivo dos animais, mas parte das pastagens utilizadas no país ainda é formada por cultivares desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990. Para o pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados, essa diferença tecnológica pode limitar o desempenho da pecuária e reduzir a rentabilidade das propriedades.
Segundo Ayres, cerca de 80% das cultivares de forrageiras utilizadas na pecuária brasileira são tecnologias consideradas defasadas. Ao mesmo tempo, a genética animal avançou em características como ganho de peso, precocidade e rendimento de carcaça.
“Gostaria de deixar dois pontos claros: o primeiro é que o boi mudou. O boi de hoje não é o mesmo animal de 40, 50 anos atrás. E o segundo ponto é que quando falamos de forrageira e pastagem, estamos falando de tecnologia de ponta”, afirmou.
O pesquisador abordou o tema durante a palestra “Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?”, apresentada no painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte”, durante a 34ª Expoabra, em Brasília (DF).
Pasto sustenta maior parte da produção brasileira
A discussão ganha importância diante do peso das pastagens na pecuária nacional. O Brasil possui 160,5 milhões de hectares de pastagens, dos quais 62,7 milhões estão no Cerrado.
Dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) apresentados pelo pesquisador mostram que 80,14% dos bovinos abatidos no país no ano passado foram terminados a pasto.
Para Ayres, apesar da importância econômica desse recurso, a escolha das forrageiras nem sempre recebe a mesma atenção dada à genética animal, à sanidade, à reprodução ou a outros componentes do sistema produtivo.
O preço das sementes, segundo ele, ainda tem forte influência sobre a decisão do pecuarista, embora represente apenas cerca de 10% do custo total de implantação de uma pastagem.
“Por causa disso, em 2026 ainda estamos usando cultivares do século passado, desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990 com a lógica de um boi que não existe mais”, afirmou.
Novas cultivares buscam responder aos desafios do campo
Entre as alternativas disponíveis estão cultivares desenvolvidas pela Embrapa em parceria com a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto). Os materiais buscam responder a problemas como pragas e doenças, falta de alimento durante a seca, qualidade nutricional e dificuldades nas transições entre estações.
Uma das mais recentes é a BRS Carinás, híbrido de Brachiaria decumbens lançado em abril deste ano. A cultivar representa uma evolução em relação à tradicional Basilisk, conhecida como capim-braquiarinha.
Além da tolerância a solos ácidos e com baixos níveis de fósforo, a Carinás apresenta cobertura mais rápida do solo, maior produção de biomassa e folhas e teor de proteína entre 13% e 14%. Os resultados apresentados indicam potencial de produção de 13 arrobas por hectare ao ano.
Outra alternativa é a BRS Paiaguás, de Brachiaria brizantha, desenvolvida para ampliar o período de pastejo na transição entre águas e seca. Em comparação com a BRS Piatã, apresenta ganho médio diário por animal cerca de 80% superior e taxa de lotação aproximadamente 40% maior durante o período seco.
Para sistemas intensificados com pastejo rotacionado, a BRS Zuri é uma opção de porte alto e com maior resistência a problemas fitossanitários. Em experimentos comparativos, apresentou ganho médio diário e taxa de lotação entre 10% e 15% superiores aos do capim Massai, considerando os períodos de chuva e seca.
Já a BRS Tamani, de porte mais baixo e elevada produção de folhas, é indicada para sistemas intensivos e responde à adubação nitrogenada.
Alternativa para solos de menor fertilidade
Para áreas de menor fertilidade, outra opção apresentada foi a BRS Sarandi, cultivar de Andropogon gayanus lançada em 2022, 42 anos depois da Planaltina, primeira cultivar de forrageira tropical desenvolvida pela Embrapa.
O material é direcionado principalmente aos sistemas de cria e recria e apresenta adaptação a solos de baixa fertilidade, pedregosos e arenosos.
Uma das características destacadas é a capacidade de rebrotar rapidamente na transição entre seca e período chuvoso. Ayres recomenda que o material seja utilizado estrategicamente em cerca de 20% a 30% da propriedade, especialmente nas áreas de solos mais rasos e menos férteis.
Experimentos realizados pela Embrapa Cerrados indicaram produção entre 10 e 15 arrobas por hectare ao ano, teor de proteína entre 7% e 11%, produção de forragem entre 11 e 15 toneladas por hectare ao ano e capacidade de lotação de três unidades animais por hectare.
Ganho pode superar R$ 3 mil por hectare
Além dos efeitos produtivos, a adoção de materiais mais recentes pode ter impacto direto na renda das propriedades.
Dados apresentados por Ayres mostram que a BRS Paiaguás proporciona ganho econômico 7% superior ao da BRS Piatã, equivalente a R$ 1.035 adicionais por hectare ao ano.
Na comparação entre BRS Carinás e Basilisk, o ganho chega a 13%, ou R$ 483 por hectare ao ano. A mesma diferença foi apontada entre BRS Zuri e Mombaça.
A BRS Tamani apresenta resultado econômico 9% superior ao Massai, uma diferença estimada em R$ 1.593 por hectare ao ano.
Entre os materiais apresentados, um dos maiores resultados aparece na BRS Quênia. A cultivar proporciona ganho 17% superior ao Mombaça, equivalente a R$ 3.243 adicionais por hectare ao ano. Já a BRS Sarandi supera a BRS Planaltina em 20%, com acréscimo estimado de R$ 1.275 por hectare ao ano.
“Esses números são o que os produtores estão deixando de ganhar por não usarem essas cultivares modernas. As diferenças de ganhos em apenas um ano certamente vão pagar a diferença de custo das sementes, que é pequena”, afirmou Ayres.
Na avaliação do pesquisador, o efeito econômico deve ser analisado também ao longo da vida útil da pastagem, que pode permanecer na propriedade durante vários anos.
Pecuária moderna exige mais das pastagens
A necessidade de atualização das pastagens também está relacionada à transformação dos próprios animais.
De acordo com os dados apresentados na palestra, no modelo tradicional de produção o peso médio de carcaça variava entre 210 e 220 quilos, com abate entre 36 e 42 meses e rendimento de carcaça entre 50% e 52%.
Na pecuária considerada moderna, o peso médio de carcaça chega a 290 a 310 quilos, aproximadamente 80 quilos a mais. A idade de abate caiu para 18 a 24 meses, enquanto o rendimento de carcaça avançou para 54% a 56%.
Apesar dos avanços, a produtividade média brasileira ainda é de 67,7 quilos de carcaça por hectare ao ano. Segundo os números apresentados, 76% dos produtores, equivalentes a aproximadamente 1,12 milhão de propriedades, estão abaixo dessa média.
Para Ayres, elevar esse desempenho passa por combinar genética animal, reprodução, nutrição, sanidade, gestão e evolução das pastagens.
“Se o boi mudou, temos que mudar o pasto também. Não é só capim, é tecnologia de ponta. Seu pasto precisa produzir mais, durar mais, responder melhor ao manejo, sustentar mais animais, gerar mais arrobas e entregar mais resultado”, concluiu.
Fonte: Breno Lobato (MTb 9417/MG) / Embrapa Cerrados
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto






