julho 14, 2026

Forragem hidropônica é opção na pecuária

Técnica inovadora assegura um fornecimento constante de pasto verde, garantindo autonomia e segurança alimentar

Por Gustavo Paes para o portal Boi a Campo

O temido El Niño está de volta. E, com ele, aumenta a preocupação dos produtores rurais do Rio Grande do Sul com a alimentação do gado. No estado mais ao sul do Brasil, o fenômeno climático extremo está associado a um maior volume de chuvas e temperaturas elevadas, que afetam a pecuária por meio da redução do volume e da qualidade das pastagens.

A forragem verde hidropônica (FVH) vem ganhando destaque no cenário da pecuária brasileira e atua como um complemento nutricional de alto valor na pecuária. Embora não substitua totalmente o pasto ou a ração concentrada, é uma excelente solução estratégica para garantir alimento fresco, rico em proteínas e de alta digestibilidade durante o ano todo para equinos, bovinos de corte e de leite, ovinos, caprinos e suínos.

Trata-se de um sistema de produção de alimento vivo, cultivado por meio da hidroponia (cultivo sem solo), que transforma grãos de cereais como milho, aveia, cevada e trigo em uma massa verde altamente nutritiva, rica em proteínas, vitaminas e minerais. O processo, que dura cerca de 7 a 11 dias, é feito em ambiente controlado, com temperatura, umidade e luminosidade ajustadas, resultando em um alimento de alta digestibilidade (90% a 95%), ideal para bovinos, equinos, ovinos e caprinos.

A tecnologia representa um avanço tecnológico na pecuária, pois permite produzir alimento de alta qualidade durante todo o ano, independentemente das condições climáticas. Em regiões afetadas por secas ou excesso de chuvas, a FVH assegura um fornecimento constante de pasto verde, garantindo autonomia e segurança alimentar ao produtor rural.

Além disso, o sistema promove uma significativa economia de água e espaço — consome até 98% menos água do que métodos convencionais e pode ser cultivado em áreas reduzidas, como estufas, garagens ou galpões adaptados. Essa eficiência torna o método viável até para pequenos e médios produtores.

No cultivo de FVH são utilizadas plantas de crescimento acelerado, com ciclo curto de produção e elevado rendimento de fitomassa fresca, possuindo pouco conteúdo de fibras, alto teor proteico, boa digestibilidade, com grande quantidade de aminoácidos livres, que são facilmente aproveitados pelos animais. Os sistemas de forragem hidropônica geralmente utilizam cereais como aveia (Avena sativa), cevada (Hordeum vulgare), girassol (Helianthus annuus), linhaça (Linum usitatissimum), sorgo (Sorghum bicolor), milho (Zea mays), milheto (Pennisetum glaucum) ou legumes, como alfafa (Medicago sativa), trevo (Trifolium) ou ervilhas (Pisum sativum).

A forragem hidropônica é um alimento vivo, que é retirado da estufa em plena função clorofilina, altura em que a forragem apresenta mais enzimas e vitaminas. As plantas são colhidas quando medem, em média, de 23 a 24 centímetros de altura, dependendo da cultura. É um germinado, e como tal vai carregado de vitaminas A, B, C e E, que são importantes para a saúde e bem-estar dos animais. Geralmente, a FVH constitui dieta completa de carboidratos, açúcares, proteínas, minerais e vitaminas. Seu aspecto, sabor, cor e textura conferem grande palatabilidade aumentando a assimilação de outros alimentos.

A FVH oferece uma alta qualidade nutricional a baixo custo, podendo ser considerado um alimento ecológico, pois não há utilização de herbicidas e pesticidas. O interessante é que, com a produção de forragem hidropônica, não há mais preocupação com a influência do clima. O produtor também consegue reduzir consideravelmente os gastos com máquinas, custos de armazenamento, combustíveis, produtos fitossanitários, corretivos e fertilizantes. O produto possui excelente qualidade, quando administrada aos rebanhos em sua totalidade (sementes, folhas, caules, raiz e substrato).

Produto inovador

Como ainda é considerada uma tecnologia inovadora, a adoção da forragem verde hidropônica no Brasil ainda esbarra na falta de equipamentos apropriados para a produção. A Biofeed, de Vicente Pires (DF), que nasceu em 2023 a partir da fusão da Agrosolux (Hidroponia Vertical) e a Gemptec (Serviços Técnicos e Ambientais), é uma exceção.

A companhia fabrica estruturas modulares e automatizadas (como cabines e contêineres) para o cultivo em sistema indoor de grãos germinados (aveia, cevada, milho e trigo) sem uso de solo ou agrotóxicos de todas as capacidades produtivas, ou seja, desde 200 quilos por dia de produção, até o quanto for necessário para atender a demanda de projetos pecuários com grande escala.

