Mercado exigente aumenta pressão por rastreabilidade na pecuária

Sustentabilidade da cadeia produtiva, especialmente em relação ao fim do desmatamento, está cada vez mais na mira dos clientes internacionais da carne brasileira Embora as principais vantagens da rastreabilidade para o criador estejam nos ganhos com gestão de rebanho e controle sanitário, são as cobranças do mercado internacional em relação à sustentabilidade da cadeia pecuária brasileira que mais têm colocado peso sobre as empresas do setor para monitorar seus fornecedores de maneira assertiva. Em dezembro do ano passado, as seis maiores redes de supermercados da União Europeia chegaram a anunciar um boicote à carne bovina brasileira após uma investigação ter revelado que parte da produção destinada a esses clientes havia sido alvo de um processo conhecido como “lavagem de gado”, quando animais criados em áreas de desmatamento ilegal são inseridos de forma clandestina na cadeia de produção legal de grandes frigoríficos. Os casos relacionando desmatamento ilegal e produção de carne na Amazônia ocorrem no Brasil a despeito de um Termo de Ajustamento de Conduta firmado há mais de uma década entre os principais frigoríficos do país que operam no bioma e o Ministério Público Federal, prevendo a interrupção da compra de gado de fazendas com passivos ambientais e trabalhistas, num esforço para conter a derrubada da floresta. “Antes dos acordos, a gente não tinha nenhum compromisso legal ambiental das empresas que compravam gado da Amazônia, nenhuma verificação era feita. Como acordo de 2009, tivemos logo no início um impacto muito grande na redução do desmatamento, que ficou abaixo de 10 mil quilômetros quadrados ao ano, um número que nunca tinha sido alcançado”, lembra o procurador federal Daniel Azeredo, um dos responsáveis por costurar o acordo entre MPF e frigoríficos. Apesar de ressaltar a importância do compromisso firmado pelo setor nos últimos 13 anos, ele não deixa de reconhecer que esse monitoramento possui limitações, pois tem pontos de fragilidades e deficiências que precisam ser melhorados. “São três basicamente. O primeiro é o fornecedor indireto; o segundo é o que chamamos de esquentamento de gado, quando uma fazenda que está bloqueada pelo frigorífico vende usando o nome de outra fazenda que não tem nenhuma restrição; e o terceiro é o CAR, o Cadastro Ambiental Rural.” O procurador explica que os dados do CAR são declaratórios, e é com base neles que os frigoríficos checam se pode haver a compra, mas o documento ainda está sujeito a várias fraudes, porque ainda não foi validado nem pelo governo federal nem pelo estadual. “Uma empresa só vai poder dizer que não tem desmatamento ilegal quando solucionar esses três pontos”, diz ele. “Não se consegue controlar nem o indireto e nem a transferência de gado se não tiver a rastreabilidade individual” (Daniel Azeredo, procurador federal) E como solucioná-los? “Sempre digo que a melhor resposta seria o monitoramento individual, pois assim resolveria o problema do lote com mistura de animais e a dúvida sobre a origem. Saber sempre a origem do animal, desde o nascimento, resolveria vários outros problemas, como a questão da grilagem”, diz a pesquisadora e diretora executiva do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Ritaumaria Pereira. A pesquisadora do Imazon observa que, na maior parte das vezes, quando a área é grilada, a primeira coisa que os invasores colocam sobre a terra é pasto e boi. “E esse boi não morre de velho no pasto, ele é vendido para alguém, que vai vender para o frigorífico.” Contudo, obrigar o produtor a adotar a identificação individual desses animais não é tão simples. O procurador Daniel Azeredo lembra que, em 2009, já se sabia que a questão do fornecedor indireto era um problema, mas não havia – ou não foi pensado– nenhuma tecnologia que permitisse fazer, naquela época, o controle do indireto. Na opinião de Azeredo, como passar dos anos, parece que a única solução que realmente resolve é a rastreabilidade completada cadeia. “Você não consegue controlar nem o indireto nem a transferência de gado se não tiver a rastreabilidade individual. E por que ela não é implementada nos acordos? Porque não há lei que obrigue o frigorífico a fazer isso, e se não há lei não se pode exigir”, diz ele. Sem obrigatoriedade de identificação individual, a solução encontrada pelos frigoríficos passa pelo uso de protocolos de monitoramento sanitário e fundiário já existentes, como a Guia de Trânsito Animal e o próprio Cadastro Ambiental Rural. As informações das duas fontes têm sido combinadas aos sistemas próprios desenvolvidos por cada empresa frigorífica, a fim de mapear o risco ambiental na aquisição de animais nos biomas Amazônia e Cerrado – medidas que têm se mostrado insuficientes para responder à crescente cobrança do mercado internacional por maior sustentabilidade na cadeia de produção da carne bovina. “A gente tem muitos problemas aqui na Amazônia, muita terra grilada, muito problema de regularização fundiária, muita sobreposição de pasto a terras indígenas e unidades de conservação… Então acho que sempre que for buscado, investigado, vai acontecer algum tipo de escândalo sim. Principalmente das grandes empresas que atuam aqui. Se fuçar bem, chega lá e encontra”, destaca a pesquisadora Ritaumaria. “A pecuária brasileira é muito desigual. Tem a indústria de ponta e a pecuária de subsistência” (Fabiola Zerbini, pesquisadora da Coalizão) De acordo com dados do Mapbiomas, a área de pastagem no bioma amazônico em 2021 somava 54,9 milhões de hectares, sendo 86% delas resultado da derrubada de vegetação nativa nos últimos 32 anos. “Efetivamente, a pecuária é a atividade que mais desmata, em especial a Amazônia, mas já vemos isso em outros biomas, como Cerrado e Pantanal. Quando se desmata para colocar pastagem, é uma atividade não lucrativa, muito mais de sobrevivência, que não gera desenvolvimento econômico”, explica a pesquisadora do Grupo Executivo da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Fabíola Zerbini. Diretor global de sustentabilidade da Minerva Foods entre dezembro de 2019 e maio deste ano, o atual diretor de sustentabilidade do Rabobank no Brasil, Taciano Custódio, destaca que essa pecuária de baixa tecnologia e baixa produtividade não é capaz de atender aos padrões internacionais exigidos hoje pelas

Por que o Passaporte Verde é bom para a pecuária

Projeto para a pecuária de Mato Grosso quer mostrar ao mundo que a carne produzida no estado é confiável e sustentável Por: Caio Penido Sou presidente do IMAC (Instituto Mato-grossense da Carne) e nele desenvolvemos ações em Mato Grosso. Como apoio à regularização ambiental, intensificação da pecuária, melhora do balanço de carbono da carne, rastreabilidade. São ações em que a gente está trabalhando a sustentabilidade do Estado, a conscientização. Acho que a questão do pequeno produtor chegou forte nos negócios agrícolas, tanto na agricultura quanto na pecuária. É a nova fronteira aí de preocupação do ESG, da COP27. Então, tem de ter um olhar. Sim, é complexo, e a gente, no IMAC, também está olhando. Hoje (18), aqui na COP, apresentamos o Passaporte Verde. A gente quer dar um passaporte para carne de Mato Grosso, para que ela consiga acessar os mercados do mundo, mostrando a sustentabilidade que está inserida nessa carne. Que é uma carne que garante a conservação da biodiversidade por lei. Que tem um sistema de rastreabilidade nos abates. Toda a carne que é exportada passa por um sistema de rastreabilidade; e 80% dos abates de Mato Grosso já são verificados. A gente tem que mostrar isso para o mundo e o Passaporte Verde vai mostrar isso. Além disso, a gente estimula uma pecuária de Baixo Carbono, intensificando as passagens degradadas, reduzindo a idade do abate, porque ao reduzir a idade de abate você tem uma carne mais jovem, um boi mais jovem e uma carne mais macia. Então, tudo é um ganha ganha, onde o estado se regulariza, os pecuaristas ganham mais e as indústrias frigoríficas têm mais escala. E temos o desafio, também, da rastreabilidade do indireto. E que é o (fornecedor de gado) indireto? É o fornecimento indireto para a indústria. O fornecimento direto é o boi que está indo para o abate. O indireto é bezerro e o bezerro, muitas vezes, está nas pequenas propriedades. Então, tem um desafio importante para a gente olhar para esse pequeno produtor, que muitas vezes não têm acesso à regularização ambiental. Como a gente vai desfazer esse nó e garantir que toda a cadeia de Mato Grosso esteja seguindo a legislação brasileira. A gente quer dar um Passaporte Verde para toda a carne de Mato Grosso. Caio Penido é pecuarista com fazenda na Serra do Roncador, no Vale do Araguaia, em Mato Grosso. Foi um dos idealizadores do movimento Liga do Araguaia, hoje um instituto que reúne cerca de 60 produtores do vale. Atualmente, é presidente do IMAC ( Instituto Mato-grossense da Carne), organismo que reúne os elos da cadeia produtiva para o investimento em pesquisas e tecnologias. Fonte: Forbes Curadoria: Boi a Pasto

