Especialistas alertam que estiagem reduz produção, proteína e capacidade de suporte dos pastos; manejo do solo, ajuste da lotação, suplementação e formação de reservas de alimento ajudam a atravessar o período crítico.
Por: Camila Gusmão Especial Boi a Pasto Mudanças Climáticas

A chegada do período seco muda a dinâmica das pastagens e exige que o pecuarista esteja preparado para trabalhar com menor produção de forragem e perda gradual da qualidade nutricional do capim. Sem planejamento, a redução da oferta de alimento pode comprometer o desempenho do rebanho, aumentar os custos com suplementação e ainda favorecer a degradação das áreas de pastagem.
Segundo a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste Patrícia Menezes Santos, a produção de capim naturalmente diminui durante a seca e, por isso, o produtor precisa antecipar as decisões sobre alimentação e capacidade de suporte da propriedade.

Santos. Foto: Gisele Rosso
“No período seco do ano, a produção do capim é mais baixa e o produtor precisa buscar alternativas para manter a capacidade de suporte do pasto e alimentar o rebanho adequadamente. Quando o produtor não planeja adequadamente o sistema, falta alimento e o desempenho dos animais é prejudicado”, afirma.
O planejamento deve começar antes da estiagem. Patrícia explica que o primeiro passo é estimar quantos animais precisarão ser alimentados em cada mês e comparar essa demanda com a capacidade de suporte das pastagens tanto nas águas quanto na seca. Caso o pasto não seja suficiente, é necessário definir alternativas com antecedência.
Entre as opções estão a vedação de pastagens, suplementação alimentar, conservação de forragem, confinamento e utilização de forrageiras de inverno. A combinação mais adequada depende da região, do sistema produtivo e do perfil de cada propriedade.
Solo e manejo ajudam pastagem a enfrentar a seca

Para Hemython Luis Bandeira do Nascimento, engenheiro-agrônomo, doutor em Zootecnia e gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Semembrás (foto), três fatores determinam diretamente o crescimento das plantas: água, luz e temperatura. Como a disponibilidade hídrica cai durante a estiagem, o crescimento da pastagem tende a ser interrompido.
Embora o produtor não consiga controlar a chuva, pode adotar práticas que ajudem a planta a chegar mais preparada ao período crítico.
“O que a gente pode fazer para que esse pasto sofra menos, pelo menos no período de transição, é construir um perfil de solo que ajude no desenvolvimento do sistema radicular”, explica Nascimento.
Segundo ele, correção e condicionamento do solo, uso adequado de calcário e nutrientes como fósforo e enxofre contribuem para o desenvolvimento das raízes. Outro ponto fundamental é evitar o pastejo excessivamente intenso antes da estiagem.
“Um pasto que foi pastejado de forma muito intensa e está muito rebaixado gasta muito as suas reservas orgânicas e, no momento da seca, vai estagnar o crescimento ainda mais rápido. Além disso, corre-se o risco de chegar à seca com esse pasto sem estoque de forragem para os animais”, destaca.
Menos proteína e mais fibra
Além de reduzir a quantidade disponível, a seca também interfere na composição nutricional do capim. Com a interrupção do crescimento, a planta perde água e qualidade. Dependendo do manejo realizado no fim das águas, pode haver maior presença de talos e fibras e queda no teor de proteína.
“O que cai principalmente em relação à qualidade é o teor de proteína”, destaca Nascimento.
Nesse cenário, a suplementação pode ser utilizada para melhorar o aproveitamento da forragem disponível. Segundo o especialista, suplementos com maior teor de proteína e, em determinadas situações, de nitrogênio favorecem a microbiota ruminal e ajudam o bovino a aproveitar melhor um alimento mais fibroso e de menor qualidade.
A pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, Patrícia Menezes Santos lembra que a pastagem é um alimento volumoso e, portanto, possui naturalmente maior teor de fibra que concentrados como milho e farelo de soja. O objetivo deve ser equilibrar a dieta para atender às necessidades nutricionais do rebanho de maneira economicamente viável.
Na seca, produtor passa a administrar estoque
Uma mudança importante de estratégia ocorre quando a estiagem se estabelece. Nesse momento, o produtor deve considerar que o crescimento e a rebrota do pasto serão limitados e que, na prática, estará administrando o estoque de forragem acumulado anteriormente.
Nascimento recomenda conhecer a quantidade de massa disponível por hectare e relacioná-la ao número e ao peso dos animais que permanecerão na área.
“Durante o período seco, depois de um pastejo, esse pasto não vai rebrotar nem ter um novo fluxo de emissão de folhas. Então, o produtor vai trabalhar com o que tem disponível ali e terá que saber administrar esse estoque até o final do período seco”, alerta Nascimento.

