A combinação de chuva, frio e ventos provoca queda na produtividade dos rebanhos

Durante o inverno no Rio Grande do Sul, o gado sofre com as chuvas, as baixas temperaturas, granizo e o minuano (vento que sopra do Sul). O estresse térmico pode ocorrer tanto por frio extremo (quando a umidade e o vento aumentam a perda de calor corporal), quanto pelo calor pontual (dias quentes inesperados típicos da estação). Em ambos os casos, a energia é desviada da produção (leite/carne) para a manutenção da temperatura.
O estresse por frio, porém, é mais comum no estado mais ao sul do Brasil e ocorre principalmente quando a temperatura cai abaixo de 10°C, combinada com ventos fortes e chuvas. Os bovinos de corte sofrem menos com o estresse térmico (neste caso, o estresse por frio) do que o gado de leite, de acordo com a pesquisadora e professora Soraya Tanure, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, (Ufrgs).
“Embora também percam peso se não tiverem proteção adequada contra o vento e disponibilidade de pasto, o estresse por frio é clinicamente mais brando do que o sofrido pelo gado leiteiro, que sente mais os efeitos pela queda na produção e qualidade do leite”, aponta a profissional.
Ela frisa que, na pecuária de corte gaúcha, predominam as raças europeias, como Angus, Hereford e Devon, e com cruzamentos entre elas ou sintéticas, principalmente a Brangus e Braford, que são mais rústicas e de pelagem mais grossa, o que confere maior resistência ao frio. “Depende muito da raça. O gado Nelore pode até morrer pelo frio. Mas, no caso do RS, os animais possuem cruza com raça europeia que se adaptam bem as baixas temperaturas”, sublinha. “No entanto, a combinação de chuva, umidade e ventos rouba o calor corporal do animal rapidamente, agravando, de forma severa, o quadro de hipotermia e desconforto para ambos os grupos”, acrescenta.
Para combater o estresse por frio e umidade no inverno do estado mais ao sul do Brasil, o produtor deve adotar medidas que mantenham os animais secos e aquecidos. As principais ações incluem fornecer abrigos naturais ou artificiais contra o vento, ajustar a dieta para aumentar o aporte energético e garantir camas secas e sanidade em dia.
O estado é o terceiro maior produtor de leite do Brasil, contribuindo com cerca de 12,1% da produção (4,2 bilhões de litros em média no triênio 2020-2022) e na cadeia leiteira gaúcha predominam as raças europeias puras, principalmente a Holandês (67,03%), seguida pela Jersey (15,65%), que têm alta produção metabólica, mas pouca capa de gordura e pelagem fina, tornando-as mais vulneráveis a geadas, umidade e ventos.
Como exigem muita energia para a produção de leite, o frio intenso faz com que os bovinos de leite gastem as reservas corporais apenas para se aqueceram. Isso afeta a produção leiteira e a qualidade do leite, além de aumentar a ocorrência de doenças respiratórias como a pneumonia bovina.
Além disso, os dias com chuva acima da média e alta umidade aumentam o estresse calórico nos animais, prejudicando o ganho de peso e a produção de leite e reduzindo a eficiência produtiva. A especialista da Ufrgs ressalta que as vacas em lactação são ainda mais sensíveis às mudanças de temperatura.“Essa combinação favorece a proliferação de parasitas, fungos e bactérias, elevando a incidência de doenças”, salienta a especialista.
O manejo nutricional é fundamental. No frio, os bovinos gastam mais energia para manter a temperatura corporal. A solução é oferecer um volumoso de boa qualidade e, se necessário, suplementação energética (como grãos ou rações), para evitar a perda de peso e queda na produção.
Umidade é desafio no manejo
Embora as vacas da raça Holandesa apresentem boa adaptação às baixas temperaturas do inverno gaúcho, a combinação de frio, vento e umidade aumenta os desafios de manejo nas propriedades. A superintendente técnica substituta da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Maíza Scheleski, explica que as baixas temperaturas não costumam prejudicar a produção leiteira.“As vacas leiteiras da raça Holandesa toleram muito bem o frio, que pode até favorecer a produção. O grande desafio dessa época é justamente a combinação de frio, vento e umidade, muito comum no nosso estado”, observa.