Rede Nacional da Agricultura Irrigada se reúne com equipe de transição

“Sem irrigação não terá alimento suficiente. A produtividade fica maior em área irrigada”, afirma presidente do Ibrafe Irrigar com responsabilidade para alimentar o Brasil e o mundo. Esse é um dos focos principais da Rede Nacional da Agricultura Irrigada (Renai), que se reuniu nesta semana com a equipe de transição do Governo Federal para falar das pautas fundamentais para o avanço do sistema de irrigação no Brasil. Enfrentar os desafios da necessidade de aumento de produção agrícola e o desenvolvimento sustentável da agricultura irrigada brasileira, visando segurança alimentar e ambiental, sustentabilidade do agronegócio e redução da fome e da pobreza no Brasil e no mundo. Esses princípios regem o documento entregue ao vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), líder da equipe de transição do governo, que se mostrou aberta ao tema e disposta a negociar formas de tornar possível a ampliação consciente do uso da irrigação no país. A Renai foi idealizada em 2020 e vem tomando forma desde então, sendo oficializada em 2022. O grupo é constituído por representantes de associações de irrigantes, de polos de irrigação, de nichos da agricultura que dependem da irrigação e da indústria. O Instituto Brasileiro do Feijão, Pulses e Colheitas Especiais (Ibrafe) faz parte do Renai, representando o feijão e as demais pulses. A entidade atua em várias frentes, buscando incentivar estudos e o uso de tecnologias que proporcionem mais segurança ao uso racional da água, fazendo um contraponto à desinformação sobre a irrigação. “Sem irrigação não terá alimento suficiente. A produtividade fica maior em área irrigada, evitando inclusive o aumento das áreas de desmatamento. Essa é uma pauta de suma importância, que reúne todos os setores que dependem da água. Estamos em busca de colaborar e incentivar para que novas tecnologias garantam possamos produzir assegurando a segurança alimentar da população de hoje e do futuro”, enfatiza o presidente do Ibrafe, Marcelo Eduardo Lüders. Dificuldades do setor da agricultura irrigada Apesar de seu alto potencial tecnológico para a melhoria na quantidade e qualidade alimentar, a irrigação sofre pelo alto índice de desinformação, que dificulta o avanço de novas áreas de cultivo irrigado. De acordo com o Atlas de Irrigação 2021, publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Brasil tem potencial para aumentar sua área irrigada em 4,7 milhões de hectares. No entanto, em 2021 o total irrigado no país foi apenas de 370 mil hectares. O déficit de conhecimento favorece a polarização entre os usuários de recursos hídricos, que ao invés de cooperarem entre si, entram em disputas. Água é sinônimo de diálogo, de compartilhamento e de integração. Não deve ser geradora de conflitos, mas sim de oportunidade para o desenvolvimento. “Muitos não tem noção do quanto a irrigação é importante para todo o tipo de cultivo, desde as flores até os alimentos. Todos os alimentos dependem de água e o uso racional faz com que a produção aumente sem prejuízo ao meio ambiente”, complementa Lüders. Segurança alimentar é preocupação do Renai O documento criado pelo Renai explica que o planeta precisa se preparar para alimentar 10 bilhões de pessoas até 2050. Neste contexto, há a necessidade de aumentar a produção de alimentos em pelo menos 60% no mesmo período, ao mesmo tempo em que a redução do desmatamento e a preservação ambiental são preocupações mundiais de primeira ordem. A irrigação, quando realizada de forma sustentável, complementa a demanda hídrica das culturas não atendida pela chuva, trazendo estabilidade à produção de alimentos. O processo de irrigação é, sem dúvida, a tecnologia com maior potencial de contribuir para o aumento da segurança alimentar e ambiental, bem como para redução da fome e da pobreza, além de gerar grande número de empregos. O sistema traz benefícios importantes relacionados à produção de alimentos, à geração de empregos, ao desenvolvimento social e ao meio ambiente e, de tal forma, é uma tecnologia fundamental em qualquer planejamento estratégico de Estado. Fonte: Canal Rural Curadoria: Boi a Pasto