Como referência para o planejamento, o especialista cita uma estimativa média de consumo diário de forragem correspondente a cerca de 2,5% do peso corporal do animal. A partir do peso médio do rebanho, da quantidade de capim disponível e da duração prevista da seca, é possível dimensionar melhor a lotação da área.
O planejamento, porém, deve começar ainda durante as águas. Entre as estratégias estão vedar piquetes para acumular massa, reduzir previamente a taxa de lotação e retirar da propriedade animais de descarte, prontos para abate ou destinados à venda.
Silagem de milho ou capim, confinamento de determinadas categorias, Terminação Intensiva a Pasto (TIP) e integração lavoura-pecuária também podem complementar o planejamento alimentar e diminuir a pressão sobre as pastagens durante os meses mais críticos.
No Sul, campo nativo pode ser aliado
As condições regionais também precisam ser consideradas. Segundo Soraya Tanure, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a falta de água afeta as pastagens em todo o país, mas as diferenças aparecem principalmente nas espécies utilizadas em cada região.

No Sul, o campo nativo ganha importância por sua rusticidade e diversidade. De acordo com a pesquisadora, quando bem manejado, pode proporcionar no verão ganhos médios diários de peso bovino comparáveis aos obtidos em pastagens cultivadas.
“A chave para o sucesso está no manejo. Trata-se de um alimento extremamente rico, capaz de fornecer aos animais proteína e energia de forma balanceada, por contar em sua composição com valiosas espécies de gramíneas e leguminosas.”
Soraya destaca que em um metro quadrado de campo nativo podem existir mais de uma centena de espécies forrageiras, enquanto o Bioma Pampa reúne mais de 300 espécies de gramíneas e leguminosas.
Para preservar esse potencial durante períodos de seca, é fundamental evitar a superlotação e ajustar a carga animal à capacidade de suporte da área. Manter uma altura adequada da vegetação permite que os bovinos selecionem partes mais verdes e nutritivas do pasto mesmo quando as plantas mais altas apresentam aparência seca.
Bernardo Pötter é pecuarista no Rio Grande do Sul onde sua família começou com a atividade no ano de 1944. Com produção de gado de corte nos municípios de Santana do Livramento e Quaraí, ele conta que no Rio Grande do Sul o clima é bem diferente que em outras regiões do Brasil, não é tropical, por isso chove praticamente o ano todo, então existem estiagens pontuais que não ‘obedecem’ a estações do ano. Ele já teve dois episódios de situações de perdas extremas um no ano de 1988 e outro em 2023 quando tiveram que vender boa parte do gado devido a falta de pasto.

“Então de acordo com a época do ano em que essas secas ocorrem as estratégias são diferentes, porque se a seca ocorre durante o verão, em que temos temperaturas muito altas, basicamente é problema com água e pasto seco. Porém se essa seca acontece no outono nos prejudica muito porque afeta a germinação das pastagens de inverno, então consequentemente afeta a alimentação dos animais no inverno, aqui temos essas pastagens de inverno que produzem muito então com seca no outono prejudica o inverno subseqüente e se tem seca na primavera prejudica o rebote das pastagens de verão”, comenta o pecuarista.

Suplementação e diferimento ajudam a preservar o campo
No Sul, a suplementação com sal proteinado ou proteico-energético pode ser combinada ao ajuste da lotação. Feno de boa qualidade e silagem também podem complementar o campo nativo e diminuir a pressão dos animais sobre a área.

“Na preparação, planejamento é a palavra-chave. O produtor deve buscar antecipadamente, na sua região, fontes de alimentação que possuam bom custo-benefício e fazer um pequeno estoque destes alimentos”, recomenda Soraya.
Outra possibilidade é o diferimento do campo, técnica em que determinada área permanece sem pastejo durante alguns meses para acumular massa e ser utilizada posteriormente, justamente quando a disponibilidade de alimento diminui.
Extremos climáticos ampliam desafio
A preocupação não está restrita à falta de chuva. Segundo Soraya, mudanças no regime de precipitação podem afetar tanto a quantidade quanto a qualidade das pastagens. Chuvas excessivas no início do ciclo podem prejudicar o estabelecimento das plantas, enquanto excesso de precipitação no fim do ciclo pode aumentar o pisoteio e deixar áreas de solo descobertas.
“O manejo segue sendo o mais importante em períodos extremos. Saber quando colocar os animais sobre as pastagens e saber quando retirá-los é a chave do sucesso para a preservação do ambiente”, afirma.
Também não existe uma única espécie forrageira capaz de resolver os problemas provocados pela estiagem ou pelo frio. A escolha deve considerar clima, solo, sistema produtivo e características de cada região. No calor, entre as opções citadas pela pesquisadora estão braquiárias, Tifton 85, milheto e capim Aruana. Para o inverno no Sul, são comuns azevém, aveias, triticale e leguminosas como ervilhaca e trevo.
O ponto em comum entre as recomendações dos especialistas é a necessidade de antecipação. A seca não começa, do ponto de vista do manejo, quando a chuva para. Preparar o solo, acumular forragem, ajustar a lotação e definir previamente as estratégias de suplementação são medidas que permitem atravessar o período crítico com menor impacto sobre as pastagens e sobre o desempenho do rebanho.
Por: Camila Gusmão Especial Boi a Pasto Mudanças Climáticas






