julho 2, 2026

Série Especial | Suplementação na Seca

Bezerros na seca: como garantir crescimento e sobrevivência mesmo quando o pasto desaparece

Embora todas as categorias do rebanho sofram durante a estiagem, os bezerros enfrentam uma situação ainda mais delicada.

Por Camila Gusmão e Marisa Rodrigues, para o portal Boi a Pasto

A seca representa um dos períodos mais desafiadores para a pecuária brasileira. À medida que as pastagens perdem qualidade e disponibilidade de nutrientes, os impactos vão muito além da redução do ganho de peso dos animais. Para os bezerros, justamente na fase de maior crescimento, esse cenário pode comprometer o desenvolvimento corporal, aumentar a incidência de doenças e reduzir o potencial produtivo futuro.

Especialistas ouvidos pela equipe do Boi a Pasto nesta primeira reportagem da série especial sobre suplementação na seca são unânimes: investir em nutrição nessa época do ano não deve ser encarado como um custo, mas como uma estratégia para preservar a produtividade e a rentabilidade da fazenda.

Segundo Luiz Orcirio Fialho de Oliveira, pesquisador em Nutrição Animal da Embrapa Gado de Corte, o período seco reúne uma combinação de fatores que aumenta o desafio para o rebanho.

“O período da seca é caracterizado por pastagens de menor valor nutricional, dias mais curtos e temperaturas mais baixas, o que provoca maior gasto de energia pelos animais para manter a temperatura corporal e o funcionamento do metabolismo. Esse conjunto de fatores impacta todo o sistema produtivo”, explica.

Os bezerros são os mais vulneráveis

Embora todas as categorias do rebanho sofram durante a estiagem, os bezerros enfrentam uma situação ainda mais delicada. Enquanto permanecem ao pé da mãe, dependem diretamente da produção de leite das vacas, que também diminui devido à menor qualidade das pastagens.

Após a desmama, normalmente realizada entre sete e oito meses de idade — justamente no início da seca em boa parte do país — o desafio se torna ainda maior.

“O bezerro passa a aprender definitivamente o pastejo exatamente quando encontra uma pastagem com pouca folha, muito talo e baixo valor nutritivo. A consequência é uma queda acentuada na curva de crescimento e, em muitos casos, até perda de peso durante toda a seca”, afirma Oliveira.

Segundo o pesquisador, animais em aleitamento costumam ganhar entre 600 e 800 gramas por dia. Depois da desmama, sem suplementação adequada, esse desempenho pode cair drasticamente.

Desenvolvimento do rúmen depende da alimentação

Outro aspecto importante é o desenvolvimento do rúmen. Nos primeiros meses de vida, o sistema digestivo ainda está em formação, e a oferta de alimentos concentrados pode acelerar esse processo.

“O fornecimento de ração favorece o desenvolvimento das papilas ruminais e melhora a capacidade do animal de aproveitar os alimentos fibrosos no futuro”, destaca o pesquisador.

Luiz Orcirio Fialho de Oliveira, pesquisador em Nutrição Animal da Embrapa Gado de Corte

Ele ressalta que suplementos concentrados apresentam respostas superiores aos suplementos exclusivamente minerais ou proteicos, principalmente porque fornecem maior quantidade de energia e nutrientes necessários ao crescimento.

Creep feeding exige planejamento

Uma das estratégias mais utilizadas para aumentar o desempenho dos bezerros é o creep feeding, sistema que permite o acesso exclusivo dos animais jovens à suplementação.

Entretanto, Oliveira alerta que a adoção da tecnologia deve considerar todo o sistema produtivo.

“Para quem comercializa bezerros por peso vivo, o creep feeding pode trazer excelente retorno econômico. Porém, é fundamental avaliar cuidadosamente todos os custos envolvidos e, principalmente, manter um programa nutricional após a desmama. Caso contrário, parte do ganho obtido pode ser perdida.”

Pesquisas conduzidas pela Embrapa demonstraram que animais suplementados durante o aleitamento, mas que deixam de receber alimentação adequada após a desmama, podem chegar ao abate com desempenho semelhante ao daqueles que nunca receberam suplementação.

Nutrição também protege contra doenças

A preocupação com a alimentação durante a seca não está relacionada apenas ao desempenho zootécnico.

Segundo Octaviano Pereira Neto, médico-veterinário e consultor técnico de Ruminantes da Elanco Brasil, existe uma relação direta entre nutrição e imunidade.

Octaviano Pereira Neto, médico-veterinário e consultor Técnico de Ruminantes

“A seca provoca estresse nutricional e redução da oferta de proteína, energia, vitaminas e minerais essenciais ao funcionamento do sistema imunológico. Quando essas deficiências não são corrigidas, aumenta significativamente a ocorrência de doenças e cai o desempenho produtivo”, explica.

De acordo com o especialista, o problema começa ainda antes do nascimento.

“A imunidade inicial do bezerro depende do colostro produzido pela mãe. Se a vaca entra na seca com baixa condição corporal, produz menos leite e um colostro de menor qualidade, comprometendo a transferência de anticorpos.”

Doenças aumentam durante a estiagem

Entre os principais problemas sanitários observados na seca estão as doenças respiratórias, tristeza parasitária bovina, verminoses, ceratoconjuntivite infecciosa (pinkeye) e diarreias em animais jovens.

“A nutrição adequada é também uma estratégia sanitária. Animais bem alimentados respondem melhor às vacinas, apresentam maior resistência às enfermidades e necessitam de menos tratamentos ao longo do período seco”, afirma Pereira Neto.

Ele destaca ainda que muitos produtores cometem um erro recorrente.

“O maior equívoco é agir apenas quando os primeiros sinais de perda de desempenho aparecem. A seca é previsível e exige planejamento antecipado. Vacinar animais já debilitados reduz significativamente a eficiência da imunização.”

O consultor recomenda que os produtores monitorem regularmente o escore corporal das vacas e dos bezerros, acompanhem a qualidade da água e adotem estratégias para reduzir o estresse do rebanho.

Quando começar a suplementação?

Para César Vitaliano Graminha, zootecnista especialista em produção de ruminantes e supervisor comercial da Connan Nutrição Animal, o momento ideal para iniciar a suplementação depende dos objetivos da propriedade.

“Na maioria das fazendas, ela começa após a desmama, entre sete e oito meses. Porém, quando o objetivo é aumentar o peso à desmama ou realizar desmama precoce, a suplementação pode ser iniciada ainda durante a fase de aleitamento, entre três e quatro meses de idade, utilizando o creep feeding.”

Segundo ele, a primeira seca após a desmama é decisiva para o desempenho futuro dos animais.

“Nessa fase, normalmente utilizamos suplementos minerais proteicos de baixo consumo para estimular o crescimento muscular. Dependendo da estratégia da fazenda, também podem ser utilizados suplementos proteico-energéticos ou até rações para acelerar o ganho de peso.”

César Vitaliano Graminha, zootecnista especialista em produção de ruminantes e supervisor comercial da Connan Nutrição Animal

Com o atual cenário de valorização dos bezerros, Graminha afirma que a suplementação tornou-se ainda mais atrativa economicamente.

“Hoje é perfeitamente possível obter acréscimos entre 10 e 20 quilos no peso à desmama. Em momentos de preços elevados do bezerro, isso representa excelente retorno financeiro.”

Ele explica que o produtor pode calcular facilmente a viabilidade do investimento utilizando o chamado ponto de equilíbrio.

“Basta dividir o custo total da suplementação pelo valor do quilo vivo do bezerro. Todo ganho acima desse ponto representa lucro para o sistema.”

Tecnologia e profissionalização transformam a pecuária

Na avaliação do especialista, a pecuária brasileira passa por uma intensa transformação tecnológica.

“Nos últimos anos observamos uma substituição crescente dos suplementos minerais convencionais por programas nutricionais mais completos. Tecnologias como recria intensiva e terminação intensiva a pasto vêm aumentando significativamente a produtividade das propriedades.”

Para Graminha, esse movimento é irreversível.

“A adoção crescente de tecnologia na pecuária é um caminho sem volta. Ela exige profissionalismo, investimento em qualidade, sustentabilidade e uma visão mais sistêmica da atividade.”

Planejamento é a palavra-chave

Apesar das diferentes abordagens, os três especialistas convergem em um ponto: o sucesso da suplementação depende do planejamento.

Preparar vacas e bezerros antes da chegada da estiagem, garantir oferta adequada de nutrientes, manter protocolos sanitários atualizados e acompanhar constantemente o desempenho dos animais são medidas capazes de reduzir perdas e preservar o potencial produtivo do rebanho.

Mais do que atravessar a seca, a suplementação bem planejada permite que o pecuarista mantenha o ritmo de crescimento dos animais, reduza a idade ao abate e aumente a rentabilidade da propriedade.

Na próxima reportagem da série especial, serão abordadas as principais estratégias de suplementação para bovinos de recria e engorda durante a seca, comparando diferentes tipos de suplementos e seus impactos no desempenho produtivo e econômico das fazendas.

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