Entre os principais cuidados está a oferta de áreas secas e protegidas, especialmente após períodos de chuva. O excesso de barro e de umidade favorece problemas sanitários e pode comprometer o bem-estar do rebanho. Os reflexos, segundo Mayza, aparecem principalmente nos cascos e na saúde da glândula mamária. “É importante garantir que os animais tenham acesso a áreas secas e protegidas, principalmente após períodos de chuva. O excesso de barro e umidade aumenta o risco de problemas nos cascos, além de favorecer a ocorrência de mastite”, diz.
As categorias mais jovens também exigem cuidados específicos durante o inverno. “Instalações limpas, secas, protegidas do vento e com boa cama ajudam a reduzir os problemas respiratórios, muito comuns nessa época do ano”, declara a superintendente técnica substituta da Gadolando.
Estresse térmico pelo calor
O gado leiteiro também sofre com os efeitos do estresse térmico no verão, conforme a Circular técnica 33 – Risco potencial de estresse térmico calórico para bovinos leiteiros nas regiões ecoclimáticas do RS, publicada pelo Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (DDPA/Seapi).
O estudo avaliou dados de temperatura do ar e umidade relativa registrados em 29 estações meteorológicas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS), considerando as primaveras de 2022, 2023 e 2024 e os verões de 2022/2023, 2023/2024 e 2024/2025.
A publicação mostra que, embora os valores médios do Índice de Temperatura e Umidade (ITU) nem sempre indiquem situação de estresse, os valores máximos e a duração das horas em desconforto revelam um cenário de atenção para a pecuária leiteira gaúcha. “O risco foi mais evidente nos verões, quando cerca de 70% das regiões avaliadas apresentaram condição média de estresse térmico leve a moderado nos ciclos 2023/2024 e 2024/2025. Em alguns locais, os máximos absolutos do ITU chegaram a níveis severos ou críticos”, destaca uma das autoras do estudo, pesquisadora e médica veterinária do DDPA, AdrianaKroefTarouco.

Conforme outra autora do estudo, pesquisadora Ivonete Tazzo, as regiões mais vulneráveis foram Vale do Uruguai, Baixo Vale do Uruguai, Missioneira e Depressão Central, áreas de menor altitude e com maior exposição a temperaturas elevadas. “O destaque é o Vale do Uruguai, uma das principais bacias leiteiras do Estado, onde a combinação de calor e umidade representa risco direto à produtividade e ao bem-estar dos animais”, alerta.
A publicação reforça que o monitoramento contínuo das condições meteorológicas e do ITU deve fazer parte da rotina dos sistemas leiteiros, principalmente nos períodos mais quentes do ano. Entre as medidas recomendadas estão sombreamento natural ou artificial, oferta permanente de água fresca, ventilação, ajustes no manejo alimentar e maior atenção durante ondas de calor. O estudo também evidencia a necessidade de estratégias regionalizadas, já que regiões de maior altitude, como as Serras do Nordeste e do Sudeste, apresentaram condições mais favoráveis de conforto térmico.
Bem-estar animal
A Metalúrgica Rahsal, sediada em Victor Graeff, na Região Norte do Rio Grande do Sul, é uma empresa consolidada com quase 40 anos de atuação no ramo agropecuário. Especializada no setor de leite, a companhia se destaca pelo desenvolvimento de infraestrutura, bem-estar animal e soluções completas para a pecuária.
Criada em 1986, a Rahsalé referência no fornecimento e montagem de estruturas voltadas à produção leiteira, oferecendo um portfólio que inclui instalações de confinamento. A metalúrgica desenvolve projetos completos para sistemas como galpões de freestallecompost barn, casinhas, salas de ordenha e bezerreiras premium. Além de estruturas metálicas, pré-moldadas e de madeira para o meio rural.