“O nosso portfólio atende desde a agricultura familiar com a a planta Bio 100, que faz 100 quilos/dia até a Bio 1000, que faz uma tonelada por dia, mas também temos clientes médios e grandes, com galpões de 1 mil metros quadrados”, declara o diretor de Desenvolvimento de Negócios e Projetos da Biofeed, Roberto Arana Elmôr.

Além disso, produz, em seu polo de produção do PAD-DF, a FVH de aveia, milho, trigo, cevada, sorgo para comércio in natura ou peletizada, nossa ração verde com mais de 90% de digestibilidade. A unidade principal da empresa tem uma área de 2,4 mil metros quadrados, com capacidade de produção diária de 80,2 toneladas de FVH/dia. Esse volume permite alimentar de 700 a 2 mil animais por dia.

A empresa está presente em nove estados e no Distrito Federal, contando com 30 clientes cadastrados. “Estamos negociando com Argentina, Paraguai e Bolívia, mas temos um cliente em Maldonado, no Uruguai, com uma planta de produção hidropônica para produção de leite de ovinos e bovinos para produção de queijo. O produto deles inclusive foi contemplado em 2024 com a medalha de melhor queijo do mundo”, ressalta. 

Elmôr lembra que a FVH é um complemento nutricional rico em proteínas, fibras e enzimas prebióticas, podendo substituir parte da alimentação tradicional e reduzir o uso de silagem, ração e pasto, dependendo das necessidades do rebanho. É indicada para bovinos de leite e corte, equinos, muares, caprinos e ovinos, promovendo melhor digestibilidade e aproveitamento nutricional.

“A FVH é a solução completa para a pecuária. Com alto teor proteico, de 18% a 26%, e excelente digestibilidade, de 70% a 90%, a FVH melhora a saúde animal, reduz problemas digestivos e otimiza o ganho de peso e a produção de leite. É uma alternativa sustentável e eficiente para a alimentação animal”, assinala. O empresário aponta como principais vantagens da tecnologia a alta produtividade e economia de espaço. “A economia de terra passa de 99%. O produtor consegue produzir em 1 hectare de estufa 100 toneladas de verde por dia. Considerando para silagem de milho você poderia fazer, com safra e safrinha, 50 a 60 toneladas por ano”, encerra.

BOX

‘Seguro’ contra as mudanças climáticas

Há cerca de três anos, o criador Fabio Schneider, de 43 anos, acompanhou, com tristeza, cinco animais definharem até a morte por falta de alimentos durante o inverno em seu sítio, em Glorinha, pequeno município localizado na Região Metropolitana de Porto Alegre. O pecuarista começou ali a buscar alternativas para alimentar parte do gado de corte da raça Angus, os ovinos Texel e os cavalos Crioulos da Cabanha Rio Guaíba.

A solução encontrada para alimentar os animais o ano inteiro, com qualidade e regularidade foi a forragem verde hidropônica, uma tecnologia à época ainda pouco difundida no Rio Grande do Sul. No criatório de Schneider, a FVH é produzida em ambiente 100% controlado, com estrutura adaptada à realidade do produtor. A planta conta com uma área de 18 metros quadrados, o que permite a produção de 300 quilos por dia ou 108 toneladas de forragem hidropônica a cada ano.

“Com esse volume diário de forragem, eu consigo alimentar diariamente cerca de 30 ovelhas, 12 cavalos nas cocheiras e outras dez vacas. No campo, para alcançar esta produção, seria necessária uma área de 2 hectares [20 mil metros] e safras totais, sem nenhuma perda”, compara Schneider, que divide a paixão pelos animais com a direção de uma empresa de tecnologia da informação. A companhia dele, inclusive, fabrica a placa que controla todas as funções de automação do sistema.

 “Produzida em poucos dias e livre de aditivos químicos, a FVH se encaixa em qualquer sistema de manejo com simplicidade e eficiência. A FVH possui alta digestibilidade, de 85% a 90%, é um alimento completo e orgânico, tem alto teor de proteínas -18% a 26% – e é uma fibra de alta qualidade. Ela é quase uma apólice de seguro contra as mudanças climáticas e o El Niño”, declara.

O produtor pretende ampliar a estrutura para aumentar o rebanho de bovinos Angus e estima chegar, em cinco anos, em uma instalação que permita a produção diária de 2 a 3 toneladas de FVH.  “Com essa produção consigo montar um confinamento com cerca de 300 cabeças de gado”, destaca. Cada quilo de semente forrageira rende de cinco a oito quilos de massa verde, segundo ele, “Hoje, por dia eu forneço um tapete de forragem de 10 quilos por cavalo, um custo de R$ 4,00. Se eu fosse cultivar alfafa, passaria a R$ 20,00”, calcula.

Schneider conta que o investimento inicial na estrutura é de aproximadamente R$ 200 mil, o que, a princípio, assusta os produtores rurais. “Mas as pessoas não calculam o valor de um hectare, de um trator ou plantadeira, dos insumos, da mão de obra. A estrutura de FVH é um investimento que vai durar 20 anos e se paga com sobra”, salienta.   

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