agosto 12, 2026

Compactação do solo pode afetar a produtividade na pecuária

Evitar o pastejo, respeitar a sazonalidade e usar plantas de cobertura estão entre as ações para evitar o problema

Especial Mudanças climáticas Por Marisa Rodrigues e equipe portal Boia Pasto

O retorno do El Niño acendeu o alerta entre os pecuaristas do Rio Grande do Sul. O fenômeno climático extremo está associado a um maior volume de chuvas, que podem atingir o dobro ou o triplo da média histórica em várias regiões do estado sulino, aumentando significativamente o risco de alagamentos, transbordamento de sangas e rios e temporais frequentes.

A pesquisadora e professora Soraya Tanure, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, (Ufrgs) alerta que chuva em maior intensidade e mudanças abruptas de temperatura já não são apenas riscos sazonais, mas uma variável que agora precisa estar no radar dos criadores. E não se trata apenas de enchentes ou da degradação de pastagens pelo encharcamento.

Ela frisa que o solo saturado pelas fortes chuvas dificulta a locomoção dos animais, e o manejo inadequado torna-se um fator extra de perda. “O pisoteio do gado em solo encharcado destrói a estrutura da terra, gerando compactação e erosão, o que compromete a produtividade das forrageiras a médio e longo prazo e consequentemente a produção de carne e leite por hectare”, explica a pesquisadora, que é doutora em zootecnia e médica veterinária. Essas questões, segundo ela, elevam o custo operacional e reduzem a rentabilidade na pecuária.

A especialista explica que a compactação do solo é definida como o adensamento do solo pela aplicação de energia mecânica. O processo de compactação do solo provoca diminuição de seu volume e de sua porosidade, devido à compressão e ao rearranjo mais denso das partículas. As forças que causam a compactação do solo podem ser classificadas como sendo de origem externa e de origem interna.

O tráfego de veículos é um exemplo de processo de compactação causado por forças externas ao solo, assim como o tráfego de animais (pisoteamento) e de pessoas e o crescimento de raízes grandes. No entanto, forças internas também contribuem para o processo de compactação como ciclos de umedecimento e secagem, expansão e contração do solo. “A compactação do solo é mais comum em regiões que sofrem com eventos climáticos extremos como secas severas e prolongadas ou enchentes”, ensina.

Sobrecarga animal

Soraya frisa que, diferentemente do que se acreditava nas décadas de 1980 e 1990, a presença dos animais sobre o solo, em geral, não gera compactação. A consolidação só ocorrerá em casos de sobrecarga animal, em solos descobertos com baixa disponibilidade de forragem ou ainda em sistemas de manejo que não privilegiem o ajuste de carga animal.

Pesquisadora e professora Soraya Tanure, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

“Forças e frequências de pastejo moderadas, que respeitem a capacidade de suporte das pastagens, não levam a prejuízos da estrutura do solo. Pelo contrário! É comprovada que a presença de animais nas pastagens, associado as fezes e urina, permite a reciclagem mais rápida de nutrientes, que beneficia a pastagem implantada e, também, a cultura de grãos subsequente, caso estejamos tratando de integração lavoura-pecuária. Animais beneficiam o sistema, não prejudicam” declara.

A médica veterinária lamenta que ainda se observa certa resistência, apesar dos resultados de pesquisa mostrarem que o impacto do pisoteio em sistemas bem manejados e com taxa de lotação adequada não são prejudiciais sobre as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo para a cultura implantada ou para a cultura subsequente ao pastejo. “Esses estudos ainda enfrentam resistência, principalmente por parte dos produtores de grãos na adoção de sistemas que visam intensificar e diversificar a produção dentro das propriedades”, assinala.

Em sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) em plantio direto o aporte diferenciado de resíduos do pasto, tanto na superfície como no perfil do solo pelas raízes, é definido pela altura de manejo do pasto. Por isso, o controle da intensidade de pastejo é tão importante ao sistema. O acúmulo e a manutenção da cobertura vegetal na superfície reduzem substancialmente as perdas de solo e de nutrientes pelos processos erosivos e promove melhorias em diversos atributos, tais como atividade biológica, aumento os estoques de carbono, ciclagem de nutrientes, estado de agregação e qualidade do solo.