A Rahsal atende principalmente o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná, com forte atuação na Região Sul do Brasil para projetos de pecuária leiteira. “A metalúrgica também atende clientes em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Mas, em função da logística, nunca chegamos a construir projetos de maior porte nesses estados”, adianta o diretor Joel Huppes.
O empresário diz que atualmente a Rahsal trabalha exclusivamente com confinamentos leiteiros, focando no bem-estar dos animais. “Nós fabricamos galpões de freestallecompost barn, que têm capacidade para abrigar de 20 até 400 animais. Os clientes procuram mais pelas instalações durante o inverno, para oferecer uma cama limpa e seca para o gado, e também no verão. Quando o calor excessivo reduz a produção de leite”, completa Huppes.
Cuidados com os ovinos
Os ovinos também exigem atenção. Os meses de julho, agosto e setembro, período de maior concentração de nascimentos de cordeiros nos rebanhos comerciais do sul do Rio Grande do Sul, deverão exigir cuidado redobrado dos ovinocultores neste ano. A previsão de intensificação do fenômeno El Niño, com aumento do volume de chuvas, somada às baixas temperaturas típicas do inverno, pode elevar os índices de mortalidade de animais recém-nascidos.

O inspetor técnico da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Frederico Gonçalves Rott, explica que a principal preocupação está relacionada ao chamado complexo exposição-inanição, considerado a principal causa de mortalidade de cordeiros nas primeiras horas de vida. “O cordeiro passa de uma temperatura corporal em torno de 39ºC, no ventre da mãe, para uma temperatura ambiente próxima de 0ºC e, muitas vezes, negativa. Quando isso se soma à chuva, a perda de calor é ainda maior”, assinala Rott. A dificuldade para manter a temperatura corporal compromete a capacidade do animal de se levantar, buscar o úbere da ovelha e ingerir o colostro, etapa fundamental para fornecer energia e permitir a produção de calor, segundo ele.
A condição nutricional das matrizes no terço final da gestação também influencia diretamente na sobrevivência dos cordeiros. “Se ele não tiver reservas corporais suficientes, terá dificuldade para se levantar, buscar o úbere da ovelha e ingerir o colostro, o que é fundamental para fornecer energia e ajudá-lo a regular a temperatura corporal”, ressalta o inspetor técnico. Por esse motivo, o planejamento nutricional das ovelhas deve integrar as estratégias adotadas pelos produtores antes do início das parições.
Entre as tecnologias indicadas pelo especialista está a esquila pré-parto, realizada no último terço da gestação. A retirada da lã, conforme Rott, estimula maior consumo de alimento pelas matrizes justamente no período de maior exigência nutricional do feto. “Com isso, o cordeiro nasce mais bem nutrido, com mais reservas corporais e maior capacidade de enfrentar as adversidades climáticas”, declara. Além de favorecer o desenvolvimento fetal, a prática facilita o acesso do recém-nascido ao úbere durante a primeira mamada.
Quando a esquila pré-parto não é adotada, a limpeza da lã na região do períneo e do úbere das ovelhas também pode contribuir para aumentar a sobrevivência dos cordeiros. A medida facilita a aproximação do recém-nascido ao teto e ainda ajuda a manter a região limpa no período pós-parto.
Outra recomendação é oferecer ambientes protegidos para as parições, reduzindo a exposição dos cordeiros ao frio e ao vento nas primeiras horas de vida. Potreiros com bosques, galpões, mangueiras e estruturas improvisadas como quebra-vento, confeccionadas com lonas ou bags reutilizados, ajudam a minimizar os efeitos das condições climáticas.
“Quando conseguimos reduzir a ação do vento, a queda da temperatura corporal acontece de forma mais lenta. Isso aumenta o tempo de sobrevivência do cordeiro até que ele consiga realizar a primeira mamada”, conclui, acrescentando que medidas simples de manejo podem reduzir significativamente as perdas durante o período de parições.






