abril 29, 2026

Agro brasileiro sob risco de encarecimento com escalada da guerra no Oriente Médio

Milho, soja e carnes lideram embarques ao Oriente Médio, agora sob risco de fretes mais caros com o fechamento do Estreito de Ormuz

A escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã entrou no quinto dia nesta quarta-feira, 04. O quadro amplia a instabilidade no Oriente Médio e acende um alerta direto para o agronegócio brasileiro.

Embora o conflito ocorra a milhares de quilômetros das lavouras brasileiras, seus efeitos devem ser sentidos nos custos de produção, na logística de exportação e no mercado global de energia. Dados do ComexStat mostram que o comércio bilateral entre Brasil e Irã somou US$ 2,9 bilhões em exportações em 2025 — recuo de 2,7% sobre o ano anterior. As importações, por sua vez, alcançaram US$ 84,6 milhões, alta de 771,6%.

A participação iraniana nas exportações totais brasileiras é relativamente pequena — 0,84% no ano passado —, mas há uma forte concentração no agro, tendo milho (67,9%), soja (19,3%), açúcares e melaços (6,5%) e farelo de soja e outros alimentos para animais (6,2%) como os principais produtos exportados.

Do lado das compras, 79% das importações brasileiras vindas do Irã são de adubos e fertilizantes. Frutas, nozes e medicamentos veterinários também compõem a lista. Considerando que o Brasil é dependente da importação de insumos agrícolas, com cerca de 80% dos fertilizantes usados em lavouras vindos do exterior, um cenário de tensão geopolítica amplia a preocupação do setor produtivo.

Para o colunista do Agro Estadão e ex-presidente da Embrapa, Celso Moretti, tratar fertilizantes e combustíveis como variáveis meramente técnicas é um equívoco. “O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã não é um evento distante para o produtor rural brasileiro. Ele incide diretamente sobre custos, margens e competitividade. O ponto central dessa vulnerabilidade tem nome e endereço: Estreito de Ormuz”, escreveu em sua coluna.

Conflito fecha rota estratégica

O governo iraniano anunciou a interrupção da navegação pelo Estreito de Ormuz. Esse corredor marítimo é estratégico, por lá, transitam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. Localizado entre Omã e o Irã, o estreito liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico e é considerado uma das rotas mais sensíveis do comércio global.

Com o bloqueio, navios começaram a ser redirecionados pelo Cabo da Boa Esperança, evitando também o Canal de Suez e o Estreito de Bab el-Mandeb. O desvio amplia o tempo de viagem, eleva custos de frete e pressiona cadeias produtivas.

O mercado reagiu imediatamente. O petróleo tipo Brent saltou 13% na abertura dos negócios nesta segunda, atingindo US$ 82 por barril — maior alta em 14 meses. Diante do cenário, especialistas alertam que, sem uma solução diplomática, a cotação do petróleo pode voltar ao patamar de US$ 100, elevando o preço da energia.

Para o agro, o resumo é: diesel mais caro no campo, frete rodoviário pressionado e aumento generalizado de custos logísticos.

Para o agro brasileiro, a preocupação vai além do Irã, uma vez que o conflito tem se alastrado para outros países do Oriente Médio. Nesta madrugada, o Hezbollah atacou Israel, que respondeu bombardeando Beirute, capital do Líbano.

Somente no ano passado, a região como um todo, respondeu por US$ 16,1 bilhões em exportações brasileiras, o equivalente a 4,6% do total embarcado pelo País. Entre os principais produtos estão carnes de aves (19,1%), milho (17,2%), açúcares (14,8%), carne bovina (7,3%) e soja (5,7%).

Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, o impacto mais imediato para o setor de carnes é indireto. “Vai pegar mais a logística, o encarecimento do petróleo, como todas as outras cadeias”, afirma. Ele ressalta que o risco maior está em uma eventual expansão do conflito para países como Arábia Saudita e Emirados Árabes, importantes compradores de proteína animal brasileira.

Mesmo com gargalos logísticos e fretes mais caros, Iglesias avalia que o produto brasileiro tende a chegar ao destino, ainda que com custo maior. “A logística pode ficar mais cara com o fechamento do Estreito de Ormuz, mas de qualquer forma, o produto brasileiro tende a chegar no seu destino. Só vai ficar mais caro para que isso aconteça. Os canais de logística vão ficar estrangulados e o custo do frete vai subir bastante, mas isso já é esperado para outras cadeias produtivas”, destacou.

Em nota, a Associação Brasileira de Proteína Animal informou que, juntamente, a suas associadas estão mapeando e monitorando os pontos críticos à logística na área influenciada pelo conflito. “Neste momento, o setor analisa rotas alternativas que foram utilizadas em outras ocasiões de crises na região. Vale ressaltar que não há embarques significativos de carne de frango para o Irã”, traz o comunicado.

O conflito

Os bombardeios norte-americanos e israelenses começaram na manhã de sábado, 28, com ataques que mataram, entre outras autoridades, o aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, líder supremo do país. No domingo, 01, o Irã lançou ofensivas de retaliação contra Israel e países do Golfo Pérsico, enquanto Washington afirmou ter atingido mais de dois mil alvos em território iraniano. Para justificar o ataque ao Irã sem autorização prévia do Congresso, Donald Trump afirma que o regime de Teerã representa uma ameaça iminente aos EUA.

No domingo, França, Alemanha e Reino Unido afirmaram, em comunicado conjunto, que estão preparados para adotar “as ações defensivas necessárias e proporcionais” para destruir as capacidades militares do Irã. Na Inglaterra, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, reiterou que o Reino Unido não participou dos ataques realizados por EUA e Israel. Ele afirmou, no entanto, que o Irã está “atingindo interesses britânicos e colocando em risco cidadãos do Reino Unido e nossos aliados na região”.

Com a morte de Khamene, um comitê interino governará o Irã até que um novo líder supremo seja escolhido. Segundo Trump, os novos líderes iranianos já o procuraram para negociar uma trégua, porém, a informação não foi confirmada por Teerã.

Fonte: Estadão

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