Maior armazenamento de água

A cobertura do solo pela pastagem também se traduz em maior armazenamento de água no solo, proporcionado pelo aumento na taxa de infiltração e pela diminuição da evaporação na superfície do solo. Além disso, o pastejo modifica a dinâmica de desenvolvimento das raízes e da absorção hídrica em função do desenvolvimento contínuo das pastagens, alterando a eficiência no consumo de água pelas plantas. Com o ajuste de carga animal é perfeitamente possível diminuir o efeito do casco dos animais sobre a estrutura do solo, evitando a compactação.

O “colchão” proporcionado pelas pastagens manejadas com altura adequada faz com que o impacto dos cascos não ocorra de forma direta sobre o solo, mas sobre o resíduo vegetal. Resultados de pesquisa demonstram que a presença dos animais, desde que em intensidades de pastejo moderadas (carga animal ajustada), permite a manutenção de quantidades importantes de massa de forragem e de resíduo vegetal, protegendo o solo.

 A compactação sóocorrerá se o sistema não for bem manejado. Nestes casos, a compactação do solo limita o crescimento das raízes, a absorção de nutrientes e água, e reduz significativamente a produção de forragem e, consequentemente, a produção de carne e leite/hectare.

Soraya salienta que a compactação causada pelo pisoteamento do gado ocorre principalmente nas camadas superficiais (geralmente nos primeiros 5 a 10 centímetros). O uso de estratégias biológicas costuma ser suficiente para solucionar o problema, conforme a pesquisadora da Ufrgs. “A rotação de pastagens, o descanso para a rebrota, o ajuste na taxa de lotação animal [número de cabeças por hectare] e o plantio de forrageiras com raízes agressivas ajudam a descompactar o solo naturalmente”, completa.

Uso de fertilizantes nas pastagens

O uso de fertilizantes nas pastagens também tem um papel importante na prevenção da compactação do solo. No entanto, os pecuaristas brasileiros ainda investem pouco em práticas de correção e fertilização do solo. “É uma minoria, cerca de 10%, mas esse número vem em uma crescente nos últimos anos”, garante a gerente de Desenvolvimento de Mercado Nacional da Mosaic Fertilizantes, Sabrina MarcontonioConeglian (foto abaixo).

A especialista diz que isso impacta negativamente a produtividade das plantas forrageiras, fazendo com que não tenham condições suficientes para produzir a quantidade de massa de forragem para suprir as necessidades nutricionais dos animais em pastejo. E essa prática leva a áreas com alta remoção da massa de forragem (superpastejo), com baixa massa de forragem residual para proteger o solo, reduzindo o teor de matéria orgânica, deixando o solo descoberto, susceptíveis a processos erosivos e plantas com raízes ainda mais superficiais.

“O pisoteamento do gado no solo encharcado não é a causa da compactação do solo, mas o resultado de um solo vulnerável, do manejo inadequado”, declara. “Ele é mais um fator, mas não a causa”, acrescenta a profissional, que possui graduação em zootecniapela Universidade Estadual de Maringá, além de mestrado e doutorado em zootecnia pela mesma instituição.

Sabrina explica que a prevenção da compactação do solo pelo pisotamento do gado começa por uma análise de solo seguida da aplicação correta de calcário e gesso agrícola para fortalecer a pastagem. A profissional ensina que esses insumosmelhoram a química do solo e estimulam as raízes a crescerem mais fundas, o que ajuda a estruturar a terra. “O gesso constrói o perfil do solo”, destaca. “Plantas bem nutridas têm maior capacidade de enraizamento e crescimento vegetativo (parte aérea), dois atributos que contribuem para a descompactação dissipando a pressão da pata do animal, completa.

A Mosaic é uma das maiores empresas de nutrição agrícola do País, atuando na produção, importação, comercialização e distribuição de fertilizantes. Ela integra o grupo global The Mosaic Company, com sede em Tampa (Estados Unidos), líder mundial na produção de fosfatados e potássio combinados, com foco em ajudar a produzir os alimentos necessários para o mundo.

