Bezerros na seca: como garantir crescimento e sobrevivência mesmo quando o pasto desaparece
Embora todas as categorias do rebanho sofram durante a estiagem, os bezerros enfrentam uma situação ainda mais delicada.
Por Camila Gusmão e Marisa Rodrigues, para o portal Boi a Pasto
A seca representa um dos períodos mais desafiadores para a pecuária brasileira. À medida que as pastagens perdem qualidade e disponibilidade de nutrientes, os impactos vão muito além da redução do ganho de peso dos animais. Para os bezerros, justamente na fase de maior crescimento, esse cenário pode comprometer o desenvolvimento corporal, aumentar a incidência de doenças e reduzir o potencial produtivo futuro.

Especialistas ouvidos pela equipe do Boi a Pasto nesta primeira reportagem da série especial sobre suplementação na seca são unânimes: investir em nutrição nessa época do ano não deve ser encarado como um custo, mas como uma estratégia para preservar a produtividade e a rentabilidade da fazenda.
Segundo Luiz Orcirio Fialho de Oliveira, pesquisador em Nutrição Animal da Embrapa Gado de Corte, o período seco reúne uma combinação de fatores que aumenta o desafio para o rebanho.
“O período da seca é caracterizado por pastagens de menor valor nutricional, dias mais curtos e temperaturas mais baixas, o que provoca maior gasto de energia pelos animais para manter a temperatura corporal e o funcionamento do metabolismo. Esse conjunto de fatores impacta todo o sistema produtivo”, explica.
Os bezerros são os mais vulneráveis
Embora todas as categorias do rebanho sofram durante a estiagem, os bezerros enfrentam uma situação ainda mais delicada. Enquanto permanecem ao pé da mãe, dependem diretamente da produção de leite das vacas, que também diminui devido à menor qualidade das pastagens.

Após a desmama, normalmente realizada entre sete e oito meses de idade — justamente no início da seca em boa parte do país — o desafio se torna ainda maior.
“O bezerro passa a aprender definitivamente o pastejo exatamente quando encontra uma pastagem com pouca folha, muito talo e baixo valor nutritivo. A consequência é uma queda acentuada na curva de crescimento e, em muitos casos, até perda de peso durante toda a seca”, afirma Oliveira.
Segundo o pesquisador, animais em aleitamento costumam ganhar entre 600 e 800 gramas por dia. Depois da desmama, sem suplementação adequada, esse desempenho pode cair drasticamente.
Desenvolvimento do rúmen depende da alimentação
Outro aspecto importante é o desenvolvimento do rúmen. Nos primeiros meses de vida, o sistema digestivo ainda está em formação, e a oferta de alimentos concentrados pode acelerar esse processo.
“O fornecimento de ração favorece o desenvolvimento das papilas ruminais e melhora a capacidade do animal de aproveitar os alimentos fibrosos no futuro”, destaca o pesquisador.

Ele ressalta que suplementos concentrados apresentam respostas superiores aos suplementos exclusivamente minerais ou proteicos, principalmente porque fornecem maior quantidade de energia e nutrientes necessários ao crescimento.
Creep feeding exige planejamento
Uma das estratégias mais utilizadas para aumentar o desempenho dos bezerros é o creep feeding, sistema que permite o acesso exclusivo dos animais jovens à suplementação.
Entretanto, Oliveira alerta que a adoção da tecnologia deve considerar todo o sistema produtivo.
“Para quem comercializa bezerros por peso vivo, o creep feeding pode trazer excelente retorno econômico. Porém, é fundamental avaliar cuidadosamente todos os custos envolvidos e, principalmente, manter um programa nutricional após a desmama. Caso contrário, parte do ganho obtido pode ser perdida.”
Pesquisas conduzidas pela Embrapa demonstraram que animais suplementados durante o aleitamento, mas que deixam de receber alimentação adequada após a desmama, podem chegar ao abate com desempenho semelhante ao daqueles que nunca receberam suplementação.
Nutrição também protege contra doenças
A preocupação com a alimentação durante a seca não está relacionada apenas ao desempenho zootécnico.
Segundo Octaviano Pereira Neto, médico-veterinário e consultor técnico de Ruminantes da Elanco Brasil, existe uma relação direta entre nutrição e imunidade.

