Capim além da cobertura: raízes profundas impulsionam saúde do solo e eficiência produtiva

Uma análise em escala nacional confirmou o potencial das gramíneas tropicais de raízes profundas, como a braquiária, para impulsionar a produtividade da soja e promover melhorias significativas na saúde do solo. O estudo, liderado pela Embrapa e publicado na revista Agronomy journal, reúne evidências de diferentes pesquisas realizadas no país e reforça o papel dessas plantas na intensificação sustentável da agricultura.
Os dados são resultado de uma meta-análise conduzida por pesquisadores da Embrapa Cerrados, em parceria com a Embrapa Solos, o Instituto Federal Catarinense e a Universidade Federal Tecnológica do Paraná. O método científico permite consolidar resultados de diversos estudos sobre um mesmo tema, garantindo maior robustez às conclusões.
Segundo a pesquisadora Ieda Mendes, da Embrapa Cerrados, o trabalho buscou preencher uma lacuna sobre os impactos dessas gramíneas em escala nacional. “As gramíneas tropicais estão cada vez mais presentes nos sistemas agrícolas brasileiros, mas ainda faltava uma avaliação abrangente sobre seus efeitos na saúde do solo e na produtividade da soja”, afirmou.
Ganhos de produtividade e retorno econômico
A meta-análise avaliou 55 estudos publicados até fevereiro de 2026, com ensaios realizados em 33 localidades brasileiras. O foco foi analisar o uso de gramíneas tropicais de raízes profundas como culturas antecessoras — cultivadas antes da soja — e seus efeitos sobre indicadores biológicos do solo e o desempenho da cultura.
Os resultados apontam aumento médio de 15% na produtividade da soja, o equivalente a 515 kg por hectare. Em termos econômicos, o incremento representa uma receita adicional estimada em US$ 198 por hectare. Os efeitos positivos foram observados em diferentes espécies forrageiras, sistemas de manejo e condições edafoclimáticas.
No caso das braquiárias, especialmente do gênero Urochloa, o custo de implantação é considerado baixo. A utilização varia entre 3 e 10 kg de sementes por hectare, com preço médio de cerca de US$ 3 por quilo, resultando em um investimento entre US$ 9 e US$ 30 por hectare.
Indicadores biológicos do solo avançam
Além dos ganhos produtivos, o estudo identificou melhorias expressivas nos indicadores de saúde do solo. Entre os principais avanços estão o aumento da atividade das enzimas arilsulfatase (+35%) e β-glicosidase (+31%), além da fosfatase ácida (+20%). Também foram registrados incrementos no carbono da biomassa microbiana (+24%) e no carbono orgânico (+11%).
De acordo com Mendes, as enzimas do solo se mostraram especialmente sensíveis às mudanças promovidas pelas gramíneas. “Os aumentos médios foram de cerca de 31%, quase três vezes superiores aos observados para o carbono orgânico, o que reforça o potencial dessas enzimas como indicadores de qualidade do solo”, explicou.
A pesquisadora ressalta que, embora existam estudos sobre atributos químicos e físicos do solo, o número de comparações disponíveis ainda é limitado, o que impediu sua inclusão na análise.
Crescente interesse pela tecnologia
O levantamento também revela a evolução do interesse científico pelo tema. Nenhum dos estudos analisados foi publicado entre 2000 e 2010. Já entre 2011 e 2020 foram identificadas 18 publicações, número que saltou para 37 no período entre 2021 e 2025.
Outro dado relevante é que, das 173 comparações avaliadas, 154 apresentaram ganhos de produtividade, variando de 30 a 2.200 kg por hectare. Apenas 11% indicaram perdas, geralmente associadas a falhas no manejo das gramíneas e, na maioria dos casos, sem significância estatística.

Ilustração esquemática que sintetiza os principais efeitos positivos do cultivo de gramíneas tropicais de raízes profundas sobre os indicadores biológicos da saúde do solo e a produtividade da soja em condições de campo no Brasil
Bioinsumos vivos e agricultura regenerativa
Os resultados reforçam o papel das gramíneas tropicais como ferramentas estratégicas para a intensificação sustentável dos sistemas agrícolas. Segundo a pesquisadora, espécies do gênero Urochloa devem ser reconhecidas não apenas como plantas de cobertura, mas como verdadeiros bioinsumos.
“Essas gramíneas fornecem múltiplos serviços ecossistêmicos, como estímulo à atividade microbiana, melhoria da estrutura do solo, ciclagem de nutrientes, aumento do carbono orgânico e maior infiltração de água”, destacou.
Nesse contexto, passam a ser consideradas “bioinsumos vivos”, ampliando o conceito tradicional, que geralmente se restringe a produtos formulados. A adoção em larga escala dessas espécies como culturas antecessoras da soja, segundo Mendes, representa um investimento estratégico no solo como ativo produtivo.
“A funcionalidade biológica do solo é central para promover produtividade, sustentabilidade e resiliência nos agroecossistemas”, concluiu.
Redação Boi a Pasto Jornalista Camila Gusmão – MTB 63035/SP com auxílio da IA e Embrapa