A empresa produz e distribui fertilizantes para diversas culturas, além de desenvolver soluções de nutrição animal, produtos industriais e investir no mercado de biológicos. Conta com ui unidades próprias e contratadas em mais de dez estados brasileiros e opera um terminal portuário estratégico em Paranaguá (PR).

A importância do manejo adequado

O receio de que o pastejo necessariamente compacte o solo e prejudique a cultura da soja é um paradigma que pode ser superado quando o sistema é manejado corretamente. Este é um dos principais resultados de um experimento de longo prazo conduzido na Fazenda do Espinilho, situada em São Miguel das Missões, na região do Planalto do Rio Grande do Sul.

No estudo “Integração Soja-Bovinos de Corte no Sul do Brasil”, conduzido por mais de 15 anos, os pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Sistema Integrado de Produção Agropecuária da Faculdade de Agronomia da Ufrgs avaliaram diferentes intensidades de pastejo, controlando a altura da pastagem (10, 20, 30 e 40 cm) por meio de lotação variável.

Os resultados demonstram que, sob manejo adequado — especialmente com intensidades moderadas de pastejo (20–30 cm de altura do pasto) — é possível produzir bovinos durante aproximadamente 120 dias no inverno, mantendo elevada produção de soja, preservando a cobertura do solo e garantindo a sustentabilidade do sistema de plantio direto.

“Esse talvez seja o principal ensinamento desse experimento de campo de longo prazo: o problema não é a presença dos animais, mas sim, o manejo inadequado do pastejo”, sublinha o pesquisador Tales Tiecher, da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé (RS). “Quando a carga animal é ajustada de acordo com a disponibilidade de forragem é possível integrar agricultura e pecuária com ganhos tanto para a produção animal quanto para a qualidade do solo”, completa.

Como solucionar a compactação

– Evite o superpastejo: Colocar mais animais do que a pastagem suporta provoca a raspagem” da pastagem e a exposição do solo, o que destrói sua estrutura e aeração;

– Respeite a sazonalidade: A produção de forrageiras cai drasticamente no inverno/seca. Reduza a carga animal por hectare nessas épocas para evitar que o gado pise excessivamente sobre o mesmo trecho;

– Controle de entrada e saída: Utilize a altura ideal da planta para determinar o momento de colocar (entrada) e retirar (saída) os animais do piquete, garantindo uma boa rebrota e área foliar residual;

– Rotação e tamanho dos potreiros/piquetes: Dividir as invernadas evita a permanência prolongada do gado. Adote o pastoreio rotativo para dar tempo de recuperação à forragem;

– Disposição de cochos e bebedouros: Centralizar ou mover os cochos (móveis) e bebedouros rotativamente impede que os animais fiquem aglomerados no mesmo local, evitando trilhas e áreas de compactação intensa;

– Melhoria e recuperação biológica;

– Adição de matéria orgânica: O aumento de carbono orgânico e a atividade microbiana ajudam a melhorar a estrutura, aeração e porosidade do solo;

– Uso de plantas de cobertura: A rotação com sistemas de raízes agressivas (como algumas leguminosas) atua como uma descompactação biológica, formando canais (bioporos) que permitem a entrada de ar e água;

– Integração Lavoura-Pecuária (ILP): Alternar períodos de pastagem com plantio de grãos pode ser uma estratégia eficiente para recondicionar o solo estruturalmente;

– Intervenção mecânica e nutricional:

– Descompactação mecânica: Para casos de compactação moderada a severa, use equipamentos como escarificadores ou subsoladores. Eles possuem hastes estreitas que quebram a camada endurecida. A operação mecânica (subsolagem) nunca deve ser feita com o solo encharcado ou muito úmido, sob o risco de piorar ainda mais a compactação;

– Correção e adubação: Faça sempre a análise e a correção química do solo (calagem e adubação) para garantir que as raízes cresçam vigorosas e com energia para romper as camadas compactadas.

Especial Mudanças climáticas Por Marisa Rodrigues e equipe portal Boia Pasto

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