Mesmo com abundância de pastagens no período chuvoso, desequilíbrios nutricionais podem limitar o desempenho do rebanho; suplementação adequada melhora produtividade e rentabilidade

A abundância de pasto durante a estação das águas ainda leva muitos pecuaristas a reduzir ou suspender a suplementação do rebanho. A lógica, baseada na alta oferta de forragem, nem sempre se sustenta na prática. Especialistas alertam que, mesmo nesse período, há limitações nutricionais que podem comprometer o desempenho dos animais e a eficiência do sistema produtivo.
Para Thiago da Silva, doutor em nutrição de ruminantes e cientista líder do Campanelli Innovation Center (CIC), a alta produção de capim não elimina os desafios. “Apesar da boa oferta e do teor adequado de proteína, ainda existem gargalos como baixa densidade energética em pastagens jovens, desequilíbrios minerais e limitações de consumo, especialmente em animais jovens”, afirma.
A avaliação é reforçada por Mariana Lisboa, gerente nacional de Nutrição da Supremax. Segundo ela, o crescimento acelerado das forrageiras tropicais no período chuvoso provoca diluição de nutrientes. “Parte da proteína é rapidamente degradada no rúmen e a energia disponível pode ser menor do que o necessário para sustentar altos ganhos de peso”, explica.
Cria: suplementação acelera desempenho inicial
Na fase de cria, o leite materno ainda é a principal fonte de nutrientes, mas não garante desempenho máximo. O desafio, segundo os especialistas, está na proteína efetivamente aproveitada pelo animal e na limitada capacidade de ingestão dos bezerros.
Em sistemas extensivos, a suplementação mineral pode ser suficiente. Já em sistemas mais intensivos, o uso de suplementos proteicos ou proteico-energéticos — como o creep-feeding — ganha relevância.
“Essa estratégia aumenta o ganho médio diário, o peso à desmama e estimula o desenvolvimento do rúmen”, destaca Thiago da Silva.
De acordo com Mariana Lisboa, os resultados podem incluir ganhos adicionais entre 100 e 300 gramas por dia e desmamas até 40 quilos mais pesadas. Além disso, há impacto positivo no desempenho futuro dos animais.
Recria: fase decisiva para eficiência
A recria é considerada uma das etapas mais sensíveis do ciclo produtivo, mesmo nas águas. É nesse período que o animal expressa alto potencial de crescimento e forma sua estrutura corporal.

“A qualidade do pasto nem sempre acompanha essa demanda”, explica Silva. A suplementação proteica, nesse contexto, melhora o ambiente ruminal, aumenta a digestibilidade da fibra e pode elevar o consumo de forragem em até 50%.
Os níveis de suplementação variam conforme o sistema produtivo. Em modelos extensivos, giram entre 0,1% e 0,3% do peso vivo, enquanto sistemas intensificados podem chegar a 0,6% ou mais.
“Cada 100 gramas adicionais de ganho diário na recria pode representar semanas a menos até o abate”, destaca Mariana.
Reprodução: nutrição define fertilidade
A estação de monta, frequentemente coincidente com o período chuvoso, também depende diretamente do manejo nutricional.
Vacas com bom escore de condição corporal apresentam maior taxa de ciclicidade, melhor manifestação de cio e maiores índices de concepção. A suplementação, nesse cenário, ajuda a manter o equilíbrio energético e mineral.
Fósforo, zinco, cobre, selênio e manganês estão entre os minerais mais críticos nas pastagens tropicais. “Deficiências podem comprometer a fertilidade e aumentar o intervalo entre partos”, afirma Mariana Lisboa.
Segundo Thiago da Silva, a nutrição adequada reduz o tempo entre parto e nova concepção, elevando a eficiência reprodutiva do rebanho.
Terminação: energia define o ritmo de abate


Na fase final, a exigência energética dos animais aumenta significativamente. Mesmo com pasto de alta produção, a suplementação é decisiva para garantir ganho de peso e acabamento de carcaça.
Suplementos proteico-energéticos elevam a densidade da dieta, melhoram a eficiência alimentar e reduzem o tempo de permanência no sistema. Estratégias como semiconfinamento e terminação intensiva a pasto (TIP) têm se consolidado, com níveis de suplementação que podem chegar a 2% do peso vivo.
“Produção de massa não significa alta energia disponível. Para acabamento, é necessário excedente energético consistente”, ressalta Mariana.
Com manejo adequado, a suplementação pode antecipar o abate entre 30 e até 90 dias, além de aumentar a produtividade por área.
Menor ciclo, maior rentabilidade
Ao integrar suplementação nas diferentes fases — cria, recria, reprodução e terminação — o produtor consegue encurtar o ciclo produtivo e aumentar a eficiência da operação.
Animais bem nutridos desde cedo chegam mais pesados à terminação, exigem menos tempo de engorda e podem ser abatidos entre 18 e 24 meses, com melhor padronização de carcaça.
Para os especialistas, o principal ponto é encarar a suplementação como investimento. “Nem sempre reduzir custo significa maior lucro. O resultado está na relação entre desempenho e retorno econômico”, afirma Silva.
Na mesma linha, Mariana Lisboa conclui: “Quando bem planejada, a suplementação transforma a estação das águas em uma oportunidade de intensificação sustentável e aumento de produtividade na pecuária a pasto.”
Fonte: Redação Boi a Pasto – Especial Suplementação nas Águas






