Agricultura e a silvicultura vêm ganhando espaço. no Pampa, que se estende do Brasil ao Uruguai e Argentina

O bioma Pampa, que abrange a metade meridional do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, o Uruguai e as províncias argentinas de Buenos Aires, La Pampa, Santa Fé, Córdoba, Entre Ríos e Corrientes, vem sofrendo com o avanço da agropecuária nos últimos 40 anos. O bioma, que, no Brasil, ocupa 19,4 milhões de hectares – 2,3%do território nacional – perdeu 3,8 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2023, conforme levantamento do MapBiomas, projeto que reúne universidades, Organizações Não-Governamentais (ONGs) e empresas de tecnologia em uma iniciativa que busca monitorar as transformações na cobertura e uso do solo no Brasil.
Em 1985, 45% dos municípios no Pampa tinham predomínio da agricultura (cultivo de soja e arroz principalmente), segundo o MapBiomas. Em 2024, esse número aumentou para 64% dos municípios.No período avaliado, a agropecuária avançou de 28% para 45% no bioma Pampa. E a maior parte da perda ocorreu nas formações campestres, que diminuíram cerca de 3,9 milhões de hectares no período (queda de 9,8 milhões de hectares para 5,9 milhões de hectares).
O estudo do MapBiomas aponta ainda que a área cultivada com soja passou de 827 mil hectares em 1985para 3,2 milhões de hectares em 2024, aumento de 385%. Já a silvicultura passou de 44 mil hectares para 738 mil hectares no mesmo período, alta de 1.566%. A expansão da silvicultura – principalmente florestas de pinus, eucalipto e acácia – ocorreu de modo concentrado na Serrado Sudeste e na Zona Costeira do Rio Grande do Sul. O projeto de celulose de US$ 4,6 bilhões da chilena CMPC, no município de Barra do Ribeiro, na Região Metropolitana, deve aumentar a pressão.
Menor índice de conservação

“Proporcionalmente, o Pampa é o que tem o menor índice de conservação entre todo os biomas e, em média, cerca de 130 mil hectares de vegetação campestre são perdidos anualmente nos últimos dez anos”, afirma o engenheiro agrônomo e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Carlos Nabinger. “Mas, infelizmente ele representa apenas 2,3% do território nacional e todas as atenções estão voltadas para a Amazônia. No entanto, o bioma Pampa anteriormente ocupava 67% do território do Rio Grande do Sul”, acrescenta o agrônomo, uma das principais referências científicas na defesa e manejo sustentável dos campos nativos.
O especialista alerta criticamente que a rápida degradação e descaracterização do bioma Pampa ocorre devido à substituição da vegetação nativa por monoculturas (como a soja) e pela silvicultura, além do manejo inadequado do solo. Ele questiona frequentemente a lógica econômica de trocar a rica pastagem nativa por lavouras homogêneas. “A situação é realmente preocupante, tanto que me fez voltar a trabalhar”, brinca Nabinger, que integra a mesa diretiva da AlianzadelPastizal/Brasil.

O agrônomo ressalta que o Pampa abriga uma biodiversidade fantástica que oferece serviços cruciais além da produção de carne, tais como a fixação de carbono no solo, manutenção e regulação da qualidade da água, proteção e abrigo para polinizadores naturais e controle biológico de pragas e doenças. “Essa espetacular biodiversidade é que determina os serviços ecossistêmicos tão necessários à existência do próprio homem: qualidade do ar e do solo, controle de enxurradas, reabastecimento de mananciais e qualidade da água, polinização de culturas, fornecimento de fármacos e plantas ornamentais e, claro, a produção de carne, leite, couro e lã sem qualquer custo ambiental”, destaca.
E demonstra, que, ao contrário do senso comum que associa a pecuária ao desmatamento, que a pecuária sobre campo nativo é a maior aliada da conservação do Pampa. Uma das ferramentas é o manejo sem insumos, “Tomando por exemplo, a produção de carne bovina, a pesquisa, e muitos pecuaristas, têm demonstrado a possibilidade de produzir mais de 200 quilos de peso vivo por ha/ano em sistema de recria, apenas com práticas de manejo simples como ajuste da carga animal e diferimentos. Ou seja, sem o uso de qualquer insumo externo. Mas isso também é possível, por exemplo, agregando espécies cultivadas e adubação numa pequena parte do campo (no máximo 20%)”, ensina.
Colheita de sementes nativas
O especialista acredita que é possível recuperar os campos nativos degradados pelo mau uso e que já há uma demanda neste sentido, tanto de produtores como de pesquisadores. A dificuldade, no entanto, é a ausência de sementes nativas à venda no mercado. Embora as centenas de espécies vegetais necessárias existam nos refúgios de campos bem conservados, faltam cadeias comerciais e incentivos consolidados para colher, multiplicar e comercializar essas sementes em larga escala para a restauração ecológica.

Nabingerlembra que, em parceria com pesquisadores de universidades como a Ufrgs e a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), a AlianzadelPastizal e a Embrapa Pecuária Sul, de Bagé (RS), está sendo desenvolvida uma máquina colhedora de sementes de campos nativos. “O equipamento foi inspirado na colhedora experimental Taita, do Uruguai e colhe as sementes que estão maduras por meio de cerdos”, explica Nabinger. Além da construção da máquina, o projeto busca avaliar o potencial de colheita de sementes nativas, germinação e recuperação de áreas degradadas.
Na primavera-verão a máquina colheu sementes na Estação Experimental da Ufrgs, em Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Estas sementes serão semeadas em área degradada em experimento de restauração ecológica de campos nativos. Os testes estão sendo realizados em uma propriedade na localidade de Ponche Verde, em Dom Pedrito, na Campanha Gaúcha, onde antes havia uma lavoura de soja. E também na Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã, reserva de proteção natural entre os municípios de Alegrete e Santana do Livramento.

“A cada colheita é possível recolher 60 tipos diferentes de gramíneas. Essas sementes estão sendo multiplicadas e os resultados preliminares são animadores”, adianta o professor, que é mestre em Fitotecnia, doutor em Zootecniapela Ufrgs, com formação vinculada também ao InstitutAgronomique Paris-Grignon, na França. O especialista lembra que o Pampa é formado por nove diferentes ecossistemas, com características próprias de clima e solo. “É preciso que os produtores colham essas sementes para podermos produzir todos os tipos de materiais dessas áreas”, sublinha.
O especialista observa que não é contrário à agricultura, silvicultura ou pecuária, mas critica o avanço dessas atividades em áreas onde não deveriam estar presentes. “A agropecuária é a principal atividade desmatadora no País e a soja tem avançado muito”, completa.

O que é o Pampa?
O bioma Pampa se estende por 83,3 milhões de hectares espalhados por três países da América do Sul (Argentina, Brasil e Uruguai). Mais da metade fica na Argentina, já o restante se divide entre o Brasil e o Uruguai. Em território brasileiro o bioma se restringe ao Rio Grande do Sul.Ele é caracterizado por uma vegetação herbácea nativa constituída por uma mistura de gramíneas e ervas. Em um único metro quadrado de campo já foram encontradas mais de 50 espécies de plantas. Espécies lenhosas como subarbustos e árvores isoladas podem estar presentes, mas com baixa cobertura.

Por: Marisa Rodrigues e equipe, especial para o portal Boi a Pasto






