Estudo propõe cruzar informações ambientais das propriedades com registros de movimentação dos animais para ampliar o controle sobre a origem do rebanho e atender às novas exigências do mercado internacional

A integração de bases de dados que já existem nos Estados pode acelerar a rastreabilidade da pecuária bovina brasileira e ampliar a capacidade do país de comprovar a origem dos animais destinados à produção de carne. A proposta é associar as informações territoriais do Cadastro Ambiental Rural (CAR) aos registros de movimentação dos rebanhos presentes na Guia de Trânsito Animal (GTA).
A recomendação faz parte de estudo da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que defende o uso das estruturas existentes como uma alternativa para avançar, no curto prazo, no monitoramento socioambiental da cadeia pecuária. A entidade publicou em setembro materiais voltados justamente ao avanço da rastreabilidade socioambiental no país.
Na avaliação do grupo, o cruzamento das duas bases permitiria identificar não apenas a movimentação do gado entre propriedades, mas também relacionar os animais às características territoriais e ambientais das fazendas pelas quais passaram.
A proposta deverá ser apresentada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e aos órgãos estaduais de defesa agropecuária.
Dados ambientais e movimentação do rebanho
Fernando Sampaio, colíder da Força-Tarefa de Rastreabilidade e Transparência da Coalizão Brasil, explica que CAR e GTA atualmente oferecem informações diferentes, mas complementares.
“A GTA informa que está sendo mandada uma quantidade de vacas da fazenda ‘A’ para a fazenda ‘B’, mas não te dá a localização destas fazendas”, afirma.
O CAR, por outro lado, permite localizar territorialmente o imóvel rural. A combinação das informações abriria caminho para verificar eventuais riscos socioambientais relacionados às propriedades pelas quais os bovinos passaram.
“Com essa localização geográfica eu consigo olhar se naquela área tem desmatamento ilegal, se é uma área de reserva ambiental, por exemplo”, explica Sampaio, que também é secretário-executivo da Rede de Inteligência em Agricultura e Clima (RIAC).
Segundo ele, o Brasil já dispõe de uma estrutura digital relevante e de grande volume de informações produzidas pelos setores público e privado. O desafio é ampliar a integração entre essas bases.
“Nosso grande desafio hoje é conectar esses dados e fazê-los conversar, respeitando a segurança jurídica e a LGPD”, afirma.
Rastreabilidade ganha importância no mercado externo
A discussão ocorre em um momento de aumento das exigências internacionais relacionadas à origem dos produtos agropecuários. Entre elas está o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR.
A norma abrange sete commodities — entre elas bovinos, soja, café e borracha — e produtos derivados. Para operadores de médio e grande porte, as regras começam a ser aplicadas em 30 de dezembro de 2026. O regulamento exige comprovação de que os produtos abrangidos não estejam associados ao desmatamento ou à degradação florestal e que tenham sido produzidos de acordo com a legislação aplicável no país de origem.
Para Sampaio, a integração entre CAR e GTA poderia contribuir para gerar informações necessárias ao atendimento dessas novas demandas de mercado.
A proposta também permitiria acompanhar melhor as diferentes etapas do ciclo produtivo da pecuária. Um dos principais desafios da rastreabilidade está justamente em reconstruir o caminho percorrido pelo animal entre propriedades de cria, recria e engorda antes da chegada ao frigorífico.
Checagem do CAR antes da emissão da GTA
Entre as medidas sugeridas pela Coalizão está a criação de normas estaduais que estabeleçam a consulta ao CAR antes da emissão da GTA. Dessa forma, além de registrar a movimentação do rebanho, o sistema poderia relacionar a origem dos animais às informações ambientais da propriedade.
Outra recomendação é incluir o número do CAR no cadastro dos estabelecimentos rurais mantido pelos órgãos de defesa agropecuária e verificar se as coordenadas geográficas da fazenda correspondem efetivamente ao imóvel informado pelo produtor.
O estudo também sugere a criação de grupos de trabalho envolvendo os órgãos estaduais responsáveis pela defesa agropecuária e pelo meio ambiente. Atualmente, essas informações geralmente estão distribuídas entre diferentes estruturas administrativas, o que aumenta a necessidade de integração dos sistemas.
Na avaliação da Coalizão, o cruzamento dessas bases poderia funcionar como uma espécie de ponte durante a transição para sistemas mais completos de rastreabilidade.
Estados já desenvolvem modelos próprios
O levantamento analisou experiências adotadas em oito Estados com participação relevante na pecuária brasileira: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Rondônia, Tocantins e São Paulo.
Entre as iniciativas avaliadas está o Selo Verde, plataforma criada inicialmente no Pará e posteriormente adaptada por outras unidades da Federação, como Minas Gerais.
“Dos sistemas já aplicados, o Selo Verde é o que está mais avançado”, afirma Sampaio.
Segundo o estudo, no Pará a emissão da GTA está vinculada à situação do CAR da propriedade de origem. Em outros Estados analisados, as informações podem ser utilizadas em consultas técnicas e verificações preventivas, sem necessariamente impedir a movimentação dos animais.
Identificação individual avança até 2032
A integração das bases estaduais ocorreria paralelamente ao avanço da estratégia nacional de identificação individual dos animais.
O Ministério da Agricultura mantém o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), desenvolvido para ampliar a rastreabilidade da cadeia de carne e leite. O planejamento prevê uma transição gradual do controle predominantemente baseado em lotes para a identificação individual dos bovinos e búfalos.
O cronograma oficial está dividido em quatro etapas, iniciadas em 2025, e prevê chegar ao fim de 2032 com o rebanho brasileiro de bovinos e búfalos identificado individualmente, conforme os critérios que forem estabelecidos na regulamentação.
Enquanto esse processo avança, a proposta de integrar CAR e GTA busca aproveitar informações já disponíveis para ampliar a transparência sobre a origem e a movimentação dos animais. Para a cadeia produtiva, a medida pode ganhar importância à medida que compradores internacionais aumentam as exigências por dados capazes de demonstrar a procedência da carne e as condições socioambientais de sua produção.
Fonte: Nayara Figueiredo / Globo Rural
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto






