Bloqueio ameaça embarques pela Cota Hilton e afeta pecuaristas que investiram em rastreabilidade para receber até 5% a mais pelos animais.

A suspensão das exportações brasileiras de carne bovina para a União Europeia pode provocar reflexos além dos frigoríficos e atingir diretamente pecuaristas que investiram na produção de animais rastreados para atender mercados de maior valor agregado.
Um dos principais impactos está na Cota Hilton, destinada à exportação de cortes bovinos de alta qualidade ao mercado europeu. Caso o bloqueio permaneça, o Brasil pode deixar de faturar mais de US$ 100 milhões com esses produtos, considerando as perdas do ciclo atual e o potencial impacto no próximo ano-cota.
A interrupção das vendas brasileiras para a União Europeia começou em 3 de setembro, com a entrada em vigor das novas exigências do bloco relacionadas ao controle do uso de antimicrobianos na produção animal. Pelas regras europeias, somente países que apresentem garantias de cumprimento das normas podem exportar os produtos abrangidos para o mercado comunitário.
O governo brasileiro informou que mantém negociações técnicas e políticas com as autoridades europeias para restabelecer os fluxos comerciais. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) também afirma estar fornecendo suporte técnico ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) nas tratativas.
Mais de 2 mil toneladas podem deixar de ser embarcadas
A Cota Hilton funciona em ciclos que começam em julho e terminam em junho do ano seguinte. No período 2026/27, a quantidade destinada ao Brasil é de 10 mil toneladas, das quais 8.951 toneladas correspondem à União Europeia e 1.049 toneladas ao Reino Unido.
Diante da possibilidade de interrupção das vendas, frigoríficos brasileiros anteciparam embarques. Entre julho e agosto, foram exportadas 6.767 toneladas pela cota, equivalentes a cerca de 76% do volume destinado à União Europeia.
Mesmo assim, mais de 2 mil toneladas podem deixar de ser comercializadas neste ciclo em razão do bloqueio, o que representaria perda superior a US$ 22 milhões.
O impacto pode ser ainda maior se a situação permanecer no próximo ano-cota. Considerando um volume de aproximadamente 8,9 mil toneladas e preço médio de US$ 11 mil por tonelada, a perda potencial no ciclo 2027/28 poderia superar US$ 97 milhões.
Segundo estimativas da Abiec apresentadas na matéria original, os valores da carne comercializada dentro da Cota Hilton podem variar entre US$ 10 mil e US$ 15 mil por tonelada, dependendo do produto.
Boi rastreado perde mercado de maior valor
Para o pecuarista, a preocupação está na redução da demanda por animais preparados especificamente para atender às exigências desse mercado.
Frigoríficos chegavam a pagar aproximadamente 5% a mais pelo boi rastreado destinado à Cota Hilton. A remuneração adicional compensava, ao menos em parte, investimentos realizados pelos produtores em rastreabilidade individual, certificações e adequação dos sistemas produtivos.
“O pecuarista é mais impactado do que a indústria, porque criou um boi para estar pronto em dois anos, fez um superinvestimento em rastreabilidade individual e certificação de terceira parte”, afirmou Lhais Sparvoli, diretora de Relações Internacionais da Abiec.
A situação também pode afetar novos projetos que estavam sendo estruturados para atender ao mercado europeu.
A Astra Foods, de Cruzeiro do Oeste (PR), por exemplo, já exportava para a Europa e planejava investir na produção de bezerros para garantir a rastreabilidade desde o nascimento. A intenção era abater cerca de mil animais por ano e começar a utilizar a Cota Hilton com um contêiner de aproximadamente 24 toneladas.
Com a suspensão, o investimento foi adiado.
“Íamos começar um programa neste ano dentro de uma fazenda parceira ou própria. À medida que as vendas crescessem, pediríamos mais cota. Por ora, não vamos mais fazer isso”, afirmou o gerente de exportação da empresa, Bruno Cunha.
Segundo ele, outras indústrias também desenvolviam projetos em parceria com produtores de bezerros para atender às exigências da cota.
Produção a pasto é requisito para os animais
A Cota Hilton é direcionada a carnes bovinas frescas ou resfriadas, desossadas e de alto padrão de qualidade. Para o Brasil, representa um mercado especialmente importante para cortes nobres, como filé mignon, contrafilé, entrecôte e alcatra.
Os animais destinados a esse mercado precisam atender a critérios adicionais de qualidade, sanidade e rastreabilidade.
Entre as exigências estão bovinos jovens, com idade entre 22 e 24 meses e até quatro dentes, além de alimentação exclusivamente a pasto. As cargas também precisam ser acompanhadas por certificado de autenticidade emitido pelo país exportador.
Essas características ajudam a explicar o valor maior obtido pelos produtos.
De acordo com dados da consultoria Agrifatto citados na matéria original, os cortes comercializados pela Cota Hilton podem alcançar preços entre 30% e 40% superiores aos produtos tradicionais.
Entre janeiro e agosto, a União Europeia pagou, em média, US$ 6.212 por tonelada pela carne bovina brasileira. Na Cota Hilton, o prêmio ficou entre US$ 2 mil e US$ 2,5 mil adicionais por tonelada, dependendo do corte.
Concorrentes ocupam espaço deixado pelo Brasil
A interrupção das vendas brasileiras também abriu espaço para fornecedores concorrentes no mercado europeu.
Segundo uma fonte da indústria citada na matéria original, exportadores da Argentina e do Uruguai elevaram os preços após a suspensão brasileira. Cortes que compõem o chamado rump loin, grupo que inclui peças como alcatra, contrafilé e filé, teriam passado de aproximadamente US$ 23 mil para US$ 28 mil por tonelada.
Além do Brasil, países como Austrália, Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia, Paraguai e Uruguai participam do fornecimento de carne dentro da Cota Hilton.
No Brasil, cinco empresas estavam credenciadas para utilizar a cota no ciclo 2026/27: JBS, MBRF, Minerva, Barra Mansa e Frigorífico Silva.
Setor busca retomada das exportações
A União Europeia passou a aplicar em 3 de setembro novas condições para a entrada de animais e produtos de origem animal destinados ao consumo humano. Entre as regras está a proibição do uso de antimicrobianos para promover crescimento ou aumentar o rendimento dos animais, além de restrições a determinados medicamentos reservados na Europa para tratamento de infecções humanas.
A Abiec informou que desenvolveu, em conjunto com a Associação Brasileira das Certificadoras por Auditoria e Rastreabilidade (ABCAR) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), um protocolo privado de controle do uso de antimicrobianos. A entidade afirma que os esforços estão concentrados na reinclusão do Brasil entre os países autorizados a exportar para o bloco.
Enquanto as negociações continuam, a suspensão coloca em risco não apenas uma parcela das exportações brasileiras de cortes nobres, mas também a remuneração adicional obtida por pecuaristas que estruturaram a produção para atender um dos mercados mais exigentes e de maior valor agregado da carne bovina brasileira.
Fonte: Clarice Couto e Rafael Walendorff e Alda do Amaral Rocha / Globo Rural
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto






