Linha fina: Estado registrou alta de 2,38% na produção em 2025, enquanto entrada de lácteos da Argentina e do Uruguai aumenta concorrência e pressiona preços pagos aos produtores.

A produção de leite no Rio Grande do Sul avançou cerca de 2,38% em 2025 na comparação com o ano anterior. Apesar do crescimento, o setor ainda enfrenta os efeitos da concorrência com produtos importados, que representam aproximadamente 8% do mercado, segundo a Associação das Pequenas e Médias Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil).
De acordo com a entidade, a entrada de produtos principalmente da Argentina e do Uruguai, a preços mais baixos, tem aumentado a pressão sobre o mercado gaúcho. O impacto é sentido especialmente pelas pequenas e médias indústrias, que dependem da matéria-prima produzida no Estado e disputam espaço diretamente com os importados no varejo.
O presidente da Apil, Fernando Zimmermann, afirma que a utilização de traders também facilitou o acesso de empresas menores às importações.
“Hoje já há redes de pizzarias e supermercados que conseguem fazer essas importações diretamente ou por meio de traders. Esses produtos acabam entrando com um custo muito menor, o que afeta bastante o nosso mercado”, afirma.
Pressão chega ao preço pago ao produtor
A disputa por preços também repercute na relação entre produtores de leite e indústrias. Segundo Zimmermann, a redução dos valores pagos pela matéria-prima gera insatisfação no campo, enquanto os laticínios argumentam que os preços refletem as condições do mercado.
“Nós acabamos entrando numa briga, com o produtor achando que o laticinista é o culpado pela baixa dos preços que ele sofre. Estamos simplesmente reagindo a uma questão de mercado”, explica.
A situação é mais desafiadora para pequenas indústrias, que possuem menor capacidade de negociação e dependem, em grande parte, do leite produzido no próprio Estado. Empresas de maior porte, por outro lado, têm mais condições de recorrer à importação de ingredientes e insumos, como leite em pó e matérias-primas utilizadas na fabricação de derivados.
Segundo a Apil, parte da elevação dos custos acaba sendo absorvida pelos próprios laticínios para manter os produtos competitivos no mercado.
“A gente acaba passando apenas uma parte desse custo e isso impacta diretamente no preço do produtor também”, diz Zimmermann.
Indústrias operam abaixo da capacidade instalada
Outro desafio da cadeia leiteira gaúcha é a diferença entre o volume produzido e a capacidade de processamento disponível. De acordo com a entidade, as indústrias instaladas no Rio Grande do Sul têm capacidade para processar entre 19 milhões e 20 milhões de litros de leite por dia, enquanto a produção atual está próxima de 10,5 milhões de litros diários.
Com parte significativa da estrutura industrial ociosa, empresas têm buscado elevar a produção nas propriedades que já integram suas bases de fornecedores. A estratégia passa pelo aumento da produtividade e pela redução dos custos dentro das fazendas.
A concentração da captação em regiões onde as indústrias já atuam também pode diminuir despesas com transporte e assistência técnica, além de melhorar o aproveitamento da capacidade instalada.
Setor pede medidas para conter impacto das importações
Diante desse cenário, a Apil defende medidas para reduzir a diferença de competitividade entre os lácteos nacionais e importados. Uma das propostas é a adoção de sobretaxas sobre determinados produtos vindos do exterior, especialmente leite em pó e queijo muçarela da Argentina e do Uruguai.
Segundo Zimmermann, o assunto vem sendo discutido com o G100, entidade que reúne pequenas e médias indústrias de laticínios, e com a Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (ABIQ). O objetivo é buscar mecanismos tributários capazes de diminuir a diferença de preços entre os produtos brasileiros e os importados.
A entidade também defende iniciativas para ampliar o acesso ao crédito pelas empresas do setor e ações voltadas ao estímulo do consumo de leite e derivados no mercado interno.
Zimmermann acrescenta que a produção gaúcha segue exigências sanitárias estabelecidas pela legislação brasileira e defende maior atenção às condições aplicadas aos produtos que chegam de outros países.
“Cabe destacar que o leite e os produtos daqui são produzidos com muito cuidado, especialmente em relação à sanidade animal e às regras sanitárias, que no Brasil são muito exigentes”, afirma.
Fonte: AgroEffective
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto






