Chance de formação do fenômeno chega a 82% ainda neste inverno e pode afetar de forma diferente cada região do país, pressionando desde a oferta de forragem até os custos de alimentação animal.

O risco de formação de um novo El Niño voltou ao radar dos produtores brasileiros e acendeu um alerta para a pecuária. Mais do que uma eventual seca ou excesso de chuvas, pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) avaliam que o principal impacto do fenômeno poderá ser o aumento da volatilidade climática, com reflexos sobre pastagens, produção de grãos, custos de alimentação, sanidade animal e logística.

Foto: Breno Lobato
No início de 2026, a expectativa predominante era de neutralidade climática após o enfraquecimento da La Niña. O cenário, porém, mudou nos últimos meses.
O boletim mais recente do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (NOAA/CPC) mantém o status de “El Niño Watch” e aponta 82% de probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho deste ano. A chance de permanência até o trimestre dezembro-fevereiro de 2026/27 sobe para 96%.
O Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade (IRI) também indica elevada probabilidade de ocorrência do fenômeno, embora ressalte que as previsões ainda carregam incertezas típicas do período de transição climática no Hemisfério Norte.
Para a pesquisadora de Pecuária do Cepea, Natália Grigol, o erro mais comum é associar o El Niño apenas a uma

Pesquisadora de Pecuária do Cepea, Natália Grigol: “O risco não está apenas em uma eventual seca. O excesso de chuvas também pode trazer consequências importantes para a pecuária, comprometendo manejo, qualidade de forragens, sanidade, logística e até a conservação de alimentos para os rebanhos” – Foto: Divulgação
quebra de produção. “O El Niño não deve ser interpretado como um choque climático uniforme sobre o Brasil. O risco não está apenas em uma eventual seca. O excesso de chuvas também pode trazer consequências importantes para a pecuária, comprometendo manejo, qualidade de forragens, sanidade, logística e até a conservação de alimentos para os rebanhos”, afirma.
Segundo ela, a principal característica do fenômeno é justamente ampliar a instabilidade. “A leitura mais adequada é tratar o El Niño de 2026 como um fator de aumento da volatilidade climática e produtiva, com impactos regionais bastante distintos”, acrescenta.
Pasto e água entram no centro das atenções
A disponibilidade de pastagens e água aparece entre os principais pontos de preocupação dos pesquisadores.
Nos sistemas baseados em pasto, atrasos na retomada das chuvas, veranicos prolongados ou temperaturas acima da média podem reduzir o crescimento das forrageiras, diminuir a capacidade de suporte das áreas e afetar diretamente o ganho de peso dos animais e a produção de leite.

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O período entre maio e outubro merece atenção especial, já que coincide com uma fase estratégica para a recuperação da condição corporal das matrizes. “A condição nutricional da fêmea nesse período influencia diretamente a eficiência reprodutiva e todo o ciclo produtivo seguinte. Oscilações climáticas podem ter efeitos que se prolongam por meses”, explica Natália.
No semiárido nordestino, a situação pode ser ainda mais delicada. A oferta de água, a disponibilidade de forragem nativa e a capacidade de produção de reservas estratégicas, como palma forrageira, silagem e feno, tornam-se determinantes para a manutenção dos rebanhos.
Milho e soja podem influenciar custo da ração
Além do clima, os pesquisadores destacam que a evolução dos preços dos grãos será decisiva para a rentabilidade das cadeias pecuárias.
O pesquisador de Pecuária do Cepea, Giovanni Penazzi, ressalta que a análise não pode se limitar ao risco de quebra

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de safra. “É preciso observar os efeitos sobre preços relativos, fretes, estoques, qualidade dos grãos, mercado futuro e decisões de compra de ração. Muitas vezes, a percepção de risco climático já é suficiente para alterar preços e estratégias de comercialização”, salienta.
Segundo ele, aves e suínos costumam sentir esse impacto de forma mais imediata, mas bovinos confinados, produtores de leite e criadores de ovinos e caprinos também podem ser afetados.
Os números reforçam essa preocupação. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimava, em abril, uma produção de 139,6 milhões de toneladas de milho na safra 2025/26. Embora o volume permaneça elevado, a companhia prevê queda na produtividade da segunda safra. Na soja, a projeção é 179,2 milhões de toneladas.
Ainda assim, Giovanni ressalta que a disponibilidade efetiva de farelo e seus preços dependem de uma série de fatores. “Produção é apenas uma variável. O comportamento do câmbio, o esmagamento interno, as exportações e a demanda internacional influenciam diretamente os custos da alimentação animal”, diz.

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Sul pode enfrentar excesso de chuva
Se o El Niño se confirmar, os impactos deverão variar significativamente entre as regiões brasileiras. No Sul, tradicionalmente, o fenômeno está associado a maiores volumes de chuva, sobretudo no inverno e na primavera.
À primeira vista, isso poderia favorecer a recuperação hídrica e a disponibilidade de pastagens. O excesso, entretanto, preocupa.
Chuvas frequentes podem dificultar colheitas, prejudicar a produção de silagem, elevar perdas por fermentação inadequada e ampliar problemas sanitários relacionados à lama e à umidade excessiva. “No Sul, o excesso de chuva costuma ser mais preocupante do que a falta dela. Isso interfere diretamente no manejo das propriedades e na qualidade dos alimentos conservados”, observa o pesquisador de Pecuária do Cepea, Thiago Carvalho.
Centro-Oeste e Sudeste dependem da volta das chuvas
No Centro-Oeste, a principal preocupação é a transição entre o período seco e o chuvoso.

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Caso as chuvas atrasem ou ocorram de forma irregular, a recuperação das pastagens pode ser comprometida justamente em uma fase estratégica para os sistemas de cria, recria e engorda.
Isso tende a elevar os custos com suplementação e pode alterar decisões de retenção de animais, confinamento e comercialização.
Já no Sudeste, os riscos estão associados à irregularidade das chuvas e às temperaturas elevadas.
Além dos impactos sobre pastagens e produção de silagem, cadeias intensivas, como avicultura e suinocultura, podem enfrentar custos maiores com ventilação, refrigeração e energia elétrica.
No Norte e no Nordeste, a preocupação maior é com o déficit hídrico. “O principal desafio nessas regiões é garantir segurança alimentar e hídrica para os rebanhos. Dependendo da intensidade do fenômeno, pode haver necessidade antecipada do uso de reservas de forragem e aumento dos custos de suplementação”, menciona Carvalho.
Para os pesquisadores do Cepea, independentemente da intensidade do El Niño, a palavra-chave para os próximos meses será planejamento.
Em um ambiente mais instável, a capacidade de formar estoques, diversificar fontes de alimentação e monitorar custos pode fazer diferença entre preservar ou comprometer as margens da atividade pecuária.
Fonte: O Presente Rural






