Plataforma foi apresentada na última Jornada Nespro/Ufrgs e será lançada oficialmente na segunda quinzena de julho
Por Gustavo Paes para o portal Boi a Pasto

Os produtores rurais do Rio Grande do Sul enfrentaram, nos últimos anos, uma sucessão de eventos climáticos extremos – enchentes, estiagens prolongadas e ondas de frio congelante – e muitas vezes foram surpreendidos pela intensidade desses fenômenos, que causaram perdas significativas. Os prejuízos para os criadores superaram R$ 280 milhões apenas nos picos das enchentes históricas de abril e maio de 2024. Considerando o somatório de anos de secas severas sucessivas, as perdas estimadas para o setor agropecuário como um todo ultrapassaram a marca de R$ 100 bilhões na economia estadual.
A boa notícia é que eles terão, em breve, acesso a uma plataforma de alertas climáticos direcionados para a pecuária. A novidade, desenvolvida em parceria entre o Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos e Corte e Cadeia Produtiva (Nespro) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e a VortixGeo, uma empresa paulista de inteligência climática e geoespacial, foi apresentada durante a 21ª Jornada Nespro e 2º Congresso de Criadores, que ocorreu nos dias 24 e 25 de junho no BarraShopping Sul em Porto Alegre (RS).
O co-fundador e CEO da VortixGeo, Renato Bicalho Aboud, afirma que a ferramenta unifica dados climáticos e geoespaciais em uma plataforma de monitoramento contínuo. A VortixGeo permite análises de fogo, água, desmatamento, áreas protegidas, cadastro rural e clima, para decisões ambientais com base em evidência. “O clima deixou de ser apenas um fator de observação para se tornar um elemento estratégico da gestão pecuária”, destaca Aboud. O administrador de empresas assegura que o produto é inédito no Brasil e só tem a concorrência de outro lançado na Austrália.
Segundo o especialista, são três produtos – monitor, agro e consulta ambiental – sobre uma base comum, que compartilham o mesmo núcleo de dados climáticos e geoespaciais. Cada um aplica a uma decisão diferente: monitorar um território, cuidar do rebanho ou avaliar a conformidade de um imóvel.
No agro, a ferramenta foi construída a partir de 14 índices definidos por pesquisadores do Nespro e organizados em seis eixos principais: bem-estar animal, sanidade, nutrição, reprodução, manejo e gestão de riscos. Entre os indicadores monitorados estão o risco de ocorrência de carrapatos, condições favoráveis para doenças, impactos de ondas de calor ou frio intenso e períodos mais adequados para reprodução.

Cada índice tem base científica publicada e classifica o risco em cinco faixas, de conforto a crítico, com alertas de eventos extremos. O índice de sanidade aponta, entre outros, o risco de infestação de carrapato e estima o avanço do ciclo do carrapato bovino (Rhipicephalus microplus) por graus-hora de temperatura acumulados; reinicia ao atingir 250 horas e alerta pela previsão. “Ele emite um alerta quando este índice vai aumentando. O objetivo é avisar o pecuarista que o risco está ficando alto e que este índice está chegando ao seu limite”. detalha.
A ferramenta também alerta sobre o risco de doenças nos cascos de bovinos e ovinos (IRDP) e avalia a probabilidade de doenças podais (podridão do casco, pododermatite) com base em chuva acumulada, umidade do solo e temperatura. Outro alerta é sobre o conforto térmico dos animais, também provocado a combinação de calor e umidade. “O estrese térmico é o fator mais relevante e mais silencioso — o produtor só percebe quando já apareceu queda de peso e queda de fertilidade”, analisa.
Aboud frisa que existem pelo menos 200 variáveis climáticas que podem contribuir com a tomada de decisão do produtor. A plataforma está sendo avaliada em oito propriedades no Rio Grande do Sul que são monitoradas pelos pesquisadores do Nespro.
Antecipar a decisão
O coordenador do Nespro, médico veterinário Julio Otávio Jardim Barcellos, destaca que a proposta é disponibilizar aos produtores uma ferramenta capaz de antecipar riscos e apoiar decisões técnicas com base nas condições específicas de cada fazenda. “A expectativa é que o sistema ajude os produtores a antecipar situações de risco, reduzir perdas e aumentar a capacidade de planejamento diante dos desafios impostos pelas condições climáticas, cada vez mais determinantes para a produtividade da pecuária”, observa.
O CEO da VortixGeo ressalta que a proposta da empresa vai além da previsão do tempo tradicional. A ferramenta cruza dados climáticos históricos, projeções futuras e informações geográficas das propriedades para gerar indicadores que auxiliem o produtor na tomada de decisão. “A meteorologia normalmente informa o clima da cidade. Nós conseguimos trabalhar com o microclima da propriedade, em um raio de quatro quilômetros, podendo chegar a 15 minutos de atualização, o que torna as informações muito mais assertivas para quem está no campo”, sublinha.
O sistema de alerta climático utilizará informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) ou coordenadas geográficas fornecidas pelo produtor para personalizar as análises. A partir disso, a plataforma emitirá alertas classificando cada indicador em níveis de risco e apontando medidas preventivas. “Nós não damos a solução. Nosso objetivo é antecipar ao produtor a decisão. Se determinado índice vai migrar para um nível crítico nos próximos dias, ele ganha tempo para agir, minimizar custos e reduzir perdas”, completa Aboud.






