julho 23, 2024

Darcy Ribeiro quis unir floresta e escola em um Brasil inclusivo

Nascido h√° 100 anos, pensador encarnou utopia de pa√≠s que foi travada pela estupidez Darcy Ribeiro dedicou-se a¬†incont√°veis tarefas em sua riqu√≠ssima trajet√≥ria pessoal¬†e profissional, todas unidas por sua paix√£o pelo Brasil. Filho da gera√ß√£o modernista de 1922, ele norteou seu projeto inclusivo de pa√≠s pelo desejo de combinar natureza e cultura, a contribui√ß√£o ind√≠gena e a europeia, f√≥rmula ut√≥pica e poderosa hoje sob ataque nas celebra√ß√Ķes do centen√°rio do pensador. Quando ocorreu¬†o vel√≥rio de Glauber Rocha em 1981, no Parque Lage, no Rio de Janeiro, a como√ß√£o foi enorme. Morria ali n√£o apenas o cineasta de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “Terra em Transe” (1967), mas uma rara for√ßa de imagina√ß√£o cr√≠tica sobre o Brasil. Em meio √† consterna√ß√£o, um homem aparentando cerca de 60 anos, perto do caix√£o, come√ßou a falar, com semblante concentrado e s√©rio, olhos apartados, n√£o sei se por causa da tristeza do momento ou pela luminosidade do dia. Pode-se ver a cena no¬†belo document√°rio de Silvio¬†Tendler. O homem tem no tom de sua voz e no conte√ļdo das palavras uma firmeza certeira que est√° √† altura do significado do acontecimento para o pa√≠s. Dizia que Glauber foi capaz de gozos e excessos, por√©m mais ainda de dor, da nossa dor. Conta que um dia Glauber passou a manh√£ inteira chorando junto a ele, um choro que todos dev√≠amos chorar: a dor de todos os brasileiros, as crian√ßas com fome, o pa√≠s que n√£o deu certo, a brutalidade, a estupidez, a mediocridade, a tortura. Diz que¬†os filmes de Glauber s√£o um lamento, um grito, um berro¬†e que esta √© a heran√ßa por ele deixada: indigna√ß√£o. Ele foi o mais indignado de n√≥s. Indignado com o mundo tal qual √©. Isso porque, tamb√©m mais que n√≥s, Glauber podia ver o mundo que podia ser. O homem que dizia tudo isso era Darcy Ribeiro ‚ÄĒe, se o dizia com seguran√ßa, √© porque as palavras poderiam descrev√™-lo tamb√©m. Darcy foi muitas coisas na sua vida, e ele mesmo confessava isso:¬†antrop√≥logo, etn√≥logo indigenista, professor, educador, reitor, militante, ministro, senador, romancista. Nada disso, entretanto, dava-lhe, ao olhar no espelho, a imagem difusa de quem n√£o se identifica. O que conferia unidade √† variedade era, √† semelhan√ßa do que enxergara na imagem de Glauber, a paix√£o e a luta pelo Brasil, que, sem renunciarem a gozos e alegrias,¬†sabem sentir a dor e a tristeza do pa√≠s, por tudo o que √© e poderia ser: “O Brasil como Problema” (1995), como diz o t√≠tulo de um livro seu. Tamb√©m ele viveu a modernidade do s√©culo 20, como observava sobre Glauber, oscilando em um p√™ndulo entre desespero e esperan√ßa. Darcy nasceu em Minas Gerais em outubro de 1922, poucos meses ap√≥s o evento mais famoso do movimento cultural do modernismo no Brasil,¬†a Semana de 22, em fevereiro daquele ano. Curiosamente, ele encarnou, com tons heroicos ao longo da vida, um ide√°rio modernista que juntava o esfor√ßo intelectual te√≥rico a um projeto de na√ß√£o para o Brasil. Como M√°rio e Oswald de Andrade, mas tamb√©m como Glauber, sua vida criativa