“A seca provoca estresse nutricional e redução da oferta de proteína, energia, vitaminas e minerais essenciais ao funcionamento do sistema imunológico. Quando essas deficiências não são corrigidas, aumenta significativamente a ocorrência de doenças e cai o desempenho produtivo”, explica.
De acordo com o especialista, o problema começa ainda antes do nascimento.
“A imunidade inicial do bezerro depende do colostro produzido pela mãe. Se a vaca entra na seca com baixa condição corporal, produz menos leite e um colostro de menor qualidade, comprometendo a transferência de anticorpos.”
Doenças aumentam durante a estiagem
Entre os principais problemas sanitários observados na seca estão as doenças respiratórias, tristeza parasitária bovina, verminoses, ceratoconjuntivite infecciosa (pinkeye) e diarreias em animais jovens.
“A nutrição adequada é também uma estratégia sanitária. Animais bem alimentados respondem melhor às vacinas, apresentam maior resistência às enfermidades e necessitam de menos tratamentos ao longo do período seco”, afirma Pereira Neto.
Ele destaca ainda que muitos produtores cometem um erro recorrente.
“O maior equívoco é agir apenas quando os primeiros sinais de perda de desempenho aparecem. A seca é previsível e exige planejamento antecipado. Vacinar animais já debilitados reduz significativamente a eficiência da imunização.”
O consultor recomenda que os produtores monitorem regularmente o escore corporal das vacas e dos bezerros, acompanhem a qualidade da água e adotem estratégias para reduzir o estresse do rebanho.
Quando começar a suplementação?
Para César Vitaliano Graminha, zootecnista especialista em produção de ruminantes e supervisor comercial da Connan Nutrição Animal, o momento ideal para iniciar a suplementação depende dos objetivos da propriedade.
“Na maioria das fazendas, ela começa após a desmama, entre sete e oito meses. Porém, quando o objetivo é aumentar o peso à desmama ou realizar desmama precoce, a suplementação pode ser iniciada ainda durante a fase de aleitamento, entre três e quatro meses de idade, utilizando o creep feeding.”
Segundo ele, a primeira seca após a desmama é decisiva para o desempenho futuro dos animais.
“Nessa fase, normalmente utilizamos suplementos minerais proteicos de baixo consumo para estimular o crescimento muscular. Dependendo da estratégia da fazenda, também podem ser utilizados suplementos proteico-energéticos ou até rações para acelerar o ganho de peso.”

Com o atual cenário de valorização dos bezerros, Graminha afirma que a suplementação tornou-se ainda mais atrativa economicamente.
“Hoje é perfeitamente possível obter acréscimos entre 10 e 20 quilos no peso à desmama. Em momentos de preços elevados do bezerro, isso representa excelente retorno financeiro.”
Ele explica que o produtor pode calcular facilmente a viabilidade do investimento utilizando o chamado ponto de equilíbrio.
“Basta dividir o custo total da suplementação pelo valor do quilo vivo do bezerro. Todo ganho acima desse ponto representa lucro para o sistema.”
Tecnologia e profissionalização transformam a pecuária
Na avaliação do especialista, a pecuária brasileira passa por uma intensa transformação tecnológica.
“Nos últimos anos observamos uma substituição crescente dos suplementos minerais convencionais por programas nutricionais mais completos. Tecnologias como recria intensiva e terminação intensiva a pasto vêm aumentando significativamente a produtividade das propriedades.”
Para Graminha, esse movimento é irreversível.
“A adoção crescente de tecnologia na pecuária é um caminho sem volta. Ela exige profissionalismo, investimento em qualidade, sustentabilidade e uma visão mais sistêmica da atividade.”
Planejamento é a palavra-chave
Apesar das diferentes abordagens, os três especialistas convergem em um ponto: o sucesso da suplementação depende do planejamento.
Preparar vacas e bezerros antes da chegada da estiagem, garantir oferta adequada de nutrientes, manter protocolos sanitários atualizados e acompanhar constantemente o desempenho dos animais são medidas capazes de reduzir perdas e preservar o potencial produtivo do rebanho.
Mais do que atravessar a seca, a suplementação bem planejada permite que o pecuarista mantenha o ritmo de crescimento dos animais, reduza a idade ao abate e aumente a rentabilidade da propriedade.
Na próxima reportagem da série especial, serão abordadas as principais estratégias de suplementação para bovinos de recria e engorda durante a seca, comparando diferentes tipos de suplementos e seus impactos no desempenho produtivo e econômico das fazendas.