esteve em estreita rela√ß√£o com sua terra. O projeto de Brasil pensado por Darcy poderia ser resumido ‚ÄĒconfirmando que pelo nome modernismo pode-se entender tanto apenas o movimento art√≠stico de vanguarda paulista dos anos 1920 quanto um pensamento de que ele √© parte e diz respeito, mais amplamente, ao processo de moderniza√ß√£o do pa√≠s‚ÄĒ na¬†sucinta f√≥rmula escrita por Oswald de Andrade em seu “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”¬†(1924): a floresta e a escola. Cifrava-se, a√≠, a expectativa de que a forma√ß√£o do Brasil aproximasse a natureza da cultura e combinasse a contribui√ß√£o ind√≠gena nativa da floresta √† contribui√ß√£o europeia urbana da escola. Darcy Ribeiro foi¬†a tentativa veemente de fazer no Brasil esse projeto inclusivo de forma√ß√£o. E o foi n√£o apenas em suas pesquisas e seus livros, mas nas falas e na vida. Sua trajet√≥ria te√≥rica foi dedicada a refletir, apaixonadamente, sobre “o povo brasileiro”, t√≠tulo de seu √ļltimo livro (1995); povo gestado “da conflu√™ncia, do entrechoque e do caldeamento do invasor portugu√™s com √≠ndios silv√≠colas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos”. Empenhou-se, de acordo com um evolucionismo de tons ut√≥picos,¬†em construir na materialidade social um pa√≠s √† altura dessa mistura, na combina√ß√£o de floresta e escola. Viveu quase dez anos junto a aldeias ind√≠genas do Pantanal e da Amaz√īnia, entre 1947 e 1956. Teve contato com os kadiw√©us, no sul do Mato Grosso, e os urubu-ka√°por, no norte. Sua curiosidade sobre eles era mais que um mero of√≠cio ou trabalho, enraizando-se em uma sensibilidade est√©tica rara. “Eu queria compreender seu veemente desejo de beleza, expresso em cada um dos seus artefatos, feitos com muito mais primor que o necess√°rio para cumprir sua fun√ß√£o utilit√°ria”, dizia, porque “a fun√ß√£o verdadeira que os √≠ndios buscam em seus fazimentos √© a beleza”. Romanticamente, Darcy via nos √≠ndios mais carinho que briga e mais harmonia que viol√™ncia, na rela√ß√£o entre si e com a natureza. Nos t√≠tulos de seus livros antropol√≥gicos dessa √©poca, fica evidente o que chamava sua aten√ß√£o: “Kadiw√©u: Ensaios Etnol√≥gicos sobre o Saber, o Azar e a Beleza” (1950), “Culturas e L√≠nguas Ind√≠genas do Brasil” (1957) e “Arte Plum√°ria dos √ćndios Kaapo” (1957). H√° saber, beleza, cultura, l√≠ngua e arte. Para Darcy, os povos ind√≠genas n√£o eram um objeto de estudo somente,¬†mas um motivo de encantamento e de fascina√ß√£o. Sua produ√ß√£o n√£o seria despersonalizada ou mercantilizada. Manteria a criatividade. Em uma formula√ß√£o emblem√°tica, Darcy v√™ se expressar nas rela√ß√Ķes sociais entre os √≠ndios e deles com a natureza uma “vontade de beleza”. Essa rela√ß√£o dos povos ind√≠genas com a natureza, que Darcy identificou e valorizou desde a d√©cada de 1940, ganha ainda mais relev√Ęncia no s√©culo 21, ou seja,¬†quando o modelo civilizat√≥rio da modernidade ocidental consuma sua destrui√ß√£o do meio ambiente, amea√ßando a vida de toda a humanidade. Sem o alarde que s√≥ poderia aparecer depois da conscientiza√ß√£o sobre o aquecimento global e o colapso clim√°tico, Darcy enaltecia o contato dos √≠ndios com